Vídeo distorce alertas de ferramenta da CGU e trata inconsistências em licitações como crimes
EM VÍDEO NO INSTAGRAM, ADVOGADO TIRA DE CONTEXTO REPORTAGEM SOBRE ALERTAS DE ERROS EM LICITAÇÕES, EMITIDOS PELA INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL DA CONTROLADORIA; ELE FOI PROCURADO, MAS NÃO RESPONDEU
O que estão compartilhando: vídeo em que um advogado afirma que a Controladoria-Geral da União (CGU) teria apontado 35 mil irregularidades em processos licitatórios do governo Lula. Essas irregularidades seriam crimes de corrupção, fraude e lavagem de dinheiro.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. O autor do vídeo distorce uma notícia do portal Metrópoles sobre alertas emitidos por uma ferramenta de inteligência artificial da CGU que identifica inconsistências em licitações. Foram 34.733 alertas, mas isso não significa que tenha ocorrido fraude em todos os casos. A CGU informou ao Metrópoles que cada alerta precisa ser verificado pelas equipes de auditoria.
Em nota, a Controladoria explicou que os dados não podem ser interpretados como evidência de desvios de recursos públicos. A ferramenta é preventiva e capaz de detectar riscos em processos licitatórios. "É equivocada qualquer tentativa de tratar o volume de alertas como sinônimo de irregularidades", comunicou.
O advogado Jeffrey Chiquini, autor da publicação no Instagram, foi procurado mas não respondeu.
Saiba mais: no vídeo, Chiquini lê a notícia do site Metrópoles que informa sobre os alertas feitos pela ferramenta de inteligência da CGU. Em seguida, o advogado passa a tratar dessa informação como se as irregularidades tivessem sido comprovadas.
"Na gestão toda, de 2023 até agora, março de 2026, a inteligência artificial encontrou 34 mil irregularidades. Então, praticamente irregularidades em todas as licitações", afirma.
O advogado acrescenta que são 30 mil crimes de corrupção, fraudes a licitação e crimes de lavagem de dinheiro. Mas isso não consta na notícia do site Metrópoles.
Vídeo omite trechos de reportagem
A CGU informou ao Metrópoles que, do total de alertas, 729 resultaram na abertura de trabalhos de auditoria, que já foram concluídos ou estão em andamento. No âmbito dessas apurações, foram enviadas 1.523 comunicações formais aos gestores responsáveis pelas licitações. Esse número pode incluir notificações, solicitações de informação e recomendações de adoção de medidas saneadoras.
Nenhuma dessas informações que constam na reportagem são reproduzidas no vídeo do advogado.
O Metrópoles questionou a CGU sobre o desfecho dos alertas feitos pela ferramenta, mas o órgão respondeu que não conseguia identificar automaticamente o resultado de cada um deles.
A CGU acrescentou não ter como responder quantos alertas levaram à abertura formal de investigações ou ao envio de informações à Polícia Federal ou ao Ministério Público Federal. Para obter esse dado, seria necessário examinar individualmente cada processo.
CGU afirma que alertas não podem ser relacionados a irregularidades
A CGU explica que os números descritos na reportagem do Metrópoles referem-se a alertas preventivos gerados pelo Analisador de Licitações, Contratos e Editais (Alice). Esta é uma ferramenta de inteligência artificial desenvolvida pela própria controladoria para prevenção e proteção do uso dos recursos públicos.
A ferramenta identifica, de forma antecipada, indícios de inconsistências ou riscos em processos licitatórios. Isso permite a adoção de medidas corretivas antes da conclusão das contratações. "É um instrumento de aprimoramento da gestão pública e não de confirmação de irregularidades ou evidência de desvio de recursos", diz o órgão.
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Os alertas são sinais automatizados de risco que demandam análise técnica. De acordo com a CGU, na ampla maioria dos casos, os alertas resultam em ajustes administrativos ou esclarecimentos, sem configuração de irregularidade.
Outro ponto observado pela CGU é de que o número de alertas não corresponde ao número de licitações ou processos de compra que podem ter sido objeto de alerta, uma vez que um processo pode conter mais de uma sinalização.
"Nos últimos anos, a CGU ampliou significativamente a capacidade analítica do sistema, incorporando novas bases de dados, modelos e parâmetros de risco, o que aumenta a sensibilidade da ferramenta e a capacidade de detecção precoce", afirma o órgão.
Como funciona a ferramenta Alice
A CGU mantém uma página no site oficial para explicar o funcionamento da Alice. Por meio de técnicas de mineração de textos e inteligência artificial, o sistema permite selecionar automaticamente editais para alertar a gestão quanto a riscos na contratação.
São analisados, por exemplo, dados do Portal de Compras do Governo Federal, do Portal de Compras do Banco do Brasil e do Portal de Compras da Caixa Econômica Federal, além das dispensas e inexigibilidades publicadas no Diário Oficial da União (DOU).
Para a Controladoria, o trabalho preventivo evita desperdício de recursos com cancelamento ou suspensão de pregões desnecessários ou com indícios de fraudes. Em outros casos, permite ajustes nos valores e quantidades estimadas em uma contratação.