É falso que militar resgatado no Irã tenha feito declaração religiosa; postagens usam imagens de IA
NÃO SÃO CONHECIDAS FOTOS OU MANIFESTAÇÕES DOS TRIPULANTES QUE ESTAVAM EM CAÇA NORTE-AMERICANO ABATIDO NO INÍCIO DE ABRIL
O que estão compartilhando: que o piloto do caça norte-americano abatido no Irã teria dito que foi guiado por Jesus até o momento do resgate.
Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. Até o momento não são conhecidas as identidades dos dois ocupantes do F-15 derrubado na madrugada de 3 de abril, durante missão no Irã. Nenhuma declaração dos tripulantes da aeronave foi divulgada. As imagens utilizadas nas postagens foram geradas por inteligência artificial.
Saiba mais: publicações que circulam nas redes sociais do Brasil e de outros países são ilustradas por uma montagem com duas supostas imagens do militar que foi resgatado do Irã após ficar dias desaparecido. Em uma, ele está na cama do hospital. Na outra, segura um cartaz em frente aos destroços do avião, no qual se lê, em tradução para o português: "Jesus caminhou à minha frente durante 14 horas".
Na realidade, não são conhecidas imagens ou manifestações do aviador. Ferramentas de detecção de IA indicaram que as duas mídias são falsas. Além de representar um fato inexistente, elas exibem características da criação sintética.
A ferramenta SynthID confirmou que parte das imagens foi criada ou editada com a inteligência artificial do Google. A ferramenta identifica uma marca d'água que é deixada em todas as mídias geradas pela IA da empresa.
A SynthID apontou ainda incongruências no cenário, como nas formas dos destroços das aeronaves que aparecem atrás do militar e na fumaça e no fogo que estão ao fundo. Além disso, há distorções anatômicas nas mãos que seguram o cartaz. Na imagem do hospital, a ferramenta identificou gráficos genéricos nos monitores ao fundo.
A postagem identifica o militar como piloto, o que também está incorreto. Quem ficou desaparecido por dois dias não foi o piloto do caça, mas o operador do sistema de armas. Ele é chamado de "oficial de armas", ocupante da parte posterior do cockpit, e seria um coronel da Força Aérea.
Segundo informações do governo americano, ambos os ocupantes do F-15 ejetaram-se do aparelho atingido por forças iranianas. O piloto foi encontrado por companheiros em poucas horas. Já o oficial de armas, dado inicialmente como desaparecido, buscou refúgio em uma região montanhosa, acionou dispositivos de localização e foi resgatado no dia 5.
Autoridades americanas usam tom religioso para descrever operação
As postagens que circulam nas redes sociais do Brasil ecoam o tom religioso que o governo dos EUA tem adotado ao descrever a guerra contra o Irã. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, comparou o resgate do militar americano à ressurreição de Jesus Cristo, se aproveitando do fato de que a operação de salvamento ocorreu durante a Páscoa.
Hegseth disse que o avião foi abatido na Sexta-Feira Santa, dia em que Jesus foi crucificado. O militar refugiou-se em uma caverna, o que, para o secretário, seria uma representação do túmulo escavado na rocha onde Cristo foi sepultado. E o resgate ocorreu no dia em que os cristãos celebram a Ressurreição. "Foi retirado do Irã ao nascer do sol no Domingo de Páscoa", ressaltou Hegseth.
O secretário de Defesa também usou a expressão "Deus é bom". Segundo ele, isso teria sido dito também pelo aviador na mensagem que enviou com sua localização: "Naquele momento de isolamento e perigo, sua fé e espírito de luta se destacaram."
Hegseth sustenta que os EUA estão em uma guerra santa. Em oração no culto religioso que costuma fazer no Pentágono, anuncia ele pediu para que houvesse "ação de violência esmagadora contra aqueles que não merecem misericórdia". Jornalistas críticos ao governo já foram comparados por ele aos inimigos de Jesus.
O Papa Leão XIV, primeiro pontífice nascido nos EUA, criticou o uso do cristianismo para justificar o conflito. "[Jesus] não escuta as orações daqueles que fazem guerras, mas as rejeita, dizendo: 'Ainda que façais muitas orações, não ouvirei: as vossas mãos estão cheias de sangue'", disse.
O papa também afirmou que "Deus não abençoa nenhum conflito" e que "quem é discípulo de Cristo, Príncipe da Paz, nunca se coloca ao lado daqueles que ontem empunhavam a espada e hoje lançam bombas".
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