Checagem de fatos funciona: veja as evidências da eficácia do combate à desinformação
DE ACORDO COM VÁRIOS ESTUDOS CIENTÍFICOS, VERIFICAÇÃO DIMINUI A CREDIBILIDADE DE NOTÍCIAS FALSAS E REDUZ SIGNIFICATIVAMENTE SUA DISSEMINAÇÃO
Em comemoração ao Dia da Checagem de Fatos, o Estadão Verifica reproduz o texto abaixo, publicado originalmente pela Fundación Maldita, uma organização de verificação espanhola. O texto mostra como estudos científicos demonstraram a eficácia da checagem de fatos, a atividade que jornalistas especializados fazem ao corrigir desinformação que circula na internet e em outros meios.
Embora existam pessoas e empresas muito influentes interessadas em proclamar que a checagem de fatos "não funciona" contra a desinformação, dezenas de estudos científicos de alto nível afirmam exatamente o contrário.
Evidências recentes mostram que a checagem de fatos não apenas reduz a circulação de desinformação online, mas faz isso independentemente das preferências partidárias de quem a consome.
Isso é demonstrado, entre outros estudos, por uma pesquisa publicada em dezembro de 2025 liderada por Julia Cagé, da universidade Sciences Po, de Paris. Ela mostra que, quando um conteúdo nas redes sociais é verificado como "falso", os usuários que o compartilharam têm duas vezes mais chances de excluir sua postagem. Eles também ficam menos propensos a espalhar desinformação no futuro.
Em 2024, pesquisadores do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, demonstraram que alertas aplicados por jornalistas checadores de fatos em plataformas como Facebook, Instagram e Twitter (agora X) reduzem significativamente a crença e a intenção de compartilhar informações falsas.
Em média, a crença na desinformação diminuiu 27,6% e a intenção de compartilhá-la, 24,7%. Mesmo aqueles com baixa confiança nos checadores de fatos apresentaram uma redução de 12,9% na crença em conteúdo falso e uma redução de 16,7% na intenção de compartilhá-lo.
Embora os rótulos de checagem de fatos sejam mais eficazes para aqueles que confiam nos checadores, eles ainda funcionam para aqueles que desconfiam deles. Esses resultados estão em consonância com alguns dados que as próprias plataformas digitais tornaram públicos sobre os programas de checagem de fatos.
De acordo com os últimos relatórios da Meta, pelo menos 53% dos usuários europeus do Facebook e do Instagram que estão prestes a compartilhar desinformação decidem voluntariamente não fazer isso ao verem um aviso de que um checador de fatos verificou que a informação não era verdadeira. Na Espanha, essa porcentagem chega a 59%.
No caso do TikTok, o relatório de janeiro a junho de 2025 indica que a taxa média de usuários que optam por não compartilhar um vídeo após ver o aviso de "conteúdo não verificado" é de 30,95% em toda a União Europeia e no Espaço Econômico Europeu.
Além disso, os políticos tendem a mentir menos após serem corrigidos por um jornalista checador de fatos. A eficácia foi demonstrada em diferentes países e situações. Já os argumentos comumente usados contra a checagem de fatos, como o de que ela poderia ser "contraproducente", foram desacreditados em vários estudos.
Outro estudo mostra que a checagem de fatos pode anular o efeito das métricas das redes sociais sobre as intenções de compartilhamento de conteúdo. Sem a checagem, as postagens com mais curtidas ou comentários tendem a ser mais compartilhadas. No entanto, quando um checador desmascara uma notícia falsa, esse efeito desaparece, independentemente dessas métricas.
Checagem de fatos sobre saúde e política em diferentes países
A checagem de fatos tem se mostrado eficaz contra diferentes tipos de desinformação. Em um experimento com boatos relacionados à covid-19 nas redes sociais, pesquisadores descobriram que a precisão dos usuários que viram correções às informações falsas melhorou em 0,62 em uma escala de 5, enquanto a precisão daqueles que viram apenas a desinformação diminuiu em 0,13.
Esse estudo reproduziu as condições reais dos usuários da internet, onde diferentes tipos de conteúdo competem pela atenção.
No que diz respeito à checagem de fatos sobre política, cujo impacto às vezes é considerado limitado devido à polarização social, quatro pesquisadores chegaram à conclusão oposta.
Efeitos adversos da checagem de fatos são muito limitados: efeito bumerangue, verdade implícita e alarmismo
Alguns dos argumentos usados para atacar a checagem de fatos, às vezes até mesmo dentro da academia, carecem de uma base científica sólida.
É o caso do "efeito bumerangue", o efeito contraproducente pelo qual uma refutação poderia aumentar a crença na desinformação. Esse foi o resultado de um experimento de 2010 que utilizou um exemplo politicamente controverso: a existência de armas de destruição em massa no Iraque.
