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'Sem cultura sociedade nenhuma sobreviverá', diz Olga Tokarczuk, Nobel de Literatura

Leitora de Mário de Andrade e José Mauro de Vasconcelos, a escritora polonesa, autora de 'Sobre os Ossos dos Mortos', fala sobre literatura e as lições da pandemia do coronavírus

20 mai 2020
05h10
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A polonesa Olga Tokarczuk foi surpreendida no ano passado com a notícia de que tinha ganhado o Prêmio Nobel de Literatura (de 2018). Não estava em casa esperando o telefone tocar, como muitos que sonham com o prêmio fazem. Ela estava literalmente na estrada, na Alemanha, numa viagem para divulgar o seu trabalho. À época, ela disse acreditar que a literatura une as pessoas - algo que ela reafirma agora nesta primeira entrevista ao País depois do Nobel e em que defende, ainda, a cultura como algo sem o qual nenhuma sociedade sobreviverá.

Leitora de Mário de Andrade e José Mauro de Vasconcelos, psicóloga que deixou a profissão para se dedicar à literatura, Olga tem 58 anos e vive entre Wroclaw e uma pequena vila como a que situa o romance Sobre os Ossos dos Mortos, lançado em novembro pela Todavia, e onde passa cada vez mais tempo para "tentar enraizar".

Seu primeiro livro publicado aqui, Vagantes, vai ganhar nova tradução no ano que vem e deve se chamar Viagens (o original é Flights). Ainda em 2020, sai A Alma Perdida, infantil dela com ilustrações de Joanna Concejo - uma história sobre espera, paciência e desapego. Sobre os Ossos dos Mortos é narrado por Janina, uma excêntrica professora de inglês aposentada, amante da astrologia e defensora dos animais, que se envolve na investigação de uma série de assassinatos macabros.

Leia trechos da entrevista concedida por e-mail e traduzida por Piotr Kilanowski, professor de literatura polonesa na UFPR.

Este é um romance policial clássico, mas não só. O que você tinha em mente quando começou a escrever este livro e por que quis contar essa história?

Eu dispunha de seis meses, queria fazer algo leve. Pensei também que, uma vez que estava escrevendo um pastiche de suspense com enredo de novela policial - pois me parece que nos tempos de hoje não é mais possível escrever algo assim totalmente a sério - iria fazer meu trabalho com toda seriedade. Eu me empenhei para seguir as exigências da literatura popular: algo que seja facilmente digerível, não muito extenso e com imagens. Gosto muito das ilustrações (da edição original) pintadas por Jaromir, pois são assombrosamente tristes. No final, embora a intenção em si fosse modesta, ao escrever esse livro acabei me envolvendo e o vivenciando profundamente. Quando manipulava os personagens, desenhava as cenas para eles, tive impressão, e é algo que ocorre muito comigo, de estar jogando o sempiterno e poderoso jogo mitológico. Então nesse sentido não me afastei muito de mim mesma.

Você concorda com Janina, que acredita que o mundo é injusto e mau?

Às vezes me acontece de pensar como Janina, quando vejo quanta desgraça ocorre no universo e como não estamos conseguindo lidar com este mundo. Mas, no fundo, sei que o mundo não é desse jeito nem daquele outro. Ele simplesmente é. E nossa responsabilidade por ele, como seres conscientes, é enorme.

Por falar em mundo, esses são tempos estranhos, em que presenciamos um aumento do totalitarismo e enfrentamos algo como o coronavírus. Ao longo da história, a Polônia aprendeu a começar de novo. Talvez estejamos neste ponto: vamos precisar descobrir uma forma de recomeçar depois do coronavírus. O que podemos aprender, ou deveríamos aprender, com esta pandemia?

Penso que antes de tudo estamos aprendendo a humildade. É um conceito antigo e ao que parece um pouco em desuso. O ser humano esqueceu sobre a humildade diante da natureza, diante das forças maiores que ele mesmo. Impelido pela inacreditável soberba, destruiu muito ao seu redor: seres vivos, meio ambiente, paisagem. Agora está se preparando para a conquista do cosmos. A pandemia nos ensina que ainda somos apenas uma das espécies que vivem na Terra, dependente de uma complexa rede de relações, que nosso corpo é frágil e mortal e que nossas possibilidades são limitadas. Tenho impressão que observamos a volta da sentença memento mori, tão popular no barroco europeu, a época que teve que lidar com as epidemias e guerras cruéis e com as forças que o ser humano não conseguia dominar. A volta da visão do mundo como um mistério, a volta da procura pelo sentido da existência humana na Terra, a volta da pergunta sobre a natureza do homem e sobre a origem do mal. Podem ser tempos bem interessantes.

Como esse tempo de isolamento a toca pessoalmente?

Devo dizer que tudo isso não influenciou minha vida de uma maneira significativa. Precisei cancelar as viagens, mas isso foi até um certo alívio. Fazia tempo que eu não morava na minha própria casa. Para mim, é o tempo de serenar e de colocar os assuntos atrasados em dia. O tempo de lockdown coincidiu também com uma grave doença de meu cachorro, o que acabou sendo bom, pois pude dedicar muito mais tempo a ele.

