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Mulheres lideram, mas ainda é pouco

Apesar de terem participação crescente em cargos-chave, elas ainda encontram travas na carreira, principalmente com a maternidade

27 jun 2021 15h06
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Quando Leila Abraham Loria descobriu que estava grávida, há 36 anos, a reação de seu chefe passou longe da comemoração. "Parecia que eu estava contando que a mãe dele tinha morrido. Ele não conseguiu me dar parabéns, só perguntou: 'E agora?'. Ele disse que nunca esperava que eu fosse ficar grávida", lembra ela, que na época já era superintendente na área de vendas da empresa e estava casada havia sete anos.

Hoje presidente do Conselho de Administração do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa (IBGC), Lelila vê um cenário um pouco diferente, mas com muitos desafios. "Eu percebo que o mercado foi mudando ao longo do tempo, mas ainda tem sido difícil. Mesmo em multinacionais, que você acha que são super estruturadas, super respeitosas", disse ela durante o painel "Liderança Feminina e ESG", no Summit ESG.

Cristina Andriotti, CEO da Ambipar, passou por uma situação próxima disso. "Na minha primeira gravidez, há 29 anos, eu trabalhava em um banco e realmente foi uma 'barra'. Eu demorei para conseguir um cargo gerencial e, quando voltei da licença maternidade, minha vaga estava preenchida", recorda.

Cristina só não fez parte das estatísticas levantadas pela FGV e conseguiu se reinserir no mercado de trabalho, destaca ela, por ter um companheiro que dividia a responsabilidade do cuidado com os filhos e com a casa. "Faz muita diferença ter ao seu lado alguém vibrante, que acredita no potencial da mulher."

A maternidade não é a única - nem a primeira - barreira para as mulheres chegarem a cargos de liderança nas empresas. Apresentada no Summit Estadão, a pesquisa "Mulheres na Liderança", realizada com uma base de dados que cobre 110 mil cargos e quase 400 empresas, mostra que apenas 14,7% dos cargos de liderança em empresas são ocupados por mulheres. "A baixa diversidade permeia as diferentes esferas de liderança", destacou Solly Sayeg, index manager e head de ESG Data na Teva Índices. Houve um aumento do número de cadeiras ocupadas por mulheres em conselhos de administração nos últimos anos, mas ainda hoje quatro em cada dez conselhos não têm presença feminina. Por outro lado, o crescimento tem sido lento, porém constante.

Patrícia Coimbra, vice-presidente de Capital Humano, Administrativo, Sustentabilidade e Marketing da SulAmérica, lembra que a simples presença de diversidade - seja de gênero, idade, raça, ou outras - na empresa não é suficiente. É preciso inclusão. "Eu não me lembro quem disse esta frase, mas 'Diversidade é chamar para a festa, é chamar para dançar'." A empresa, que já tem mulheres ocupando mais da metade dos cargos de liderança e da equipe em geral, está buscando novas abordagens para lidar com a inclusão de forma mais afirmativa e proativa, não apenas orgânica, ressalta ela, para acelerar esse processo.

Uma das iniciativas é pensar em flexibilidade. A pandemia do novo coronavírus fez aumentar a carga de trabalho não remunerado das mulheres, que chegam a passar 31 horas semanais em tarefas de cuidados, segundo levantamento da Organização das Nações Unidas (ONU). Por outro lado, mostrou às empresas que é possível permitir mais tempo de trabalho remoto, facilitando a conciliação da maternidade com as funções do dia a dia.

Outra solução foi trazida por Camila Farani, sócia e presidente do Comitê de ESG do Banco Modalmais. Ela relata que, há alguns anos, chefiava uma equipe formada 95% por mulheres. "Sempre tinha alguém grávida", conta. "Por isso, construímos uma creche para que as mães pudessem deixar seus filhos com tranquilidade a caminho do trabalho."

Camila ressalta, no entanto, que essas soluções precisam vir de forma igualitária para homens e mulheres. Liberar os pais do trabalho para que levem os filhos ao médico, ou permitir um dia em home office a eles para cuidarem das crianças, precisa ser feito com a mesma naturalidade com que se faz em relação às mulheres, destaca.

Camila lembrou ainda que, além das questões relacionadas à licença maternidade, é comum que mulheres tenham de superar a chamada síndrome da impostora - quando não conseguem aceitar que são bem-sucedidas pelos seus méritos. Relações conflituosas com homens no trabalho e situações de constrangimento e assédio continuam ocorrendo. Nesses casos, diz Camila, é preciso que mulheres se apoiem e levem as queixas aos canais da empresa e aos superiores. "A mulher não pode deixar que ninguém a desqualifique ou diga que não é capaz."

Rachel Maia, fundadora e CEO da RM Consulting, lembra que não se pode deixar vencer pelo cansaço. "São discussões em que nós vamos até ser repetitivas, nós que acreditamos nisso. Temos de usar grandes influenciadores dentro das empresas para que possamos colocar essas questões em pauta."

Estadão
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