Balzac e o inferno de Paris

12 jun 2017
15h19
atualizado às 15h20
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A proliferação de impressionantes conglomerados urbanos na Europa a partir dos finais do século XVIII, provocou forte impacto entre os homens de letras. Milhares de habitantes  conviviam numa gigantesca teia citadina formada por ruas, praças e outros logradouros, sem tomarem conhecimentos uns dos outros, cada um voltado para si mesmo bem longe dos demais. O escritor Honoré Balzac (1799-1850), que deles se serviu como matéria-prima, considerou aquele tipo de vida como algo próximo a um inferno terreno. Mesmo sua amada Paris era um inferno.

O Louvre (a Obra) de Paris
O Louvre (a Obra) de Paris
Foto: Reprodução

A Paris de Balzac

A Paris dos nossos dias pouco tem a haver com aquela  de dois séculos atrás, época em que Honoré Balzac nascera. Vindo ao mundo em 1799, época em que Napoleão tornara-se cônsul, ele faleceu nas  vésperas em que a capital se veria submetida a mais radical reforma urbana da sua história com a ascensão do Barão Haussmann à chefia da prefeitura (entre 1853-1870). Ainda que Napoleão empreendesse, entre 1799 e 1814, uma série de modificações e modernizações, tais como a ampliação dos cais do rio Sena, o erguimento do Arco do Triunfo, do Arco do Carrocel, e da Coluna de Vendôme, além de aumentar as calçadas e os canos de esgoto, as guerras em que a França se envolveria até 1815, impediram que maiores recursos fossem aplicados na  remodelagem mais ampla da bela capital.

O consenso entre os urbanistas dos começos do século XIX era de que Paris deveria abandonar para sempre seu desenho medieval e adotar os princípios da luzes (longas radiais, amplas e arejadas, partindo do Arc de Triomphe de l’Étoile, deveriam cortá-la em todos os sentidos, como foi depois, por quase vinte anos,  levado a diante pelo projeto Haussmann, destruindo a ramagem de ruelas lúgubres herdadas da Lutécia antiga, refugio das pestes e dos maus-elementos).

A Paris de Balzac, todavia, era ainda imunda. A maior parte das ruas não tinha pavimentação e nos tempos chuvosos a lama se adonava de tudo. O Outono era um pavor. O sistema de esgotos era precário e a estreiteza das vielas  aumentava ainda mais a insalubridade geral. Lixo havia por toda à parte. No Verão,  ares fedentinos espalhavam-se por tudo o que explica o sucesso prodigioso da industria francesa de perfumes e de água-de-colônia. Para se preservar deles era preciso estar sempre a mão com um lenço umedecido por flagrâncias de flores para  suportar os assaltos das exalações podres.

Segundo Balzac, metade das 40 mil edificações da cidade de 300 mil habitantes estavam construídas sobre exalações fétidas vindas de  esgotos a céu aberto, o que de certa forma era responsável pela aparência pouco saudável da população, sempre “macilenta, amarela, com pele curtida”.

Os círculos do inferno de Paris

Balzac abertamente roubou de Dante o título da sua obra. Todavia, a “Comédia Humana” com seus 17 volumes editados   não se interessa minimamente pelo mundo do além como é o caso da “Divina Comédia” do bardo italiano. A “Comédia” de Balzac, que além de romancista foi um extraordinário historiador social, voltou-se inteiramente para a vida aqui na Terra tendo como seu epicentro  Paris. A metrópole lhe serviu de cenário para a maioria das suas quase 90 narrativas (entre romances, novelas, contos e ensaios), que  compõem sua vasta obra.

