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Vídeo exagera benefícios da cúrcuma ao alegar que ela pode reduzir colesterol e prevenir Alzheimer

ESPECIARIA TEM PROPRIEDADES ANTI-INFLAMATÓRIAS, MAS CONSUMO EM EXCESSO PODE SER PREJUDICIAL PARA A SAÚDE

17 jun 2026 - 11h55
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O que estão compartilhando: vídeo indica receita de cúrcuma e gelatina com a alegação de que ela seria um "remédio natural" para a manutenção da saúde cardíaca e melhora da imunidade. Além disso, o post afirma que a mistura seria capaz de prevenir o Alzheimer.

Consumo excessivo de cúrcuma pode ser prejudicial para a saúde.
Consumo excessivo de cúrcuma pode ser prejudicial para a saúde.
Foto: Reprodução/Facebook / Estadão

O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. A cúrcuma tem propriedades anti-inflamatórias, mas não há comprovação científica para os outros benefícios descritos no vídeo.

Especialistas alertam que o uso exagerado de cúrcuma sem supervisão médica pode causar interações indesejadas com medicamentos, aumento de chances de sangramento e danos ao fígado.

A autora do vídeo foi procurada pelo Verifica, mas não respondeu.

Saiba mais: O vídeo soma mais de 1 milhão de visualizações no Facebook e foi publicado também nos perfis do Instagram e do TikTok da autora. Nas redes, ela se identifica como esteticista e criadora de protocolos faciais e corporais. Na publicação checada, a responsável pelo vídeo ensina uma receita de cubos de gelatina com cúrcuma e lista uma longa série de supostos benefícios da especiaria. A legenda divulga a receita como um "remédio natural" poderoso para a saúde do corpo.

Não há evidências de benefícios para redução do colesterol, prevenção do Alzheimer e combate a gripes

De acordo com o professor Leopoldo Baratto, do Departamento de Produtos Naturais e Alimentos da Faculdade de Farmácia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a cúrcuma tem propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes. Para esses benefícios, há embasamento científico contundente.

Entretanto, não existe comprovação clínica para efeitos de redução do colesterol, prevenção do Alzheimer e combate a gripes e infecções. Segundo Baratto, a cúrcuma não previne o aparecimento de doenças.

Em relação à prevenção do Alzheimer, não existem estudos clínicos que comprovem benefício do consumo de cúrcuma. É o que explica a neurologista Elisa Resende, coordenadora do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia.

A médica acrescenta que os estudos realizados até agora foram feitos em animais. Mesmo que alguns tenham mostrado resultados positivos, isso não significa que seriam promissores também em seres humanos.

Outra propriedade destacada no vídeo é a de efeitos positivos na saúde do coração e na redução do colesterol. Mas também não há evidência científica desses benefícios, segundo o cardiologista e nutrólogo Daniel Magnoni, do Hospital do Coração de São Paulo.

Uso indiscriminado de cúrcuma pode causar efeitos graves

O professor Baratto alerta que a cúrcuma não pode ser consumida de forma indiscriminada. Segundo ele, doses excessivas, oriundas de extratos concentrados ou receitas caseiras, podem causar náuseas, dor estomacal, diarreia e aumento de risco de sangramentos.

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Outro risco está relacionado à saúde do fígado. A médica Isolda Prado, diretora da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran) e professora de Nutrologia da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), destaca que o uso indevido e em altas doses de produtos com cúrcuma começou a ser associado à hepatite.

Em março deste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu um alerta de farmacovigilância para quem utiliza medicamentos ou suplementos que contenham cúrcuma concentrada. O alerta foi baseado em casos raros, mas graves, de intoxicação hepática. O problema estaria associado a preparos que promovem uma absorção maior da curcumina, substância presente na cúrcuma.

O risco, para Isolda, está em considerar "remédios naturais" como inteiramente inofensivos. Isso pode causar uma falsa sensação de segurança, que leva ao uso sem orientação, ao consumo em doses inadequadas, à combinação com medicamentos e até à substituição de tratamentos com eficácia comprovada por intervenções sem evidências robustas.

"Natural não significa seguro. Plantas e extratos podem causar efeitos adversos, como alergias, intoxicações, lesão hepática, interação com medicamentos e atraso no diagnóstico ou tratamento adequado", ressaltou.

Alguns grupos têm risco aumentado e devem ter cautela com o uso de cúrcuma/curcumina:

pacientes com distúrbios hemorrágicos, que fazem uso de anticoagulantes ou antiagregantes plaquetários;indivíduos com cálculos biliares ou obstrução das vias biliares;pessoas com doença hepática ou renal;Pessoas que utilizam múltiplos medicamentos. Como consumir cúrcuma de forma segura

Para que se tenha acesso aos benefícios da especiaria, o recomendado é o consumo de produtos de boa qualidade e na dosagem correta. A cúrcuma em pó, comercializada a granel, pode ter a matéria-prima adulterada com a adição de amido e pigmentos. Nesses casos, não há qualidade para fins medicinais, segundo o professor Baratto.

"Para fins medicinais utiliza-se o medicamento fitoterápico, que pode ser industrializado ou manipulado em farmácias. Ele vai conter extrato seco padronizado ou quantificado de cúrcuma, geralmente em cápsulas, e com a quantidade correta de curcuminoides, conhecidos por fazer a ação terapêutica", explicou o professor.

Segundo a nutróloga Isolda, o uso culinário da cúrcuma, feito in natura ou em pó, é seguro para a maioria das pessoas e contribui com compostos bioativos. O consumo alimentar comum geralmente fornece quantidades pequenas de curcumina.

Bebidas, chás e preparações caseiras podem fazer parte da alimentação, mas não devem ser considerados como tratamento comprovado para doenças específicas.

Isolda lembra que receitas milagrosas não devem substituir uma alimentação equilibrada e exercícios físicos. Comer frutas, verduras, legumes, feijões, grãos integrais, oleaginosas, peixes e azeite de oliva e reduzir o consumo de ultraprocessados, açúcar e gordura trans faz bem à saúde.

O exercício físico regular (com combinação de treino aeróbico e muscular) e controle do peso corporal também são fundamentais. Outras práticas importantes são manter o sono adequado e evitar o tabagismo e o excesso de álcool.

Estadão
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