No entanto, pesquisas posteriores mostraram que esse efeito não se repetiu. Um estudo realizado em 16 países europeus confirmou que o efeito da correção é consistente em todos os sistemas políticos e midiáticos.
Apesar disso, é comum usar uma ideia já refutada de um artigo publicado há mais de uma década para continuar semeando dúvidas sobre se a checagem de fatos agrava os efeitos da desinformação em vez de reduzi-los.
Outra linha de ataque consiste em alegar que o problema da desinformação está sendo exagerado e amplificado. Segundo essa teoria, a quantidade de desinformação é muito pequena, e está sendo gerada uma preocupação desproporcional em torno dela.
No entanto, os artigos acadêmicos usados para justificar essas alegações apresentam um problema fundamental: oferecem uma definição extremamente limitada de desinformação e, portanto, medem apenas uma pequena fração do total de desinformação à qual os cidadãos estão expostos.
E, além de tudo isso, o trabalho de monitoramento e combate à desinformação continua sendo não apenas relevante, mas também a base essencial para muitas outras atividades. Sistemas de inteligência artificial que identificam a linguagem dos disseminadores de desinformação são treinados a partir de bancos de dados que os checadores de fatos certificaram como conteúdo falso.
As campanhas de combate preventivo à desinformação ou iniciativas de alfabetização midiática mais bem-sucedidas são preparadas em atenção às mentiras previamente identificadas pelos checadores de fatos.
Dizer que a checagem "não funciona" contra a desinformação, como ainda se ouve de vez em quando, é simplesmente incorreto. Alguns dos que defendem essa ideia simplesmente não têm as informações corretas ou mantêm uma visão ultrapassada, de uma década atrás, sobre o que os checadores de fatos fazem. Outros, é claro, têm interesse direto em manter essa narrativa por motivos comerciais.
Na Maldita.es, acreditamos que a checagem, por si só, não acabará com a desinformação porque:
nada pode eliminar a desinformação, não existe um método mágico, pois ela sempre existiu, mas podemos ajudar as pessoas; são necessárias muitas intervenções diferentes e eficazes para combatê-la.
Aqueles que acusam pequenas organizações de checagem (muitas sem fins lucrativos, como a Fundación Maldita.es) de não terem impacto suficiente deveriam, em primeiro lugar, aprender mais sobre nosso trabalho e, em segundo lugar, reconhecer nossas contribuições para a solução do problema.
Ferramentas são capazes de identificar conteúdo feito com IA? Veja o que dizem especialistas
Referências acadêmicas usadas no texto Acerbi, A., Altay, S., & Mercier, H. (2022). Research note: Fighting misinformation or fighting for information? . HKS Misinformation Review.Aruguete, N., Batista, F., Calvo, E., et al. (2024). Framing fact-checks as a "confirmation" increases engagement with corrections . Scientific Reports.Cagé, J., Gallo, N., Hengel, M., et al. (2025). Fact-Checking and Misinformation . SSRN.Chung, M., & Kim, N. (2021). Fact-checking and fake news diffusion . Human Communication Research.Clayton, K., Blair, S., Busam, J. A., et al. (2020). Real solutions for fake news? . Political Behavior.Cunliffe-Jones, P., & Graves, L. (2024). Fact-checking journalism is evolving . NiemanLab.Hoes, E., Altay, S., & Bermeo, J. (2023). Leveraging ChatGPT for fact-checking . PsyArXiv.Jia, C., & Lee, T. (2024). Perceptions of fact-checking labels . HKS Misinformation Review.Liu, X., Qi, L., Wang, L., & Metzger, M. J. (2025). Checking the fact-checkers . Communication Research.Martel, C., & Rand, D. G. (2024). Fact-checker warning labels are effective . Nature Human Behaviour.Martel, C., & Rand, D. G. (2023). Warning labels and misinformation . Current Opinion in Psychology.Mattozzi, A., Nocito, S., & Sobbrio, F. (2022). Fact-checking politicians . SSRN.Nyhan, B., Porter, E., Reifler, J., & Wood, T. (2020). Effects of fact-checking . Political Behavior.Nyhan, B., & Reifler, J. (2010). When corrections fail . Political Behavior.Porter, E., Velez, Y., & Wood, T. (2022). Vaccine misinformation corrections . Public Opinion Quarterly.Porter, E., & Wood, T. (2021). Global effectiveness of fact-checking . PNAS.Swire-Thompson, B., DeGutis, J., & Lazer, D. (2020). Searching for the backfire effect . Journal of Applied Research in Memory and Cognition.Tay, L. Q., Hurlstone, M. J., Kurz, T., & Ecker, U. K. (2021). Prebunking vs debunking . British Journal of Psychology.Wood, T., & Porter, E. (2019). The elusive backfire effect . Political Behavior.