O que a motiva? O que você busca como escritora? E por que trocou a psicologia pela literatura?

É quase a mesma coisa. Olhe para Freud - ele é escritor ou psicólogo?

Quando você ganhou o Nobel, disse que acreditava que a literatura aproximava as pessoas. O que mais ela pode fazer por nós e o que ela já fez por você?

Penso que cultura de um modo geral tem como objetivo ordenar e transmitir a experiência humana. Simplesmente assim. É um mecanismo evolucionário sem o qual não sobreviverá nenhuma sociedade. É uma forma de comunicação muito sofisticada e profunda e ao mesmo tempo compreensível para a maioria. A literatura nos integra, pois nos mostra os outros a partir de seu interior. Graças a ela podemos viver as vidas das outras pessoas, entrar nas suas existências. Mostra também as semelhanças que se sobrepõem às diferenças, pois atinge aquela esfera da experiência humana que é fundamental e comum a todos.

A literatura precisa ser política e provocativa?

Na acepção mais ampla do político, sim. O político compreendido amplamente sempre se relaciona com o ato de refletir e de construir nossa própria concepção do mundo. Observo o mundo e escolho o que é bom e o que é ruim - para mim, para os outros. Essa valorização frequentemente é feita inconscientemente. Às vezes tentamos nos abster de julgar. A reflexão nos serve para fazermos isso de modo consciente e então construímos a nossa visão do mundo. Não existem livros apolíticos. Sempre transparecem neles alguns mecanismos sociais, mecanismos de gênero, de comportamento, decisões, escolhas que se referem de uma maneira mais ou menos direta à realidade. Mesmo o conto de fada sobre a Cinderela ou um romance por mais meloso que seja serão políticos naquele sentido mais amplo - falarão sobre os condicionamentos de relações de gênero, sutilmente aludirão à dominação de um sexo pelo outro, apresentarão alguns tipos de exclusão, opressão e economia, por mais rudimentares que sejam. Entendo política de forma muito ampla, como uma reflexão sobre o mundo e não apenas a questão de eleições parlamentares ou governo de um partido ou outro.

Você está familiarizada com a literatura latina?

Eu era adolescente na época do boom da literatura ibero-americana na Polônia. Cresci e me formei lendo essa literatura: Jorge Luis Borges, Júlio Cortázar, Mário Vargas Llosa, José Donoso, Ernesto Sábato, Mário de Andrade, José Mauro de Vasconcelos, Luis Sepúlveda e outros. Penso que como escritora e leitora tenho muito a agradecer a ela. Acho que temos muito em comum - nós, centro-europeus com a nossa sensibilidade popular-camponesa-católica-pagã, e vocês. Me parece, no entanto, que existe uma diferença básica e que é perceptível também na literatura - nós somos soturnos.

SOBRE OS OSSOS DOS MORTOS

Autora: Olga Tokarczuk

Trad.: Olga Baginska-Shinzaton

Editora: Todavia (256 págs.; R$ 59,90; R$ 42,90 o e-book)

Leia o trecho inicial de Sobre os Ossos dos Mortos

E agora prestem atenção!

Outrora dócil, e em perigosa senda,

O justo seguiu seu curso ao longo

Do vale da morte.

Com a minha idade e nas minhas condições atuais, deveria sempre lavar bem os pés antes de dormir, caso uma ambulância precise vir me buscar à noite.

Se tivesse examinado nas Efemérides o que acontecia no céu naquela noite, nem me deitaria para dormir. Entretanto, caí num sono muito profundo; recorri ao chá de lúpulo e tomei ainda dois comprimidos de valeriana. Por isso, quando fui acordada no meio da noite pelo som — violento, excessivo, e por isso agourento — de alguém batendo na minha porta, não consegui me recompor. Levantei às pressas e fiquei em pé junto da cama, vacilando, pois o corpo sonolento, trêmulo, não conseguia dar o salto da inocência do sono para a vigília. Desfaleci e cambaleei, como se estivesse prestes a perder a consciência. Isso tem me acontecido ultimamente, e está relacionado com as minhas moléstias. Precisei me sentar e repetir algumas vezes para mim mesma: estou em casa, é noite, alguém está batendo na porta, e só então é que consegui controlar os nervos. Enquanto procurava os chinelos no escuro, podia ouvir que aquele que tinha batido agora circundava a casa, murmurando. No térreo, na caixa do relógio de luz, guardo gás de pimenta que ganhei de Dionísio por causa dos caçadores ilegais. Foi justamente nele que pensei agora. Consegui achar na escuridão o formato frio e familiar do aerossol e, assim armada, acendi a luz do lado de fora. Olhava para o alpendre pela janela lateral. A neve rangeu e apareceu no meu campo de visão o vizinho que costumo chamar de Esquisito. Estava enrolado numa velha samarra, com a qual às vezes o via quando trabalhava do lado de fora de casa. Debaixo dela podia ver seu pijama listrado e suas botas pesadas para caminhar nas montanhas.

