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Vídeo inventa ataque iraniano a centro saudita de 'manipulação do clima'

ESPECIALISTA EXPLICA QUE NÃO EXISTE TECNOLOGIA CAPAZ DE MODIFICAR CLIMA DE UMA REGIÃO INTEIRA

7 mai 2026 - 15h03
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O que estão compartilhando: que o Irã teria atingido um centro de pesquisa secreto na Arábia Saudita, responsável pela manipulação do clima. Depois do ataque, o clima iraniano teria voltado ao "normal", com chuvas e temperaturas mais baixas.

Vídeo reproduz teorias sem comprovação científica.
Vídeo reproduz teorias sem comprovação científica.
Foto: Reprodução/Instagram / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. Não há registro de um ataque iraniano contra um centro de pesquisa do clima saudita. Segundo especialista ouvido pelo Verifica, atualmente não existem tecnologias que possam mudar completamente o clima de uma região inteira.

Saiba mais: O conteúdo que viralizou nas redes sociais diz que o bombardeio contra um centro de pesquisa na Arábia Saudita teria mudado o clima em todo o Golfo Pérsico. O vídeo afirma: "Os rumores dizem que (o centro de pesquisa) estava lá para destruir o clima, destruir a agricultura, acabar com a criação de animais em todo o Oriente Médio."

O conteúdo relembra uma acusação feita pelo general Gholam Reza Jalali, alto funcionário da Guarda Revolucionária do Irã. Em 2018, ele havia dito que Israel e outros países se mobilizam para "impedir as nuvens iranianas de dar chuva".

Segundo o vídeo, a destruição do centro de pesquisa provaria que "sempre existiu essa tecnologia de manipular o clima". Mas nada disso é verdadeiro.

Não há registro de ataque contra centro de pesquisa do clima

Não há registros de que o Irã tenha bombardeado um centro de pesquisas do clima na Arábia Saudita. Os ataques iranianos mais recentes contra o país atingiram uma estação da agência de inteligência americana, a CIA (aqui).

Existe um Centro de Pesquisa para o Aprimoramento da Ciência das Chuvas na região do Golfo Pérsico, mas ele não fica na Arábia Saudita, nem foi atacado pelo Irã. Trata-se de um centro nos Emirados Árabes Unidos que existe desde 1990 e tem o objetivo de desenvolver novas tecnologias para o aumento de chuvas.

Os cientistas desse centro de pesquisa não teriam capacidade para modificar o clima de uma região de forma artificial, segundo explicou o professor Micael Cecchini, do Departamento de Ciências Atmosféricas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas (IAG) da Universidade de São Paulo (USP).

Cecchini explica que existem tecnologias que podem aumentar chuvas, mas elas dependem de condições climáticas propícias e têm resultado limitado. "O clima de uma região é algo de larga escala. Não há como conseguir produzir secas num país todo ou mudar o regime de chuvas da região. É impossível", avaliou.

O clima no Irã em geral é árido ou semiárido, mas o volume de chuvas pode variar conforme a região. No ano passado, fortes chuvas e enchentes causaram mortes em algumas províncias iranianas (aqui, aqui).

"É como se fosse uma região desértica cercada por montanhas", detalhou o professor. "Tem diferentes regimes de chuva por conta do relevo e da proximidade de uma massa de água".

Em uma das imagens usadas no vídeo, por exemplo, chove intensamente em torno de uma mesquita. Trata-se do Santuário do Imam Reza, localizado em Mashhad, cidade localizada a uma altitude de quase 1.000 metros, entre duas cadeias de montanhas. Nessa região, não é incomum fazer frio.

Semeadura de nuvens existe, mas não poderia alterar clima do Irã

O vídeo cita a tecnologia de semeadura de nuvens, que permite pulverizar partículas em nuvens para provocar chuvas. Essa técnica foi usada com fins militares pelos Estados Unidos durante a guerra do Vietnã (1955-1975), para aumentar o fluxo de chuvas.

O conteúdo afirma que a tecnologia poderia ser implantada novamente para alterar o clima no Irã. Mas o professor Cecchini disse que é improvável que a semeadura de nuvens causasse tempestades ou inundações como as mostradas no vídeo.

Segundo Cecchini, as nuvens são feitas de gotas líquidas de água que se formam ao redor de partículas de aerossol, que são muito pequenas. Ele explicou que, para modificar as chuvas, é necessário manipular essa formação de gotas.

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O especialista afirmou que a técnica de semeadura de nuvens consiste em lançar partículas com grande afinidade com a água. Como exemplo, citou o sal, que é capaz de condensar o vapor de água em pequenas gotas líquidas de nuvem. Dependendo das condições atmosféricas, isso pode provocar chuva.

No entanto, para isso acontecer, é necessário ter condições favoráveis. Como o clima do Irã em geral é muito seco, realizar esse tipo de operação se torna mais difícil.

"Você não vai conseguir fazer chover em um lugar que não tenha condições de formar nuvens. O que você consegue mais realisticamente fazer é modificar uma nuvem que já está lá", disse.

No ano passado, o Irã inicou operações de semeadura de nuvens para tentar provocar chuvas. O país anunciou ter desenvolvido uma tecnologia própria para esse processo, após uma seca histórica na região (aqui, aqui, aqui).

General que acusou Israel de 'roubar nuvens' foi desmentido

O autor do vídeo relembra que políticos iranianos acusaram países rivais de "roubar nuvens" e interferir nas condições meteorológicas do país. Em 2012, o então presidente Mahmoud Ahmadinejad acusou inimigos de destruir nuvens de chuva antes que elas chegassem ao Irã para causar seca no país.

Em 2018, o general Gholam Reza Jalali acusou Israel de manipular as condições meteorológicas com o intuito de evitar que a chuva caia no Irã. Na época, essa teoria foi desbancada pelo próprio chefe do serviço meteorológico do Irã, Ahad Vazife. Ele disse que, com base no conhecimento que tinha, seria "impossível um país roubar neve ou nuvens".

Vazife disse que o Irã sofreu uma seca prolongada que era parte de uma tendência global, não restrita somente ao país. "Levantar essas questões não só não resolve nenhum dos nossos problemas, como também nos impede de encontrar as soluções certas", disse o meteorologista iraniano. Posteriormente, o general se retratou da fala.

Um conteúdo semelhante foi desmentido pelo Aos Fatos.

Estadão
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