Sri Lanka: contas lucram com polarização brasileira e usam IA para massificar produção de posts
'ESTADÃO VERIFICA' MAPEOU REDE DE CONTAS COM ADMINISTRADORES CINGALESES QUE SÓ FALAM DO CENÁRIO POLÍTICO DO BRASIL
Contas viralizam no Facebook com imagens de inteligência artificial (IA) do ex-presidente Jair Bolsonaro e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Poderiam ser perfis comuns de partidários, não fosse um detalhe: elas são administradas por pessoas no Sri Lanka. O Estadão Verifica identificou uma rede de 28 contas localizadas no país asiático que somam 1 milhão de seguidores e atuam de forma semelhante.
Esses perfis publicam, na maior parte do tempo, conteúdo favorável ao clã Bolsonaro, mas também há vídeos exaltando Lula. A reportagem buscou entender o que faria pessoas a 14 mil quilômetros de distância postarem sobre a política brasileira. A resposta é simples: dinheiro.
Nós solicitamos que ele nos dissesse o total de páginas que administra, se trabalha sozinho ou se faz parte de uma equipe e se teve contato com algum político brasileiro. Mas ele parou de responder às mensagens da reportagem.
A Meta, dona do Facebook, usa parte da renda com anúncios em suas plataformas para remunerar os criadores de conteúdo. Os pagamentos são feitos a partir de dados de visualização e de engajamento com as postagens. Em 2025, a empresa afirmou ter pago US$ 3 bilhões em todo o mundo. "Quanto melhor o desempenho do seu conteúdo, mais dinheiro você pode ganhar", diz a Meta.
Usuários de países pobres podem focar sua atividade no público de países mais ricos para ganhar mais dinheiro. Visualizações de conteúdos em lugares com moedas mais fortes geram um retorno melhor aos criadores de conteúdo.
Essa estratégia fica ainda mais fácil com as ferramentas de IA. Com comandos simples, é possível fazer fotos e vídeos em praticamente qualquer língua. Não é necessário sequer conhecer bem o país alvo.
Procurada, a Meta apenas enviou links com informações sobre a Política de Monetização e os detalhes sobre o trabalho da empresa para as eleições de 2026.
Após o contato do Verifica com a Meta, a maior parte das páginas monitoradas ficou indisponível. Conforme a empresa, isso acontece quando o dono restringe o conteúdo ou quando ele é excluído. Em 3 de julho, apenas duas contas continuavam no ar.
Muitas das postagens têm legendas sobrepostas às imagens que fazem perguntas aos seguidores. Há, por exemplo, muitas publicações que pedem ao seguidor que use a reação de "amei" se apoiam Flávio Bolsonaro, ou "curti" se apoiam o Lula. Trata-se de mensagens "call to action" - estimulam a reação nas postagens, aumentando a viralização.
O Verifica encontrou indícios de falsidade em todas as contas analisadas. Embora as postagens sejam voltadas para o público brasileiro, quase todas têm nomes em inglês, como Life in Brazil (Vida no Brasil), Soul of Brazil (Alma do Brasil) e Legend of Brazil (Lenda do Brasil). Além disso, algumas postagens são feitas em inglês, espanhol e até árabe.
Também há muitas similaridades entre as contas, o que dificulta a possibilidade de serem coincidências. As evidências fortalecem a possibilidade de elas estarem atuando em rede ou com comportamento coordenado.
A primeira coincidência é a temporalidade na criação das páginas. De todas as 28 páginas analisadas, 21 foram criadas entre o segundo semestre de 2025 e o primeiro semestre de 2026.
No caso das contas criadas antes desse período, elas tinham nomes diferentes que foram alterados a partir do segundo semestre de 2025. Por exemplo, a página Living in Brazil só passou a se chamar assim em 10 de agosto de 2025. Mas ela foi criada em 19 de junho de 2020 com um nome em cingalês: ??????.
