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"Pleiteei autonomia, não insubordinação", diz Luana Araújo

Médica que depõe à CPI da Covid nesta quarta-feira, 2, deixou a equipe do Ministério da Saúde dez dias após sua nomeação

2 jun 2021 11h05
| atualizado às 12h39
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Luana Araújo chega ao Congresso para depor na CPI da Covid
Luana Araújo chega ao Congresso para depor na CPI da Covid
Foto: Adriano Machado / Reuters

A médica infectologista Luana Araújo iniciou sua fala à CPI da Covid afirmando ser "intolerável" o cenário de mais de 460 mil mortes provocadas pela pandemia do novo coronavírus no Brasil. Convidada pelo ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, para ocupar o cargo de Secretária Extraordinária de Enfrentamento à Covid-19 do Ministério da Saúde, Luana deixou a equipe de Queiroga dez dias depois, antes mesmo de sua nomeação se confirmar.

Em declaração inicial aos senadores nesta quarta-feira, 2, ela relatou ter afirmado a Queiroga que só aceitaria o convite se lhe fossem garantidas a autonomia necessária e respeitadas a cientificidade e tecnicidade. "Pleiteei autonomia, não insubordinação ou anarquia. Precisaria ter autonomia necessária para agir, no que fui prontamente respondida pelo ministro de forma afirmativa e concreta", afirmou ela.

Em fala enfática sobre a necessidade de combater a pandemia com medidas técnicas e científicas, Luana afirmou ser "imperativo" que se deixe de lado o que "não presta mais".

"Pelos nossos erros perdemos a confiança do povo", disse a médica. "Ciência não tem lado, é bem ou mal feita. É ferramenta de produção de conhecimento pra servir a população. Essa distância ou oposição entre populações e ciência não existe. Ciência deve ser protegida. Vivência de crise sanitária complexa e gigantesca exige resposta multifatorial", disse a médica.

Ela disse ainda que, quando convidada por Queiroga para falar sobre o posto na Saúde, o ministro lhe apresentou um projeto sólido, baseado em evidências, "de superação desses obstáculos no contexto brasileiro".

"Uma necessidade de alguém técnico e competente, uma secretaria técnica, um desejo antigo seu (de Queiroga). Sua apresentação foi consonante aos meus valores", completou.

A médica infectologista Luana Araújo na CPI da Covid
A médica infectologista Luana Araújo na CPI da Covid
Foto: Jefferson Rudy / Agência Senado

Veto do Planalto

Luana Araújo explicou que deixou o cargo depois de apenas 10 dias porque não foi aprovada pelo Palácio do Planalto. Em seu depoimento, ela contou que foi chamada por Queiroga e informada que, infelizmente, não poderia ser nomeada porque seu nome não passaria pela Casa Civil. Em seguida, corrigiu, afirmando não ter certeza se a instância correta era mesmo essa, mas confirmando que havia sido vetada.

De fato, as nomeações para cargos de segundo e terceiro escalão no governo federal passam pela Casa Civil e são assinadas pelo ministro da pasta e pelo ministro da área específica.

Araújo foi escolhida para o cargo pelo ministro da Saúde e contou aos senadores que chegou a trabalhar por 10 dias, mesmo sem a nomeação, até ser dispensada.

Após a médica ter a nomeação anunciada publicamente por Queiroga, reportagens mostraram as suas posições contrárias ao chamado tratamento precoce, defendido pelo presidente Jair Bolsonaro com medicamentos sem eficácia comprovada.

Em postagens em redes sociais, a médica afirmou que o Brasil estava na "vanguarda da estupidez mundial" ao defender esse tipo de terapia, que chamou de "neocurandeirismo".

A médica afirmou ainda não saber se essa foi a razão do veto a seu nome, mas destacou as reportagens sobre suas posições nos dias anteriores à decisão. "Não me foi comunicada a razão pela qual a minha nomeação não foi aprovada", disse aos senadores.

Na semana passada, o ministro da Saúde indicou em audiência na Câmara dos Deputados que houve veto político à Araújo. "Nós encaminhamos o nome dela para as instâncias do governo. Nós vivemos num regime presidencialista. Eu fui indicado por quem? Pelo presidente da República. É necessário que exista validação técnica e também política", disse Queiroga.

Questionada sobre se teria falado sobre tratamento precoce com o ministro, a médica negou, dizendo que isso nunca foi assunto com o ministro.

"Nunca foi nem uma discussão, esse assunto nunca existiu entre nós. Todos nós somos a favor de uma terapia precoce que exista. Se essa terapia não existe não pode se tornar política pública de saúde", afirmou. "É uma discussão delirante, esdrúxula, anacrônica e contraproducente. Ainda estamos discutindo uma coisa que não tem cabimento. É como se estivéssemos discutindo de que borda da terra plana vamos pular."

Araújo disse ainda que, ao tentar montar uma equipe para a secretaria, teve dificuldades porque os melhores nomes não estavam dispostos a trabalhar para o governo pelo que chamou de uma "polarização esdrúxula" e uma "politização sem cabimento".

Nise Yamaguchi

O começo dos trabalhos da CPI da Covid, nesta manhã, foi dedicado à avaliação de senadores sobre a oitiva da médica Nise Yamaguchi, que prestou depoimento ao colegiado na terça-feira, 1º.

Enquanto membros governistas do colegiado reclamaram do tratamento dado a médica, senadores responsáveis pelos questionamentos mais duros à especialista defenderam que Nise não poderia "mentir deliberadamente" sem ser confrontada.

Governistas, como Marcos Rogério (DEM-RO) e Ciro Nogueira (PP-PI), reclamaram das interrupções ao depoimento da médica. Entre os principais pontos de reclamação dos governistas, estava a série de perguntas do senador e médico Otto Alencar (PSD-BA), que confrontou a médica com uma série de questões técnicas Nise não soube responder.

O senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), que também figurou entre os que fizeram questionamentos mais duros à médica, defendeu que qualquer cidadão que comparece ao parlamento para "deliberadamente enganar, mentir, omitir" será confrontado com dados. "Um eventual momento de um exagero de retórica não vai deixar, não vai eclipsar, não vai ocultar o fato", disse o parlamentar, afirmando que Nise compareceu ao senado para "desinformar".

O senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) concordou com Vieira. Para o cearense é "surpreendente" que defensores do presidente Jair Bolsonaro fiquem "surpresos com as intervenções técnicas" feitas a Nise nesta terça-feira, enquanto o presidente continua a continuar a usar "grosserias" e "palavras de baixo calão" para atacar seus adversários.

* Com informações da Reuters

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Estadão
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