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É falso que vacinas contra covid-19 tenham causado mais de 800 mil mortes nos EUA

VÍDEO QUE CIRCULA NAS REDES SOCIAIS CITA ARTIGOS COM FALHAS METODOLÓGICAS E DADOS DE ÓBITOS CAUSADOS POR OUTROS FATORES

3 jul 2026 - 16h10
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O que estão compartilhando: que estudos científicos com base em autópsias teriam identificado que até 840 mil mortes foram causadas por vacinas contra covid-19 nos Estados Unidos.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. Não há evidências de mortes em massa provocadas pela vacina contra covid-19. As afirmações apresentadas na postagem são baseadas em estudos não revisados e dados não confirmados. Na realidade, estudos demonstram que as vacinas reduziram a mortalidade por covid-19.

Saiba mais: O conteúdo analisado é um vídeo publicado no Instagram com mais de 30,2 mil curtidas e 411 mil visualizações. O autor da postagem foi procurado, mas não respondeu ao contato até a publicação.

Quem aparece nas imagens é o epidemiologista norte-americano Nicolas Hulscher, identificado por meio de busca reversa (veja aqui como fazer). Ele é conhecido por provocar polêmicas com o negacionismo científico, espalhar desinformação sobre vacinas e citar estudos que apresentam falhas metodológicas. Hulscher foi desmentido por diferentes agências de checagem do Brasil e do exterior (veja aqui, aqui e aqui).

As afirmações de Hulscher no vídeo se baseiam em dados falsos e não sustentados por evidências científicas, conforme explica o professor de imunologia médica Helton Santiago, diretor clínico do Centro de Tecnologia de Vacinas (CT-Vacinas) da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

"Há alguns eventos adversos associados às vacinas, sim. Mas, dado o volume enorme de vacinas administradas, representam casos isolados e exceções, especialmente pela quantidade de vidas que elas salvaram", destacou.

Santiago esclarece que, normalmente, os casos de morte associadas a vacinas foram de pessoas que tinham alguma contraindicação ao uso e que apresentaram reações não usuais por causas ainda desconhecidas.

"Bilhões de pessoas no mundo foram vacinadas com níveis de segurança muito bons, inclusive para plataformas vacinais novas", ressaltou.

Segundo o professor, não há nenhum estudo, antigo ou recente, que dê suporte à conclusão de que a maior parte das mortes por covid-19 foram causadas pelas vacinas: "Há o contrário: dados sólidos mostrando uma grande queda da mortalidade por covid-19 após a introdução das vacinas".

Afirmações sobre número de mortes se baseiam em dados não confirmados

Em um artigo publicado em maio de 2025, Hulscher afirmou que as vacinas contra a covid-19 mataram mais de 600 mil pessoas nos Estados Unidos, número superior às duas Guerras Mundiais e à Guerra do Vietnã juntas. No vídeo analisado pelo Verifica, o número de óbitos é ampliado para 840 mil e a comparação ganha o acréscimo da Guerra do Iraque. Mas isso tudo é falso.

No artigo, Hulscher cita estudos não revisados e dados não confirmados. Uma das fontes usadas por ele é o Sistema de Monitoramento de Segurança das Vacinas (Vaers), do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC).

Ocorre que qualquer pessoa pode registrar possíveis eventos adversos no Vaers, mesmo sem ter certeza de que eles estão ligados à vacinação. O próprio site da plataforma afirma que "o número de registros, por si só, não pode ser interpretado como evidência de uma associação causal entre uma vacina e um evento adverso, nem como evidência sobre a existência, gravidade, frequência ou taxa de problemas associados às vacinas".

Além disso, os dados do sistema "podem conter informações incompletas, imprecisas, circunstanciais ou não verificáveis". Ao contrário de outras bases de dados, as informações do Vaers não passam por verificação prévia. Os dados de mortes podem incluir até mesmo acidentes e atropelamentos, por exemplo.

O texto divulgado por Hulscher também comete o erro de considerar uma relação de temporalidade como uma comprovação de causa e efeito. Ou seja: o fato de uma morte acontecer depois da vacinação não prova que a vacina foi a culpada. Para isso, seriam necessários exames médicos.

O infectologista Alberto Chebabo, gerente de atenção à saúde do Hospital Universitário Clementino Fraga Filho da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), utilizou uma analogia para ilustrar as falhas desse tipo de argumentação. Ele exemplificou que esses dados poderiam ser comparados a um estudo feito em uma enfermaria masculina de cardiologia que analisasse as causas de infarto e correlacionasse o uso de cueca como um fator de risco.

"É óbvio que você vai achar ali todos os homens usando cueca. E isso não significa que há uma relação do uso de cueca com a insuficiência cardíaca, o infarto ou a hipertensão", disse.

De acordo com Chebabo, o texto de Hulscher apresenta outra falha grave: a falta de comparação com a média histórica de óbitos. O especialista ressalta que o artigo não confronta os dados analisados com o índice normal de mortes por doenças cardiovasculares na população em geral. "Não há uma comparação, nem há uma citação", ressaltou.

Para o infectologista, outra questão a ser considerada é que a própria infecção por covid-19 aumenta o risco de doença cardiovascular e de doença trombótica. Para ele, associar esses episódios à vacina, sem estabelecer um grupo de controle para comparação, invalida o levantamento.

"É um trabalho completamente falseado, que não pode ser levado em consideração. E as afirmações que ele faz em cima desses trabalhos também não podem ser levadas em consideração", resumiu.

Estadão
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