Nova York, a metrópole do mundo

"The town had sprung up like a mushroom…" ( A cidade cresceu como um cogumelo...) - Nathaniel Hawthorne, Rochester, 1835

11 jul 2017
08h41
atualizado às 08h45
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Ao tomar conhecimento em 1803,  de que o presidente Thomas Jefferson acelerava os negócios com Napoleão Bonaparte para a aquisição do território da Lousiana, DeWitt Clinton, o prefeito de Nova York entrou em ação. Filho de um ex-governador, Clinton, um grandalhão de 1,90m., um mandão que facilmente era tomado de furores, percebeu de imediato as consequências negativas que aquilo poderia trazer para a sua cidade. Desde a metade do século 17, Nova York se transformara num dos portões da América. O estuário do rio Hudson, de fácil navegação, a proteção que a ilha de Mannhathan dava ao barco desejoso de lançar ferros, a posição estratégica da cidade - a meio caminho entre a Nova Inglaterra, ao norte, e a rica Virgínia do tabaco, ao sul - , fizera dela o local ideal para quem vinha tentar a sorte no Novo Mundo.

Ponte do Brooklin, Nova York
Ponte do Brooklin, Nova York
Foto: Getty Images

Com a Lousianna Purshase, como os americanos  chamavam a grande aquisição, porém, o caminho do meio oeste poderia começar bem mais ao sul, na cidade de Nova Orleans, nas margens do Golfo do México. Desaguadouro do Missouri-Missippi, com clima tépido, desconhecendo frios intensos que assolavam Nova York, ela seguramente atrairia no futuro as levas de imigrantes e o dinheiro da Europa. Isso posto, secaria o grande porto dos ianques. DeWitt Clinton não esperou mais.

Criaram-se as condições para um plano há muito sonhado pelos comerciantes da cidade: ligar Nova York ao interior do país pela construção de um grande canal. Os ianques, então, lançaram-se com afinco e com dinheiro na construção do “seu” rio  Mississippi. Um imenso conduto, o canal do Erie, de 580 km de extensão, com 72 eclusas, foi escavado à pá e picareta, rasgando a terra da periferia de Nova York - passando por Albany, Syracuse e Rochester - , até  Búfalo, na margem do lago Erie.

DeWitt Clinton ( 1769-1828)
DeWitt Clinton ( 1769-1828)
Foto: Reprodução

Ao sugar toda a crescente economia do oeste, trazendo pelo canal trigo, carvão, madeira, ferro e sal, e levando tudo o que os colonos precisavam,  o porto, que antes era o quinto da América do Norte, tornou-se o primeiro na década de 1840. Posição da qual  até hoje não o desbancaram. A façanha da gente de Nova York permitiu que um produto qualquer que saísse da Europa chegasse diretamente ao coração do meio oeste norte-americano em tempo singularmente curto. A tecnologia que desenvolveram permitiu que 90 anos depois, em 1914, o Canal do Panamá fosse aberto pelos engenheiros americanos sobre as mesmas bases. Mas Nova York deu outra lição ainda ao resto da América.

Em 1803, esse mesmo Clinton, ainda prefeito, comandou uma comissão para fazer um traçado definitivo para a ilha de Mannhattan. Os urbanistas da época imaginaram dividi-la nos moldes de uma grade, onde largas e longuíssimas avenidas, norte-sul, eram entremeadas por quadras relativamente curtas. Todas elas, as 14 avenidas e as 172 ruas, numeradas, para que os recém-chegados desembarcados de todos os lugares do mundo facilmente se locomovessem através dela.

A sua forma quadriculada serviu de inspiração para que a ocupação territorial do país seguisse o mesmo desenho, fazendo com que o mapa dos estados americanos a ela se assemelhasse. E foi assim que Nova York fez por modelar a América inteira à sua imagem.

Walt Whitman, o melhor e maior poeta que a cidade produziu, andando pelas margens do rio Hudson, olhando a bela baia de Nova York, repleta de navios de todos os tipos, indo e vindo, exaltou-a na ode Mannahatta (1860). As ruas apinhadas pelas multidões, os edifícios de aço, esbeltos, fortes, leves, em esplêndido contraste com o céu, as correntes marinhas cercando as pequenas ilhas, os altos, as vilas, os inumeráveis mastros, as lanchas, as fumaças brancas e escuras dos vapores misturando-se no ar. No centro da cidade, as casas de negócios, a chegada dos imigrantes, milhares deles por semana, as carroças trazendo alimentos, a disparada dos cavalos pelas ruas, as caras bronzeadas dos marinheiros.

Walt Whitman, o poeta e sua cidade
Walt Whitman, o poeta e sua cidade
Foto: Reprodução

No verão, o brilho claro do sol com as nuvens de vapor saindo dos barcos pairando no ar. No inverno, as neves e o gelo quebrado flutuando para cima e para baixo, ao sabor da maré. O passeio dos veículos, a Broadway, as mulheres, as lojas e os shows, um mundo onde todos se olhavam nos olhos. Um milhão de pessoas – de maneiras livres e soberbas – vozes francas – hospitalidade – a mais corajosa e amigável juventude. Cidade das águas apressadas e cintilantes. Cidade de agulhas e mastros. A cidade dele! Capital do mundo.

Especial para Terra

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