Checagem de fatos expande audiência em meio a cenário de financiamento desafiador, aponta relatório
RESULTADO CONSTA EM PESQUISA DA ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE CHECADORES DE FATOS (IFCN) E DEMONSTRA RESILIÊNCIA DAS ORGANIZAÇÕES
As organizações de checagem de fatos iniciaram as atividades no ano de 2025 sob pressão financeira e terminaram o período mais expostas à insegurança operacional. Por outro lado, expandiram a audiência, aprofundaram a colaboração e adaptaram o trabalho a um ambiente de informação mais rápido e visual, cada vez mais moldado pela inteligência artificial (IA).
As conclusões são do relatório O Panorama dos Checadores de Fatos 2025, publicado pela International Fact-Checking Network (IFCN), associação internacional de verificadores de fatos, da qual o Estadão Verifica é signatário desde 2019.
Checagem de fatos é a atividade que jornalistas especializados fazem ao corrigir desinformação que circula na internet e em outros meios.
O ano trouxe uma reversão em relação ao que o relatório de 2024 havia notado: o financiamento tornou-se mais restrito e as receitas caíram em grande parte do setor. Em 2024, quase metade das organizações havia relatado aumento de receita. Em 2025, 45,3% relataram quedas.
Questionadas sobre sua situação financeira atual, apenas 22,6% das organizações se consideraram sustentáveis. Outras 67,2% disseram estar vulneráveis ??e 8,8% disseram estar em crise. No total, 76% terminaram o ano vulneráveis ??ou em crise.
As conclusões do relatório são provenientes de respostas de 141 organizações em 71 países, que representam 77,5% dos signatários da IFCN em todo o mundo. Elas oferecem um panorama de uma comunidade global que absorveu um ano difícil e continuou trabalhando.
Ao mesmo tempo em que dificuldades de financiamento foram acentuadas, as organizações atingiram um público maior. Apesar da redução dos orçamentos e dos cortes de pessoal, 62% relataram crescimento de audiência em 2025.
A colaboração também se intensificou: 94,9% das organizações fizeram parceria com pelo menos um tipo de organização, e a porcentagem das que colaboram mensalmente ou mais aumentou de 35,3% para 58,4%.
As pressões não foram apenas financeiras. Os processos judiciais aumentaram, afetando 20,4% das organizações em 2025, contra 16,4% em 2024. Quase 3 em cada 10 enfrentaram pressão, restrições ou interferência de autoridades governamentais. As taxas de assédio, por outro lado caíram de 78% para 65%.
A abrangência da cobertura diminuiu: todas as categorias de verificação de fatos apresentaram queda, com as alegações sobre ciência climática e fatos históricos registrando as maiores reduções.
Fontes de desinformação e escopo da cobertura
As plataformas Meta — Facebook, Instagram, WhatsApp e Threads — foram as fontes de conteúdo falso ou enganoso mais citadas pelos verificadores de fatos em 2025, mencionadas por 78,1% das 137 organizações. O X veio em seguida, com 59,9%, e o TikTok logo atrás, com 59,1%. O YouTube foi citado por 24,8% das organizações e o Telegram, por 13,9%.
A maioria das organizações de checagem de fatos continuou a cobrir conteúdo político e não político em 2025. Entre as 137 organizações que responderam à pergunta, 56,9% disseram que checavam fatos em ambas as categorias em proporções aproximadamente iguais. O dado permaneceu quase inalterado em relação aos 57,7% em 2024.
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Em tópicos específicos, a cobertura diminuiu amplamente. Questões sociais permaneceram a área de foco mais comum, citada por 89,8% das organizações, em comparação com 93,4% em 2024. O tema de eleições e política, que vêm em seguida, caiu de 95,6% para 87,6%. Saúde pública, o terceiro assunto mais coberto, caiu de 95,6% para 86,1%.
Os outros tópicos mais checados foram asuntos econômicos (75,2%), imigração ou migração (59,9%), ciência climática (55,5%), reportagem de mídia (51,8%), assuntos tecnológicos (43,1%) e alegações históricas (40,1%). A categoria "outros" registrou 14,6% da cobertura.
Perfil das agências de checagem
As organizações sem fins lucrativos continuaram a representar a maioria das agências de verificação de fatos em 2025. Dos 141 respondentes, 60,3% se identificaram como organizações sem fins lucrativos: situação praticamente inalterada em relação aos 59,6% de 2024.
Os veículos de mídia com fins lucrativos representaram 34,8%, uma leve queda em relação aos 36,9% de 2024. As instituições acadêmicas representaram 2,1%, em comparação com 3,5% em 2024.
A pesquisa deste ano adicionou duas categorias: organizações afiliadas ao governo, que não receberam respostas, e "outros", que representaram 2,8% dos respondentes.
As comparações diretas com 2024 são aproximadas, embora o padrão geral permaneça claro. As organizações sem fins lucrativos ainda dominam o setor, os veículos com fins lucrativos agora parecem ter se estabilizado após atingirem um pico de quase 50% em 2021, e os verificadores de fatos acadêmicos continuam sendo uma pequena parcela da comunidade.
Metodologia da pesquisa
A International Fact-Checking Network (IFCN), vinculada ao Instituto Poynter, fez a pesquisa com todos os signatários do Código de Princípios da IFCN entre 3 e 15 de fevereiro de 2026. Um total de 141 organizações em 71 países responderam, representando 77,5% dos veículos de checagem de fatos da rede. As descobertas e tendências são baseadas em dados do ano de 2025, de janeiro a dezembro.
O Código de Princípios da IFCN exige que os verificadores de fatos divulguem de forma transparente seus objetivos jornalísticos, métodos, políticas de correção, fontes de financiamento, propriedade e informações de contato. Também exige que as checagens de fatos sejam completamente documentadas e referenciadas para que outros possam replicar as descobertas.