PUBLICIDADE

Nise insiste que cloroquina funciona em tratamento precoce

Afirmações da médica divergem de depoimentos já prestados à comissão, como do ex-ministro Luiz Henrique Mandetta e do diretor da Anvisa

1 jun 2021 12h57
| atualizado às 17h28
ver comentários
Publicidade

A médica Nise Yamaguchi e o senador Rogério Carvalho (PT-SE) protagonizaram discussão acalorada nesta terça-feira, 1º, durante a sessão da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid no Senado.

O debate teve início após Nise voltar a insistir que a hidroxicloroquina tem eficácia no tratamento contra a covid-19. "O que acontece é que essas medicações têm sido bastante eficientes em tratar pacientes precoces, e não dá pra misturar todos os casos em todos os níveis conforme tem sido colocado", afirmou Nise apesar do uso do medicamento carecer de evidências.

01/06/2021
REUTERS/Adriano Machado
01/06/2021 REUTERS/Adriano Machado
Foto: Reuters

Segundo Carvalho, Nise faria parte do núcleo negacionista do 'gabinete paralelo' que assessorou o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) nas questões relacionadas à pandemia da covid-19. "Chamamos de núcleo negacionista, mas eles são o núcleo teórico da imunidade natural de rebanho. Porque eles não são negacionistas, eles têm uma teoria nefasta, fúnebre, de expor à própria sorte os brasileiros com relação à doença", afirmou Carvalho.

"Eu tenho que colocar o meu repúdio a essa citação em que estou colocada ali dentro de um gabinete de exceção. Eu estou me sentindo bastante agredida nesse sentido", afirmou a médica. Em resposta, Nise disse entender a "indignação" do senador.

"Se a hidroxicloroquina nos tratamentos iniciais não funciona, aí realmente o senhor teria razão. O que acontece é que essas medicações têm sido bastante eficientes em tratar pacientes precoces", afirmou a médica. "Para mim, neste momento, é bastante importante (dizer) que o governo é um só, o País é um só. Nós precisamos estar nos relacionando entre os diversos partidos a partir de uma coerência e um conjunto de ações", reforçou.

Decreto para mudar a bula

Em seu depoimento, Yamaguchi também negou que tenha havido uma minuta de decreto para mudar a bula da cloroquina e incluir o medicamento no tratamento contra a doença. As afirmações da médica divergem de dois depoimentos já prestados à CPI: o do ex-ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta e o do diretor-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Antonio Barra Torres.

"Eu não minutei nenhuma mudança de bula", disse a médica ao relator da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), Renan Calheiros (MDB-AL). "Não houve nenhuma tentativa de decreto de mudança de bula nessa ocasião", sustentou.

Segundo ela, na reunião relatada por Mandetta e Barra Torres, o que ocorreu foi uma discussão sobre um rascunho de instrumento legal para a disponibilização do medicamento.

À CPI, Mandetta contou ter participado de reunião no Palácio do Planalto onde foi avaliada a possível mudança na bula. Na ocasião, relatou ter visto esboço do decreto para incluir na bula da cloroquina, medicamento para malária e doenças autoimunes, a indicação para tratamento contra covid-19.

Segundo ele, Barra Torres afirmou de maneira incisiva que a mudança não poderia ocorrer e em seguida auxiliares de Bolsonaro afirmaram que tratava-se apenas de uma "sugestão". Depois, também em depoimento à CPI, Barra Torres confirmou a reunião e acrescentou que teria reagido de forma pouco cortês à iniciativa.

Diante das reiteradas negativas de Yamaguchi nesta terça-feira, o presidente da CPI, Omar Aziz (PSD-AM) afirmou que "o certo é a gente fazer uma acareação" para confrontar as declarações da médica.

Yamaguchi aproveitou para negar que tenha participado de um gabinete paralelo, explicou que se reuniu quatro ou cinco vezes com o presidente Jair Bolsonaro - mas nunca individualmente - e disse que tem exercido o papel de "colaboradora eventual de qualquer governo que precisar".

A médica admitiu conversas com a área técnica do Ministério da Saúde sobre o uso da cloroquina, principalmente sobre dosagens, ainda que não haja eficácia comprovada do medicamento contra a doença.

No depoimento desta terça, Yamaguchi disse ser contra uma vacinação "aleatória" da população e reforçou a defesa do que chama de tratamento precoce. E, após tumulto na CPI, que chegou a ser interrompida por alguns minutos, afirmou que o "tratamento precoce não compete com o preventivo da doença".

Com informações da Reuters.

Assista também:

Na CPI da Covid, Pazuello faz ao menos dez alegações enganosas sobre cloroquina, testes e vacinas:
Estadão
Publicidade
Publicidade