BNDES não emprestou quase o dobro que Banco Mundial em 2025; vídeo engana ao comparar valores
EMPRÉSTIMOS CONCEDIDOS PELAS INSTITUIÇÕES NÃO SÃO COMPARÁVEIS DEVIDO A DIFERENÇAS ENTRE OBJETIVOS, FORMAS DE CAPTAÇÃO E APLICAÇÃO DOS RECURSOS, AFIRMAM ECONOMISTAS
O que estão compartilhando: que em 2025 o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) teria concedido "quase o dobro" de empréstimos que o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), uma das instituições do Banco Mundial. Em vídeo, um homem sugere que possíveis calotes nas operações do BNDES poderiam impactar os trabalhadores, já que o Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) é uma das fontes de recursos do banco.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. As aprovações de crédito do BNDES não foram quase o dobro das do BIRD. Economistas consultados pelo Verifica explicaram que os valores de empréstimos não são diretamente comparáveis, pois as instituições diferem em objetivos, formas de captação e aplicação dos recursos, além de adotarem recortes distintos para consolidar seus resultados anuais (entenda mais abaixo). Os especialistas também destacaram que a inadimplência do BNDES é historicamente baixa, respaldada por garantias sólidas e processos longos de recuperação de crédito, o que afasta o risco direto ao FAT ou aos trabalhadores.
O autor do vídeo foi procurado, mas não respondeu.
Para entender:
Aprovações de crédito - é o valor que o banco autoriza o cliente a financiar, por exemplo, para um projeto. Nem sempre todo valor aprovado é utilizado. Garantias concedidas pelo banco - é quando o banco oferece uma garantia para que empresas, especialmente micro, pequenas e médias (MPMEs), consigam crédito junto a outra instituição. Desembolsos de crédito - é o valor que o cliente de fato utilizou do crédito que foi aprovado pelo banco.
Saiba mais: O vídeo verificado se apoia no volume total de aprovações de crédito e garantias concedidas pelo BNDES em 2025, de R$ 366 bilhões (aqui), para afirmar que o banco teria emprestado "quase o dobro" do BIRD, citado pelo autor como tendo liberado R$ 200 bilhões. A comparação, no entanto, é inadequada, pois desconsidera que as instituições utilizam recortes temporais distintos para consolidar seus resultados.
Enquanto o BNDES segue o ano civil, de 1º de janeiro a 31 de dezembro, o BIRD organiza seus dados com base no ano fiscal, que vai de julho de 2024 a junho de 2025. Dados fornecidos ao Verifica pelo BNDES mostram que, no período utilizado pela instituição internacional, o banco brasileiro registrou R$ 321 bilhões em aprovações (incluindo garantias), enquanto o BIRD aprovou R$ 228,5 bilhões.
Outro aspecto que torna a comparação inadequada é que o BIRD constitui apenas uma das cinco instituições que compõem o grupo Banco Mundial, por isso, não reflete o total das atividades desempenhadas pelo banco brasileiro. Conforme o BNDES, o BIRD representou somente 25% do valor das operações do grupo Banco Mundial no ano fiscal de 2025.
"O total de aprovações mais garantias do grupo Banco Mundial foi de US$ 161,91 bilhões, ou R$ 926,46 bilhões, aproximadamente o triplo do montante realizado pelo BNDES no período", informou o BNDES em nota.
Segundo o banco estatal, a comparação feita pelo autor do vídeo é inflada pelo peso das garantias, que é baixo no caso do BIRD, pois a Agência Multilateral de Garantia de Investimentos (AMGI) é a instituição do Banco Mundial especializada nesse tipo de operação.
Haveria implicações se o BNDES aprovasse mais créditos que o BIRD?
O BIRD se diferencia do BNDES por ser o maior banco de desenvolvimento do mundo, que fornece soluções financeiras como empréstimos, garantias, produtos de gestão de riscos e serviços de consultoria a países de renda média e baixa. O objetivo é de reduzir a pobreza e impulsionar o crescimento sustentável.
O BNDES, por sua vez, tem como objetivo financiar ou fornecer crédito a empresas ou empreendedores de todos os portes, sejam eles públicos, privados ou individuais, em projetos que contribuam para o desenvolvimento econômico, social e ambiental do Brasil.