— Abra — disse.

Com um espanto evidente olhou para o meu terno de linho (durmo vestida com as peças que o Professor e sua esposa quiseram jogar fora no verão, e que me lembram da moda antiga e da minha juventude. Assim, combino o útil com o sentimental) e entrou sem pedir licença.

— Vista-se, por favor. Pé Grande morreu.

Por um instante perdi a fala e, em silêncio, calcei as botas de cano alto e vesti o primeiro casaco de frio que encontrei no cabideiro. Lá fora, a neve, na mancha de luz jogada pelo abajur no alpendre, virava uma ducha vagarosa e sonolenta. Esquisito estava do meu lado, calado, alto, esbelto e ossudo como uma silhueta esboçada com alguns riscos a lápis. A neve caía do seu corpo ao mínimo movimento, como se fosse um cavaquinho polvilhado com açúcar de confeiteiro.

— Como assim "está morto"? — perguntei, por fim, ao abrir a porta, com a garganta apertada, mas ele não me respondeu.

De modo geral, ele fala pouco. Deve ter Mercúrio num signo silencioso, acho que em Capricórnio ou em conjunção, quadratura, ou talvez em oposição a Saturno. Podia ser, também, um Mercúrio retrógrado — que, nesse caso, acarretava discrição.

Saímos de casa e, imediatamente, nos envolveu esse ar muito familiar — frio e úmido — que nos relembra todos os invernos que o mundo não fora criado para a humanidade, e durante pelo menos a metade do ano nos demonstra a sua hostilidade. O frio atacou brutalmente as nossas bochechas, e emergiram nuvens brancas de vapor de nossas bocas. A luz no alpendre se apagou automaticamente e caminhamos pela neve crepitante na escuridão completa, a não ser pela lanterna de cabeça de Esquisito que penetrava as trevas num único ponto oscilante logo à sua frente. Eu andava na penumbra, saltitando às suas costas.

— Não tem lanterna? — perguntou.

Claro que tinha, mas conseguiria achá-la apenas de manhã, à luz do dia. Com as lanternas é sempre assim: são visíveis só durante o dia.

A casa de Pé Grande ficava um pouco afastada, acima das demais. Era uma das poucas habitadas durante o ano inteiro. Apenas ele, Esquisito e eu vivíamos aqui sem temer o inverno; os outros moradores fechavam a casa já em outubro; esvaziavam os canos de água e voltavam para a cidade.

Desviamos então levemente da estrada, desobstruída, que passa pelo nosso vilarejo e se ramifica em trilhas que levam às respectivas casas. Um caminho pela neve profunda, tão estreito que nos obrigava a pisar colocando um pé atrás do outro, alternadamente, enquanto tentávamos manter o equilíbrio, nos guiava até Pé Grande.

— Não vai ser uma imagem nada agradável — avisou Esquisito, virando-se para mim e, por um átimo, me cegando completamente.

Não esperava nada de diferente. Silenciou por um instante e, em seguida, disse, como se quisesse se desculpar:

— Fiquei preocupado com a luz acesa na cozinha e o latido desesperado da cadela. Você não ouviu nada?

Não, não ouvi. Estava dormindo, entorpecida pelo lúpulo e pela valeriana.

— Onde ela está agora, essa cadela?

— Levei embora, está na minha casa. Eu a alimentei e ela pareceu se acalmar.

Mais um instante de silêncio.

— Ele sempre ia dormir cedo e apagava as luzes para economizar, e dessa vez a luz ficou acesa o tempo todo. Uma faixa brilhante de luz sobre a neve, visível da janela do meu quarto. Foi por isso que decidi ir até lá. Pensei que ele poderia estar bêbado, ou que estivesse implicando com o cão, para que latisse daquele jeito.

Passamos por um estábulo arruinado e, logo em seguida, a lanterna de Esquisito caçou na escuridão dois pares de olhos reluzentes, esverdeados, fluorescentes.

— Olha só, corças — eu disse num sussurro excitado e agarrei a manga de sua samarra. — Chegaram muito perto da casa. Não têm medo?

As corças estavam com as patas imersas na neve até a altura da barriga. Olhavam para nós com calma, como se as tivéssemos apanhado no meio de um ritual cujo sentido não conseguimos entender. Estava escuro, portanto não sabia reconhecer se eram as mesmas jovens que vieram da República Tcheca no outono. Ou será que eram outras, novas? E por que, essencialmente, havia apenas duas? Aquelas eram no mínimo quatro.

— Voltem para casa — eu disse, espantando-as com as mãos. Estremeceram, mas não se moveram. Elas calmamente nos acompanharam com o olhar até a porta. Senti calafrios.

Enquanto isso, Esquisito limpava os sapatos, batendo os pés contra o solo diante da porta de uma casa descuidada. As pequenas janelas haviam sido calafetadas com papéis de vedação e plástico. Feltro betumado cobria as portas de madeira.

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