Postagem distorce estudo para sugerir que apenas corpos 'intoxicados' por fungos desenvolvem câncer
PESQUISA APONTOU ASSOCIAÇÃO ENTRE DIFERENTES TUMORES E ORGANISMOS FÚNGICOS; DESENVOLVIMENTO DA DOENÇA ENVOLVE DIVERSOS FATORES
O que estão compartilhando: que um estudo teria descoberto bactérias e fungos dentro de células cancerígenas. A postagem alega que o câncer se instala em um "corpo intoxicado e inflamado, dominado por fungos, parasitas e metais pesados", um "ambiente biológico doente". A postagem vende uma "dieta do câncer" para desintoxicar, desinflamar e desparasitar o organismo.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. A postagem usa como base o estudo Pan-cancer analyses reveal cancer-type-specific fungal ecologies and bacteriome interactions (em português, Análises pan-câncer revelam ecologias fúngicas e interações do bacterioma específicas para cada tipo de câncer), publicada na revista científica Cell. A pesquisa estuda a associação entre diferentes tumores e fungos, com uma avaliação do microbioma tumoral - micro-organismos que residem dentro de um tumor.
Isso não significa, porém, que apenas corpos "intoxicados" por fungos estão suscetíveis ao desenvolvimento da doença. Especialistas consultados pela reportagem ressaltam que o cenário é mais complexo, e não se pode descartar a influência genética do câncer, como faz a publicação.
O Verifica tentou contato com uma das contas que divulgou o conteúdo, mas não obteve retorno até o encerramento desta checagem.
Saiba mais: uma postagem viral no Instagram alega que um estudo expôs "o que ninguém queria admitir sobre o câncer". Segundo o conteúdo, a doença só se instalaria em um corpo dominado por "fungos, parasitas e metais pesados". No entanto, a publicação distorce o resultado da pesquisa.
O estudo mencionado foi publicado na revista científica Cell, sob o título "Pan-cancer analyses reveal cancer-type-specific fungal ecologies and bacteriome interactions". Segundo o médico Oren Smaletz, oncologista do Hospital Israelita Albert Einstein, comumente fala-se sobre a microbiota, que são os micro-organismos que habitam o organismo, com foco nas bactérias, que podem causar câncer por meio de inflamações crônicas. O que o estudo traz de informação nova, é que essa associação do câncer com a microbiota não se refere somente às bactérias, mas também à micobiota, que são os fungos que vivem no organismo.
"Então, é uma interação entre fungos, bactérias e as células inflamatórias. Talvez, essa combinação realmente possa estar relacionada com o desenvolvimento do câncer", explicou Smaletz.
A postagem alega que o câncer não seria um "acidente genético", e nasceria apenas em um corpo "intoxicado, inflamado, dominado por fungos, parasitas e metais pesados". No entanto, Smaletz explica que o estudo revela que a microbiota envolvendo certos fungos foi relacionada com a presença do tumor. Isso não significa, necessariamente, que o organismo está infestado ou intoxicado, de acordo com o especialista.
O próprio estudo relata que, embora amplie o panorama do microbioma do câncer, as "descobertas não estabelecem causalidade". Em outras palavras, significa que não há relação de causa e efeito entre a presença de fungos e o aparecimento de câncer. Apesar disso, os pesquisadores avaliam que o material direciona para estudos futuros, ao mesmo tempo em que caracteriza uma nova camada de informações para diagnósticos e tratamentos do câncer.
Mais de um fator contribui para o desenvolvimento de câncer
O médico João Viola, coordenador de pesquisa e inovação do Instituto Nacional do Câncer (Inca), ressalta que o câncer é uma doença com base genética. Entretanto, há um consenso de que as alterações genéticas não são suficientes para o desenvolvimento tumoral. Também existem associações entre hábitos alimentares, riscos ambientais, respostas orgânicas e a microbiota. "As alterações genéticas são essenciais, mas não fatores independentes", destacou.
Segundo Smaletz, alterações genéticas que levam ao surgimento de tumores podem ter origem em processos inflamatórios crônicos. Neste contexto, pode-se pensar nas bactérias ou fungos que colonizam o tecido biológico. Essas inflamações crônicas podem causar alterações no DNA e desenvolver o câncer.
Smaletz destaca que o estudo publicado na Cell foi feito em tecidos tumorais. O especialista diz que o material abre perspectivas para tentar entender como o fungo contribui para o desenvolvimento do câncer ou como afeta o nosso sistema imunológico.
"Abre espaço também para se avaliar estudos intervencionistas. Estudos nos quais a gente pode manipular, testar se a manipulação da micobiota pode afetar tanto a progressão do câncer ou a resposta ao tratamento", explicou.
Regular microbiota não é simples
A postagem usa o estudo para alegar que é necessário desinflamar, desparasitar e desintoxicar o organismo. Ao final do conteúdo, é anunciado um e-book com uma "dieta do câncer".
Viola destaca que não se pode tratar todos os micro-organismos que interagem com o nosso organismo como deletérios à saúde. De forma semelhante, Smaletz explica que o corpo também depende da microbiota para desenvolver funções básicas do organismo.
Já a dieta com uma alimentação saudável é uma das formas recomendadas para prevenção do câncer. "A gente sabe que uma dieta rica em fibras, verduras e frutas é uma dieta muito mais saudável do que uma com alimentos ultraprocessados", exemplificou Smaletz.
Como já mostrou o Estadão, existem alimentos que são prejudiciais à saúde e estão associados ao risco de câncer. Segundo o Inca, para prevenção da doença, recomenda-se evitar o consumo de carnes processadas, como presunto, salsicha, linguiça e bacon.
De acordo com o instituto, o perigo das carnes processadas tem relação com as substâncias presentes na fumaça no processo de defumação, os conservantes e o sal. O Inca também orienta evitar o consumo de alimentos ultraprocessados, como biscoitos, salgadinhos, bebidas adoçadas, dentre outros.
O órgão explica que esses produtos têm quantidades altas de açúcar, gordura, sal e calorias. Eles podem promover o excesso de peso e aumentar a chance de desenvolver câncer. O instituto ressalta, ainda, que esses alimentos também fornecem poucas fibras, vitaminas e minerais.
Como parte da prevenção ao câncer, além da alimentação saudável, o Inca destaca para a importância da realização de atividades físicas como parte da rotina diária e a manutenção do peso corporal dentro dos limites recomendados de índice de massa corporal (IMC). O instituto também orienta evitar o consumo de bebidas alcoólicas e o tabagismo.
Smaletz ressalta, porém, que a alimentação é um fator coadjuvante. Isso porque o aumento do câncer não se dá somente por um tipo de alteração, mas sim por vários agentes que podem desenvolver a doença.
Viola explica que a relação com o ambiente é fundamental para o desenvolvimento tumoral, principalmente pela associação com fatores de riscos ambientais. Neste contexto, entram riscos físicos, como a radiação, biológicos, como os micro-organismos, e químicos, como os carcinógenos.
"A associação com fatores de risco ambientais é de extrema importância para o desenvolvimento de tumores, e deve ser ressaltada a alimentação, pois cerca de 30% dos tumores podem estar associados à alimentação, assim como a alimentação saudável está associada à prevenção de câncer", destacou.