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Vídeos usam IA para criar 'alertas' de Gonzaguinha, Renato Russo e Cazuza sobre Bolsonaro

PRODUÇÕES MANIPULAM ENTREVISTAS ANTIGAS USANDO INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL PARA INCLUIR CRÍTICAS AO EX-PRESIDENTE

6 abr 2026 - 17h00
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O que estão compartilhando: vídeos em que diferentes personalidades alertavam, décadas atrás, sobre os riscos que Jair Bolsonaro representava para a democracia brasileira. Vídeos mostram nomes como Gonzaguinha, Renato Russo e Cazuza fazendo críticas ao ex-presidente.

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é falso. Os conteúdos foram produzidos com o uso de inteligência artificial. Uma dublagem aplicada sobre imagens reais cria manifestações nunca feitas pelos artistas. Uma ferramenta de detecção de IA usada pelo Estadão Verifica apontou o uso do artifício, também perceptível por reunir características deste tipo de criação sintética: fala robótica e sem sincronia com a imagem e, na maioria dos casos analisados, sem semelhança com as vozes originais.

Saiba mais: os vídeos circulam em plataformas como Instagram, X, Facebook e TikTok. Nesta última, dezenas deles foram encontrados pelo Verifica em um perfil que agrupa conteúdo crítico a Bolsonaro. A página destaca vídeos falsos manipulados com IA nos quais celebridades comentam assuntos variados. A reportagem tentou contato com o criador do perfil, mas não houve retorno.

Um dos vídeos analisados pelo Verifica mostra o cantor Renato Russo (1960-1996), da banda Legião Urbana, em uma entrevista à MTV Brasil identificada como feita em 1988. O artista critica o "vereadorzinho" que acabou de ser eleito no Rio de Janeiro, referindo-se a Bolsonaro. "Esse cara só fala merda. Isso mostra como o povo é alienado".

As imagens são reais, mas fazem parte uma entrevista exibida em outubro de 1993, sem nenhuma referência à política. Em 1988, a versão brasileira da emissora musical MTV ainda não estava em operação no Brasil, o que só viria a ocorrer em outubro de 1990. A ferramenta de detecção Hive apontou que o áudio de Renato Russo foi criado por IA, com índice de 99,2%.

As evidências técnicas de manipulação e as ausências de registros que atestem a veracidade das declarações se repetem em outros vídeos que simulam personalidades que avisaram sobre os perigos que Bolsonaro representava no início de sua vida pública.

Um desses vídeos mostra o cantor Gonzaguinha (1945-1991) dizendo que "nunca se ligou muito em política" mas que queria fazer um alerta que Bolsonaro era um "perigo para democracia". A fala não apenas não é real como também não faria sentido: o compositor sempre foi associado pelo público "às músicas de protesto e de resistência à ditadura militar", segundo o Dicionário Cravo Albin da Música Brasileira.

Na entrevista real, aliás, Gonzaguinha se descreve como uma pessoa "engajada" numa luta contra "uma determinada coisa que eu não concordo". A declaração foi feita à jornalista Leda Nagle no Jornal Hoje em 1979, durante a Ditadura Militar. Ele teve várias músicas censuradas pelo regime.

Ulysses Guimarães (1916-1992), deputado federal e presidente da Assembleia Nacional Constituinte, figura em outro vídeo como autor da "primeira denúncia", feita no plenário do Congresso em 1988. Ulysses diz que "o vereador Bolsonaro", do Rio de Janeiro, manipula eleitores para favorecer uma nova ditadura no Brasil e fala um "monte de asneiras" contra a democracia. Tais considerações nunca foram feitas pelo parlamentar símbolo da redemocratização do País.

Em 1988, Bolsonaro foi eleito vereador pela cidade do Rio de Janeiro, integrando o Partido Democrata Cristão (PDC). Ele ainda não era uma figura pública nacionalmente conhecida e cumpriu um mandato breve. Em 1990, no mesmo partido, conquistou a cadeira de deputado federal. Passou por diferentes partidos e permaneceu no Congresso até dar início, em 2019, ao mandato presidencial

Incongruências temporais são observadas também no registro mentiroso atribuído a Cazuza (1958-1990), em ano não especificado. O cantor menciona Bolsonaro como um "amigo de seu pai" que recém havia sido eleito deputado federal. Lembra ter dito diretamente a Bolsonaro: "Quem elege você é porque é ignorante e não tem amor ao próximo". Isso não seria possível porque Cazuza morreu em julho de 1990 e Bolsonaro foi eleito deputado no pleito organizado meses depois, em outubro.

Entre outros nomes conhecidos que aparecem mencionando Bolsonaro em vídeos com os áudios adulterados, estão também os cantores Raul Seixas e Tim Maia, o humorista Chico Anysio, o jornalista Paulo Francis, o jogador de futebol Pelé e o piloto Ayrton Senna.

Estadão
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