Solicitamos à agência de checagem indonesia Tempo, parceira do Verifica na associação internacional IFCN, para traduzir o nome. Os parceiros informaram que uma tradução possível seria "marketing" ou "vendas".
Já as páginas Legend of Brazil e President 2026, por exemplo, foram criadas no mesmo dia: 11 de novembro de 2025. As duas compartilham a mesma descrição: "Quem será o presidente em 2026?" Foi possível constatar que elas fizeram exatamente as mesmas postagens em 10 de dezembro de 2025, nos mesmos horários: 11h, 13h, 15h, 17h e 19h.
Contas do Sri Lanka usam dados de localização falsos
As informações de localização das páginas, adicionadas pelos próprios administradores, são discrepantes. A reportagem encontrou páginas "localizadas" na Catedral de Santo Amaro, na Catedral da Sé e na estação Paraíso do Metrô, todas em São Paulo. Em outros casos, o DDD do telefone para contato não condiz com o Estado do endereço informado.
Os dados de localização são falsos. Eles servem apenas para dar uma impressão maior de autenticidade. Fazem parecer que as contas são geridas por brasileiros, o que não é verdade.
As informações de transparência da página, fornecidas pela própria Meta, confirmam que os perfis são administrados por pessoas do Sri Lanka. Esses dados de localização são obtidos por meio de informações de conexão e do dispositivo dos donos das páginas.
Há diversas outras evidências de que as contas são administradas por cingaleses. Além de uma ou outra postagem no idioma oficial do Sri Lanka, algumas páginas seguem atrizes e jogadores de críquete famosos no país asiático.
Especialistas veem distorção no programa de remuneração da Meta
Especialistas ouvidos pelo Verifica apontam que a manipulação de conteúdos sobre política com fins financeiros já ocorreu anteriormente. O que é novidade é a manipulação do programa da Meta, e o uso de IA para massificar a produção.
Em encontro mundial de checagem, jornalistas defendem coragem contra a desinformação
Ferramentas são capazes de identificar conteúdo feito com IA? Veja o que dizem especialistas
A discussão ganha peso com a aproximação das eleições de 2026. O doutor em Ciência Política Rodrigo de Almeida Leite, professor do Departamento de Direito da Universidade Federal de Juiz de Fora, explica que pela legislação brasileira não é permitido divulgar fatos sabidamente inverídicos.
Uma resolução de 2024 do Tribunal Superior Eleitoral proíbe o uso de inteligência artificial para difundir informações falsas ou descontextualizadas e que possam vir a prejudicar o equilíbrio da eleição ou a integridade do processo. É proibido, por exemplo, o uso de deepfake para prejudicar ou favorecer candidaturas.
O professor aponta que a resolução permite a responsabilização das plataformas por fatos ilícitos cometidos por contas estrangeiras. A normativa, diz, impõe um dever quase automático para a plataforma de cessar a monetização de contas que estão produzindo materiais ilícitos em termos eleitorais.
A doutora em Comunicação Taís Seibt, pesquisadora no campo da desinformação, afirma que o conteúdo sintético gera muito engajamento, mesmo com falhas perceptíveis como imperfeições de voz, assincronismo entre som e imagem e até rostos distorcidos.
"É possível que muitos apoiadores estejam acreditando que os vídeos sejam de pessoas reais e declarações reais", diz Seibt. "Mas também é possível que muitos outros curtam, comentem e compartilhem mesmo sabendo que se trata de um conteúdo sintético, simplesmente por apoiar a mensagem que se apresenta. E quanto mais fazem isso, mais promovem essa mensagem."
O professor do Departamento de Estudos de Mídia da Universidade da Virgínia David Nemer diz que a manipulação das audiências não se limita ao fato de os conteúdos serem sintéticos. Segundo ele, as postagens vendem ideias que não existem. Por exemplo, ao representarem Lula ou Bolsonaro cercados de uma multidão, passam a ideia de uma mobilização que não existiu na vida real.
"Há essa manipulação da emoção para gerar o engajamento para capitalizar", acrescenta o professor.
Comentários
Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.