Veja as mentiras mais checadas pelo 'Estadão Verifica' no último ano
NO DIA INTERNACIONAL DO FACT-CHECKING, RELEMBRAMOS OS PRINCIPAIS TEMAS DE DESINFORMAÇÃO NAS PLATAFORMAS DIGITAIS
Não por acaso, o Dia Internacional da Checagem de Fatos é comemorado nesta quarta-feira, 2, logo após o Dia da Mentira, 1º. Para marcar a data, o Estadão Verifica fez um levantamento dos principais temas checados pela nossa equipe no último ano. Os assuntos refletem tendências de desinformação que circularam no País ao longo de 12 meses.
A comemoração no dia 2 de abril foi criada em 2016 pela International Fact-Checking Network (IFCN), associação internacional de verificadores de fatos, da qual o Verifica é signatário. A intenção é celebrar a importância do trabalho feito por checadores para combater a circulação de informação falsa.
Desde 2018, o núcleo de checagem de fatos do Estadão analisa conteúdos virais que circulam nas plataformas digitais. São priorizados materiais que podem causar danos a grupos, indivíduos ou a toda sociedade, como ameaças à saúde pública ou à democracia. Veja aqui nosso método de seleção e classificação de conteúdos.
Os principais temas de checagens foram ligados a política nacional, saúde e ciência, internacional, economia, guerras e conflitos, golpes digitais, meio ambiente e eleições. Os conteúdos criados com inteligência artificial representaram 13% do total de materiais verificados. Veja abaixo.
Lula, Bolsonaro, INSS e Caso Master: as mentiras que circularam sobre política
O tema da política nacional foi o principal entre as checagens publicadas pelo Verifica, com 250 verificações. As figuras do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ex-presidente Jair Bolsonaro foram os principais alvos das narrativas enganosas.
Conteúdos desinformativos usaram frases de Lula fora de contexto, manipuladas ou inventadas, inclusive com uso de inteligência artificial. Uma delas distorceu uma fala do presidente que criticava a mentalidade de que pessoas pobres não podem estudar. Outra, recortou apenas um trecho de um discurso do petista sobre a foto de um homem negro sem dentes.
Também circularam nas redes sociais teorias da conspiração relacionadas ao presidente, como a de que existiriam sósias dele e até mesmo que Lula teria morrido.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, foi outra figura frequente nas checagens. Postagens inventaram falas do americano ameaçando Lula ou anunciando uma invasão ao País com tropas militares. Grande parte dos vídeos relacionados ao presidente americano foi gerada com IA.
A operação militar dos EUA na Venezuela foi outro acontecimento que gerou desinformação no Brasil no início de 2026. Conteúdos falsos diziam que o governo teria enviado gado ao regime de Maduro e teria perdoado dívida bilionária do país vizinho. O boato de que o ex-general venezuelano Hugo Carvajal teria denunciado o PT ou Lula também voltou a circular.
Os conteúdos ainda envolveram a divulgação de arquivos do caso de Jeffrey Epstein, com montagens criadas com IA, alegações falsas de canibalismo e acusações infundadas contra celebridades citadas nos arquivos.
Pix, Reforma Tributária e gasolina: as mentiras que circularam sobre economia
As mentiras sobre economia somaram 118 checagens, com foco especial em uma onda de boatos sobre o Pix no último ano. O Verifica mostrou que não existe uma "nova regra" para taxação sobre movimentações na modalidade e que o governo não monitora em tempo real nem tem acesso a detalhes de transferências. As alegações foram repercutidas, inclusive, por políticos brasileiros.
As mudanças com a Reforma Tributária também geraram desinformação. Postagens falsas alegaram a criação de uma taxação a 26,5% para motoristas de aplicativo, de uma cobrança de IPVA para biclicletas e até de imposto para corridas de rua. Outros conteúdos mentiram sobre a carga tributária e o recolhimento automático de impostos.
É comum que conteúdos viralizem com desinformação sobre combustíveis. Postagens enganaram ao comparar valores da gasolina nos governos de Lula e Bolsonaro (aqui e aqui) e compartilharam fotos manipuladas de preços do produto.
A imposição da Lei Magnitsky pelo governo dos EUA também esteve entre os temas mais checados. Postagens mentiram sobre o impacto da ação na distribuição de processos no STF, inventaram uma fuga de Luís Roberto Barroso e de Moraes do Brasil e compartilham um vídeo adulterado de Trump falando sobre uma "ameaça comunista" no País.
O Verifica ainda mostrou que um índice global apontou o Legislativo brasileiro como o segundo mais corrupto do mundo, não o Judiciário.
Guerras e conflitos: desinformação sobre embates no Oriente Médio e na Venezuela
Foram feitas 73 checagens no último ano sobre assuntos relacionados às guerras no Oriente Médio e à operação militar dos Estados Unidos na Venezuela. Houve uso de inteligência artificial para simular eventos bélicos em 18% dos casos.
Em 2025, o Verifica checou publicações sobre a guerra na Faixa de Gaza que apontavam, sem evidências, saques em massa de ajuda humanitária. Em um caso de desinformação espalhada pelo governo israelense, a equipe de checagem do Estadão mostrou que usaram a foto de um menino que teve a doença agravada pela fome para minimizar a crise humanitária na região. Também apuramos que o jornalista palestino Mohammed Salamam, morto em um ataque de Israel, não era um terrorista disfarçado.
Já em 2026, a operação militar dos EUA que resultou na prisão de Maduro gerou uma onda de vídeos e imagens falsas, como fotos do líder venezuelano preso criadas com inteligência artificial. Várias checagens (aqui, aqui e aqui) mostraram gravações fora de contexto ou criadas digitalmente sobre manifestações na Venezuela.
Mais recentemente, circulou uma série de informações falsas e vídeos fora de contexto sobre a guerra no Irã. Mídias geradas por IA criaram cenas do líder iraniano Ali Khamenei morto e de militares americanos rendidos. Outras postagens espalhavam alegações falsas sobre fornecimento de urânio nacional ao Irã.
Golpes digitais: 'deepfakes' de Drauzio Varella, enganação sobre Pix e mentira sobre CNH
O Verifica desmentiu 50 golpes digitais no último ano, principalmente ligados a fraudes financeiras e roubos de dados. O uso de inteligência artificial apareceu em 42% dos conteúdos, que simulam declarações de políticos e famosos para dar credibilidade às mentiras.
Conteúdos fizeram deepfake de voz e imagem do jornalista William Bonner e do médico Drauzio Varella para vender suplementos irregulares. O mesmo aconteceu com o senador Cleitinho (Republicanos-MG), o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), que tiveram vídeos manipulados em golpes de indenizações falsas.
Outros conteúdos usaram vídeos fora de contexto ou criados com IA para mentir sobre eventos climáticos, como sobre um tornado no Paraná (aqui, aqui e aqui) ou uma nevasca na Rússia.
Urnas eletrônicas no alvo: as 'fakes' sobre eleições
O sistema eleitoral do Brasil é alvo frequente de desinformação. No último ano, o Verifica publicou 17 checagens sobre a temática. A maioria dos conteúdos recicla boatos antigos sobre as eleições de 2022 ou a integridade das urnas eletrônicas.
Publicações alegaram sem provas que houve fraude eleitoral no último pleito presidencial, com mentiras sobre retotalização de votos ou sobre provas de falsidade das eleições.
As urnas eletrônicas não deixaram de ser atacadas no último ano, com informações falsas sobre descarte de aparelhos antigos e compra de chips de Taiwan em 2022. Bolsonaro repetiu mentiras sobre as urnas durante o julgamento sobre tentativa de golpe.