Ao Verifica, o doutor em economia Luciano Nakabashi, professor da Universidade de São Paulo (USP), explicou que não haveria problema na possibilidade de o BNDES emprestar mais do que o Banco Mundial, pois as instituições têm objetivos distintos, embora ambas tenham como finalidade contribuir para o desenvolvimento.
"Quando pensamos no BNDES, é dinheiro do Brasil para ser investido no Brasil", comentou. "Claro que é um banco de desenvolvimento, mas isso é uma questão de política econômica interna, política de crédito para estimular o investimento".
"O Banco Mundial é muito voltado para a redução de pobreza, até os objetivos são diferentes", continuou. "Não dá para comparar, porque se tratam de instituições bastante distintas".
Além disso, existe uma diferença importante na interpretação do termo "emprestou", utilizado no vídeo verificado. De acordo com o economista Haroldo da Silva, presidente do Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP), o BNDES tem três formas diferentes de mostrar resultados relacionados a concessão de crédito.
A primeira é a consulta, que ocorre quando o cliente verifica junto ao banco a possibilidade de financiamento de determinado projeto. A segunda etapa é a aprovação, que corresponde ao montante autorizado pelo banco após a análise do pedido. Por fim, há o desembolso, que representa o valor efetivamente utilizado do crédito previamente aprovado.
Conforme Silva, em 2025, o BNDES registrou R$ 389,2 bilhões em consultas, R$ 237,9 bilhões em aprovações e R$ 169,7 bilhões em desembolsos. Ou seja, o valor que de fato saiu do caixa do banco foi menor do que o aprovado.
Histórico de inadimplência do BNDES é um dos mais baixos do sistema financeiro nacional, afirmam economistas
Além de afirmar, de maneira enganosa, que o BNDES teria concedido quase o dobro de empréstimos em comparação ao BIRD, o homem que fala no vídeo verificado diz que o banco brasileiro utiliza recursos do trabalhador para financiar suas operações. O conteúdo sugere que o volume de crédito aprovado poderia colocar o FAT em risco e, consequentemente, prejudicar os trabalhadores caso a instituição enfrente inadimplência.
O Fundo de Amparo ao Trabalhador é um fundo especial, vinculado ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), destinado ao custeio do Programa do Seguro-Desemprego, do Abono Salarial e ao financiamento de programas de desenvolvimento econômico.
De fato, o fundo representa uma parcela importante da estrutura de captação de recursos do BNDES e responde por 52,1% do total dos recursos (aqui). A outra parte vem de fontes como o Tesouro Nacional, emissões de títulos a mercado, captações externas, fundos voltados à atuação emergencial e capital próprio.
O conteúdo indica que eventuais calotes no BNDES poderiam impactar diretamente o FAT e os trabalhadores. Mas o presidente do Corecon-SP explicou que o risco ao qual os recursos do fundo estão expostos é extremamente baixo, já que o BNDES apresenta uma taxa de inadimplência de 0,06%, uma das menores do sistema financeiro nacional.
Silva acrescentou que o BNDES conta com garantias robustas, isto é, instrumentos apresentados pelos clientes para assegurar o pagamento de um financiamento, por exemplo. Além disso, há um processo eficiente de cobrança das dívidas.
"Não é discurso, os números mostram isso claramente", afirmou o economista.
A mesma avaliação é feita pelo economista Nakabashi. O professor da USP comentou que a chance de eventuais inadimplências impactarem o fundo de amparo aos trabalhadores é extremamente baixa.
Segundo ele, isso se deve não apenas à baixa taxa de inadimplência, mas também ao fato de que o BNDES exige garantias, faz análises de risco e avalia a situação financeira das empresas que solicitam empréstimos, o que reduz o risco de inadimplência para a instituição.
"Não é só a análise do risco e as garantias, tem uma parte do dinheiro que é guardada caso tenha inadimplência", acrescentou.
Nakabashi observou ainda que os recursos do FAT, que em princípio são dos trabalhadores, não estão vinculados individualmente a cada pessoa, como acontece com o Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), por exemplo.
"O FAT vai ser utilizado caso o trabalhador fique desempregado, e tem esse recurso que é justamente para esse tipo de situação", disse.
O que o BNDES faz com os recursos do FAT é pegar emprestado para conceder empréstimos a outras empresas, devolvendo o valor acrescido de juros.
"O dinheiro é devolvido gradualmente, rendendo juros, e pode ser emprestado novamente para novos financiamentos, mas com um risco extremamente baixo, calculado e planejado", ressaltou o economista.