Rua Lutécia ao redor de 1850
Rua Lutécia ao redor de 1850
Foto: Reprodução

Mas afinal quem eram os condenados ao suplicio de viverem lá? Balzac os separou em quatro grandes grupos humanos. Os mais infelizes eram evidentemente os que pertenciam ao Mundo dos que Nada Tinham: o proletariado urbano. Eles é que faziam tudo naquele imenso atelier que fisicamente os deformava. Atrelados às maquinas, viviam com o que tinham. Na família deles todos, pai, mãe e filhos,  estavam sempre presos a alguma geringonça qualquer prestando serviços dentro daquela “jaula de argamassa” que era a cidade. Das suas mãos sujas e calosas é que surgiam as porcelanas, os fraques, os tecidos, o ferro laminado, a madeira torneada, o cânhamo, o bronze ou a lã.

“Um vagão da terceira classe” (de Honoré Daumier)
“Um vagão da terceira classe” (de Honoré Daumier)
Foto: Reprodução

Ocupavam os subterrâneos daquele vulcão produtivo apenas para atender os caprichos da cidade ou a simples Especulação (na época de Balzac não se utilizava ainda a palavra “capitalismo”). A diversão deles se limitava às tabernas e aos bordéis populares que proliferavam pelos arrabaldes. A sorte do governo é que eles se embriagavam (se bem que isso por vezes podia servir como combustível da revolução), e depois, azedados pela ressaca, tinham que novamente voltar ao batente, todos eram escravos da Necessidade.

Serviam-se de um exército de prostitutas que viviam de abrir e fechar os cintos para eles. Jovens operários, “ainda que nascidos para serem belos”, em pouco tempo viravam sombras, espectros. Assim, se  o sexo e o álcool os exauriam, era o trabalho quem  os “vulcanizava”.

Entretanto, mesmo que num meio hostil e duro, nasciam Napoleões entre eles. Alguns se faziam na vida. Alugavam ou compravam uma loja ou conseguiam com sucesso tocar um negócio que lhes permitisse a independência financeira, fazendo com que galgassem um outro patamar,  o do Mundo dos que Têm Algo.

Estes viviam “dentro de regras”. Liam jornais e alguns cantavam no coro da igreja, outros até tinham ingressos para a Ópera. Orgulhosos, integravam a Guarda Nacional e viviam para a mulher e para Deus. A maioria compunha a pequena-burguesia que cuidava dos negócios da cidade: caixeiros, atacadistas ou comerciantes que fazem circular as mercadorias do mundo. Podiam elas vir da China ou de Sumatra, das Américas ou dos fundos da África, tudo passava por eles.

Reforçavam-lhes a posição um pequeno exército de escreventes, oficiais de justiça, funcionários de escritório, tabeliães e procuradores, que, apesar de sempre estarem envolvidos em “corridas desenfreadas” não eram cometidos pelos excessos etílicos dos operários, visto que as deformações deles são produzidas “pelo chicote do interesse” e das “ambições”. Seus divertimentos limitavam-se aos passeios pelo campo com os seus, ao aluguel de uma charrete, um “jantar venenoso” num restaurante, e um giro por um baile familiar. Excitavam-se com as ninfas da Ópera que os estimulavam a terem uns poucos momentos de luxuria no leito matrimonial. Faziam parte da grande máquina. Eram dentes anônimos da enorme engrenagem movida pelo dinheiro e que de algum modo jogava-os para cima.

O Mundo dos Negócios (caricatura de Honoré Daumier)
O Mundo dos Negócios (caricatura de Honoré Daumier)
Foto: Reprodução

Então, nesta descrição ascendente dos círculos dos infernos da cidade,   vinha o Mundo dos Negócios. Para Balzac, ele é que fazia às vezes de ser  o “estomago parisiense”, órgão que digeria todos os recursos, que se apropriava de tudo, dos suores e dos lucros. Compunham-no uma multidão de procuradores, de negociantes, de financistas, de médicos, de advogados com grossa clientela, especuladores e magistrados, que, segundo o narrador, viviam em gabinetes pouco higiênicos, em salas empestadas, sempre alertas em querer ganhar mais e atilados em nada perder, mobilizados a não se deixarem despojar de coisa alguma. Na anatomia deles “falta o coração”. “Onde eles colocam o coração?” Perguntou o escritor. Exatamente por conhecerem o avesso da sociedade eles a desprezam, como o fazia Henry de Marsay, o jovem aristocrata bastardo que, bem antes de Nietzsche aparecer com o seu super-homem, se colocava acima do bem e do mal.

