Mapa que mostra como mulheres votaram por Estado nas eleições de 2022 é falso
CONTEÚDO REPUBLICADO POR PAULO FIGUEIREDO NO X ATRIBUI AO TSE DADOS QUE NÃO EXISTEM; CONSTITUIÇÃO PROTEGE SIGILO DO VOTO; INFLUENCIADOR FOI PROCURADO, MAS NÃO RESPONDEU
O que estão compartilhando: um mapa que mostraria a divisão de votos femininos entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente Jair Bolsonaro no segundo turno das eleições de 2022. O petista teria sido o mais votado entre as mulheres na maioria dos Estados, com exceção de Roraima, Rondônia e Santa Catarina. A fonte dos dados é atribuída ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
O Estadão Verifica checou e concluiu que: é falso. A Justiça Eleitoral não tem dados de votação por gênero, em razão do princípio constitucional de sigilo do voto. Em nota, o TSE informou que não é possível vincular os registros das urnas à identidade ou perfil de eleitores. Além disso, o dado do Acre é inverossímil em relação ao número de homens e de mulheres votantes e o resultado da votação no Estado (leia mais abaixo).
O influenciador Paulo Figueiredo republicou o mapa nas redes sociais após declarar que "mulher vota estatisticamente muito mal". O Verifica procurou Figueiredo por meio do site oficial dele, mas não recebeu retorno.
Saiba mais: A Constituição Federal determina que o voto é secreto. Além disso, a Lei das Eleições (nº 9.504/1997) prevê que as urnas eletrônicas façam um registro digital individual da votação "resguardado o anonimato do eleitor".
Em nota, o TSE esclareceu ao Verifica que "não é possível associar os votos registrados na urna à identidade ou ao perfil cadastral da eleitora ou do eleitor".
Ao consultar a base de dados da Justiça Eleitoral, é possível constatar que não há números de como homens e mulheres votam. O portal apenas reúne estatísticas gerais sobre o eleitorado, como gênero, estado civil ou idade.
Resultado do Acre é inverossímil
Matematicamente, o mapa tem inconsistências, como explica o colunista do Estadão Franklin Weise, engenheiro conhecido como Frankito, o curioso.
Um exemplo é do Estado do Acre, que aparece no mapa como tendo a maioria do eleitorado feminino a favor de Lula. Ocorre que, no Acre, Bolsonaro venceu com 70,3% dos votos no segundo turno. Pelas contas de Frankito, para que a maioria das mulheres tivesse votado em Lula, seria preciso que 92% dos homens tivessem votado em Bolsonaro.
"A enorme diferença entre homens e mulheres por si só já é inverossímil. São 92% (no mínimo) de votos masculinos em Bolsonaro para que o mapa fizesse sentido. Uma votação assim é indício de dados falsos", diz.
A conta foi feita considerando o conjunto do eleitorado no Estado naquele ano, que foi de 51,6% de mulheres e 48,4% de homens, e o número de votos válidos recebidos por Lula e Bolsonaro no Acre no segundo turno das eleições de 2022.
O Verifica não encontrou pesquisas que avaliassem as intenções de votos femininos e masculinos no Acre antes do pleito de 2022. Contudo, outros levantamentos feitos no Brasil não mostravam uma desproporcionalidade tão grande entre os candidatos.
A pesquisa Datafolha divulgada em 27 de outubro de 2022, três dias antes do segundo turno daquele ano, mostra que Lula tinha 52% das intenções de voto do público feminino, enquanto Bolsonaro tinha 42%. Já entre os homens, o petista tinha 46%, contra 48% do candidato do PL.
Os institutos de pesquisa não realizaram levantamento de boca de urna no primeiro ou segundo turno de 2022.
Mapa falso viralizou após declaração de Paulo Figueiredo
Por meio da busca reversa (veja como fazer aqui), o Verifica localizou que a imagem com o mapa de voto feminino existe nas redes sociais desde maio, em posts que comemoravam a liderança de Lula nas eleições de 2022 entre as mulheres.
Nos últimos dias, o conteúdo voltou a circular na internet. Figueiredo respostou no X a publicação de outro usuário com o conteúdo falso. Ele usou o mapa como uma "prova" estatística de uma declaração feita contra o voto feminino em 25 de junho.
Em uma live, Figueiredo disse: "Mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente as mulheres solteiras. Mulheres casadas em geral tendem a acompanhar o voto do marido".
A senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) encaminhou notícia-crime à Procuradoria-Geral da República (PGR) contra o influenciador por violência política de gênero.
O Aos Fatos também publicou uma checagem sobre esse tema.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.