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Postagens virais incentivam inadimplência e desinformam sobre renegociação de dívidas

VÍDEOS ATRAEM MILHARES DE USUÁRIOS COM CHAMADAS APELATIVAS QUE ESTIMULAM MANTER O 'NOME SUJO'; ESPECIALISTAS ALERTAM QUE PUBLICAÇÕES IGNORAM CONSEQUÊNCIAS DA NEGATIVAÇÃO E PROMOVEM PRÁTICAS IRRESPONSÁVEIS

11 mai 2026 - 10h03
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O Brasil tem 82,8 milhões de pessoas endividadas, segundo dados de março do Mapa da Inadimplência do Brasil, divulgado pela Serasa Experian. Esses brasileiros têm mais dificuldade de acesso a crédito e a bens de consumo. Mas há nas redes sociais quem defenda que as dívidas não devem ser renegociadas e que ficar com o "nome sujo" seria mais vantajoso.

Postagens sensacionalistas incentivam inadimplência e desinformam sobre renegociação de dívidas
Postagens sensacionalistas incentivam inadimplência e desinformam sobre renegociação de dívidas
Foto: Monica Zarattini|Estadão / Estadão

Essas postagens alcançam milhares de usuários com chamadas apelativas e promessas enganosas. Muitas delas afirmam que as dívidas caducariam após cinco anos. Especialistas ouvidos pelo Estadão Verifica, porém, destacam que as alegações não têm fundamento e ignoram os impactos da inadimplência.

Ficar com o nome sujo 'vale a pena'?

O Estadão Verifica localizou diferentes postagens virais que incentivam consumidores a ficar com o "nome sujo" e os desencorajam a tentar renegociar dívidas com instituições financeiras. Mas os textos e vídeos omitem quais são as consequências de estar negativado.

Segundo Amaury Oliva, diretor de Cidadania Financeira e Relações com o Consumidor da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), o cliente negativado fica fora do sistema financeiro. "Você fica excluído de uma série de produtos e serviços", disse.

Oliva cita como impacto direto a queda do score de crédito, que mede o quanto um indivíduo é um bom pagador. Com uma negativação, é comum que essa nota baixe e, consequentemente, o consumidor passe a ter mais dificuldade para conseguir crédito. "Você pode ter outros empréstimos negados, diminuição de limite de crédito, limite de cheque especial, limite de cartão de crédito, dificuldade para financiar bens e restrições no varejo", exemplificou.

Dívida some depois de cinco anos?

Para além de defender o "nome sujo", muitas postagens virais têm vendido a ideia de que a dívida "sumiria" depois de cinco anos. A falsa alegação é de que as instituições não poderiam mais cobrar o inadimplente, o que reduziria o inventivo para que consumidores renegociem as dívidas.

Segundo o economista Alexandre Chaia, professor do Insper, a legislação brasileira não permite a negativação de crédito de um indivíduo por uma dívida com mais de cinco anos de inadimplência. Apesar disso, a dívida continua existindo. "A dívida não expira, o que expira é a possibilidade de usar essa dívida para negativação do nome", relatou.

Oliva explicou que a lei estabelece que, depois de cinco anos, não é mais possível cobrar aquela dívida na Justiça. Mas, novamente, isso não significa que a dívida deixa de existir. "Se você quiser retomar o relacionamento com aquela instituição com a qual você tem um débito, mesmo depois de cinco anos, aquela dívida continua existindo", explicou. "Ela só deixa de existir quando a pessoa paga", completou.

A Serasa explica que a dívida ainda pode ser renegociada de forma extrajudicial após o prazo de cinco anos. Apesar disso, a empresa ressalta que não é recomendado esperar o prazo prescrever, já que, até lá, o consumidor fica exposto ao risco de ações judiciais e penhora de bens.

O mesmo aconselha a planejadora financeira Myrian Lund, professora de MBAs da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Para ela, as postagens que aconselham esperar a prescrição omitem os impactos diretos de se manter negativado durante cinco anos. "Digamos que você fez dívida e não se preocupou, só que agora sua vida mudou. Você quer comprar um apartamento, mas você não vai conseguir um financiamento", exemplificou. "A sua vida para."

Os especialistas orientam, ainda, ter cautela com postagens que prometem soluções para "sumir" com a dívida por vias judiciais. Chaia, do Insper, pontua que é possível questionar judicialmente se os juros cobrados estão além do contratado, mas não existe a possibilidade de simplesmente eliminar a dívida.

Reflexos para toda a sociedade

Outro ponto importante desconsiderado pelas postagens desinformativas é o impacto da inadimplência para a sociedade como um todo. Chaia explica que as operações de crédito precificam a expectativa de perda. O economista esclarece que o crédito para empresas ou pessoa física leva em consideração cinco fatores: taxa Selic, margem de lucro, custos operacionais, impostos e inadimplência. "Você estima o que vai perder e aumenta o preço, além dos impostos e dos custos. Se 10% das pessoas não pagarem, a empresa não perdeu nada, porque já cobrou dos outros 90% o valor", exemplificou.

Oliva, da Febraban, destaca que a inadimplência é um fator importante para a economia. Ele explica que, quanto menor o nível de inadimplência, mais é possível reduzir os juros e emprestar para mais pessoas. "Se você deixa de receber aquilo que emprestou, tem menos recursos para emprestar para as pessoas, então existe um efeito bastante nocivo", disse.

Da mesma forma, Chaia avalia que estimular a inadimplência tem um impacto direto na taxa média cobrada da população geral. "Se todo mundo começar a achar que tem direito de não pagar, os bancos vão aumentar a expectativa da inadimplência e a sociedade toda vai pagar."

Práticas financeiras irresponsáveis

Myrian diz que as postagens que estimulam a inadimplência incentivam práticas irresponsáveis e erram ao generalizar soluções. Segundo a especialista, a quitação de dívidas exige um planejamento financeiro adequado para o cenário de cada indivíduo.

Para Oliva, as postagens virais têm um efeito nocivo para educação financeira da população. "Esses conteúdos que trazem desinformação também promovem hábitos que não são saudáveis do ponto de vista financeiro", avaliou.

Pesquisa Observatório Febraban, feita em junho de 2025, indicou que 55% da população brasileira admite que entende pouco ou nada de educação financeira. Segundo os especialistas, esse é um dos desafios enfrentados relacionado ao endividamento da população. "A gente não tem educação financeira, então as pessoas não sabem quanto elas recebem, quanto elas gastam e quanto sobra para pagar a dívida", disse Chaia.

Este texto foi produzido a partir de uma parceria entre o Banco do Brasil e o Estadão Verifica para combater fake news sobre o setor financeiro e reforçar o papel do jornalismo profissional. A iniciativa visa desmentir informações falsas e conscientizar o público sobre os impactos negativos da desinformação.

Estadão
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