O arrivista Rastignac (personagem do “ Pai Goriot”)
O arrivista Rastignac (personagem do “ Pai Goriot”)
Foto: Reprodução

Para este mundo, o da “boa sociedade”, é que Eugène de Rastignac, o promissor arrivista oriundo da província, viera escalar. A deformação dos seus integrantes era também de outra ordem. O enorme esforço físico e intelectual que despendiam em ganhar dinheiro, em ampliar seus negócios ao máximo, os levavam a buscar compensações na devassidão e na luxuria. Somente o exagero da libertinagem os aliviava da tensão em que estavam submetidos. A busca do prazer e do ouro era o que os fazia moverem-se na sociedade. Sendo a riqueza um passaporte para freqüentar os salões e mansões das famílias aristocráticas do faubourg Saint-Germain ou mesmo como caução para um casamento proveitoso e deste modo injetar um tanto de sangue nobre na veia plebéia dos novos-ricos,  tudo  em nome da vaidade.

O inferno dos artistas

Como um círculo à parte do restante, Balzac colocou o Mundo Artístico. Nele se encontravam os poetas, os literatos, os jornalistas, os pintores, os escultores e entalhadores de toda ordem. Músicos e compositores lhes faziam companhia, sempre atormentados pela competição e pela preocupação em atender as exigências e os caprichos do “mercado”. Coube-lhe ser um dos primeiros escritores  a perceber e narrar a nova situação em que os artistas se encontravam na sociedade burguesa.

Nos idos do apogeu da aristocracia, teatrólogos como  Molière, Racine, Corneille, e o compositor Lully,  eram talentos sustentados pela corte, ao empenho pessoal de Luís XIV. O fabulista La Fontaine, por seu lado, fora estipendiado pelo ministro Fouquet. Isto simplesmente desaparecera no pós-revolução de 1789.

A nova geração de talentos, sem bolsas generosas que os mantivesse, tinha que procurar sustentar-se com a venda do que produzia. Era do mercado -  monstro anônimo, volúvel e inconstante -  que deviam extrair o pão. Os mecenas haviam desaparecido e as encomendas de obras, uma novela, um busto ou um quadro,  eram poucas frente à intensa concorrência que os artistas travavam entre si.

Estavam assim sujeitos a uma tirania de outra matriz: aquela imposta pela premência de sempre ter que apresentar algo de novo, de inaudito. Balzac, pois, bem antes da célebre definição do que era o Moderno feita por Baudelaire (in LE PEINTRE DE LA VIE MODERNE, de 1863), delineara as características gerais do fenômeno.

Paris, ainda que se assemelhando a um inferno, enfeada pelas  exorbitações dos proletários, pela depravação dos burgueses e pela volúpia dos prazeres buscados pelos grandes, era para Balzac  “uma poderosa nau que liderava o mundo” em cujo convés carregava uma multidão atrás da glória ou de amores. É dela que partiam as exortações: “Avante, marchem! Sigam-me!”, a fim de atender os reclamos da Deusa Necessidade. (*)

(*) Balzac de fato teve uma ligação epidérmica com a Paris,mantendo com ela uma relação ambígua, alternando ao longo dos seus trinta anos como escritor profissional  momentos de  entusiasmo com fortes críticas. Relação de intimidade que também uniu Charles Dickens a Londres, Dostoievski a São Petersburgo, Walt Whitman a Nova York, Machado de Assis ao Rio de Janeiro e Alfred Döblin a Berlim.

Bibliografia

1. Balzac, Honoré – A menina dos olhos de ouro – prefácio. Porto Alegre: LP&M, 2006.

2. Félix Dubin, Paris 1837: Views of Some Monuments in Paris Completed during the Reign of Louis-Philippe I. Paris: Alain de Gourcuff, 1999.

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