Vídeo exagera ao listar remédios que 'detonam o coração' e omite contexto sobre uso seguro
ESPECIALISTAS EXPLICAM QUE REMÉDIOS COMO IBUPROFENO, NIMESULIDA E NEOSORO TÊM RISCOS, MAS SÃO SEGUROS QUANDO USADOS COM AS INDICAÇÕES CORRETAS
O que estão compartilhando: vídeo feito com inteligência artificial lista remédios que "detonam" o coração. O conteúdo alega que ibuprofeno, diclofenaco, nimesulida, neosoro e sibutramina seriam responsáveis pelo aumento da pressão e da frequência cardíaca e pela sobrecarga do fígado.
O Estadão Verifica investigou e concluiu que: é enganoso. O vídeo usa tom alarmista e cita riscos sem oferecer contexto ou explicações detalhadas sobre eles.
Especialistas consultados pelo Verifica afirmam que todos os medicamentos citados têm riscos e contraindicações. Entretanto, a utilização é segura desde que sejam corretamente indicados por profissionais da saúde. Para eles, listar sintomas de malefícios sem oferecer informações, como dose, duração de tratamento, frequência dos eventos e perfil dos pacientes, pode distorcer a percepção de riscos.
Os remédios citados no vídeo têm riscos cardiovasculares associados ao uso. Entretanto, esses efeitos ocorrem principalmente quando o consumo ocorre de forma inadequada, com duração prolongada, em pacientes com contraindicações, em doses altas e/ou sem supervisão de profissional da saúde.
Saiba mais: com mais de 560 mil visualizações no Facebook, o vídeo usa termos inadequados para temas relacionados à saúde, como "detonam o coração", "engrossa o sangue" ou "aperta o coração". O conteúdo é da página Saúde em Movimento, abastecida diariamente com publicações similares. No perfil da rede social, um link direciona para a página de venda de um e-book sobre tratamentos naturais.
O autor do vídeo, Tiago Rocha, apresenta-se como biólogo, cientista e naturoterapeuta nas redes sociais. Ele publicou um livro que promete revelar "segredos" que curam e previnem doenças, usando apenas "o que a natureza oferece." Algumas das publicações dele já foram checadas pelo Verifica (aqui, aqui e aqui).
A reportagem procurou o autor, mas não recebeu resposta.
Medicamentos citados em vídeo são seguros se corretamente indicados e utilizados
Todos os medicamentos citados no vídeo têm riscos de efeitos adversos. No entanto, como destaca o farmacêutico Lindemberg Assunção Costa, presidente da Sociedade Brasileira de Farmácia Hospitalar e Serviços de Saúde, eles passam por avaliações técnico-regulatórias antes da autorização para comercialização.
No Brasil, isso é feito pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que analisa dados de qualidade, segurança e eficácia dos medicamentos. A autorização para comercialização e uso ocorre quando os benefícios superam os riscos conhecidos.
Portanto, os medicamentos citados no vídeo - diclofenaco, ibuprofeno, nimesulida, descongestionantes nasais (como o Neosoro) e sibutramina - passaram por esse processo e foram autorizados. Os riscos associados são evitados ou mitigados com a utilização correta dos medicamentos e acompanhamento de profissionais.
"Como profissionais da saúde, reforçamos que o risco não invalida a utilidade do medicamento, mas exige critério técnico na indicação", resume o farmacêutico.
Quando os anti-inflamatórios causam problemas cardiovasculares?
Diclofenaco, ibuprofeno e nimesulida, listados no vídeo, são anti-inflamatórios não esteroides cujo efeito pode levar à retenção de sódio e água pelos rins, resultando em elevação da pressão arterial. A redução dos efeitos de medicamentos anti-hipertensivos também pode acontecer após tomar esses remédios.
A existência desse risco ou possibilidade, entretanto, não deve ser considerada uma consequência inevitável para quem usa o medicamento. É o que explica a cardiologista Ana Patrícia Nunes de Oliveira, coordenadora dos Comitês de Promoção e Prevenção Cardiovascular e dos Cuidados Paliativos do Instituto Nacional de Cardiologia (INC).
"Para uma pessoa saudável, o uso eventual, na menor dose eficaz e pelo menor período possível, tende a apresentar risco absoluto baixo", afirma a especialista.
Ela completa afirmando que existem grupos que estão mais suscetíveis a problemas. Neles, o uso não é indicado ou deve ser feito com mais atenção.
Esses grupos apresentam:
• insuficiência cardíaca ou doença cardiovascular;
• hipertensão não controlada;
• doença renal ou desidratação;
• úlcera ou sangramento gastrointestinal;
• uso de anticoagulantes ou antiagregantes;
• idade avançada ou fragilidade;
• uso simultâneo de vários medicamentos;
• gravidez;
• suspeita de dengue;
• doença hepática, especialmente no caso da nimesulida.
A cardiologista reforça que os riscos são maiores, principalmente, quando o uso é feito em doses altas, por tempo prolongado ou por pessoas que já apresentam maior risco cardiovascular. Portanto, é fundamental a orientação de médicos e profissionais da saúde para prescrição correta de doses e período dos tratamentos dos medicamentos.
Em caso de dor, pressão ou desconforto torácico, falta de ar e palpitações persistentes, a especialista recomenda procurar a avaliação de um médico, independentemente do medicamento utilizado.
Neosoro contrai vasos sanguíneos?
A cardiologista explica que existem descongestionantes nasais cujas formulações são apenas salinas e não vasoconstritoras (que contraem os vasos sanguíneos). Além disso, não causam dependência relacionada ao mecanismo de descongestionamento.
No caso do Neosoro adulto, há presença de nafazolina, um vasoconstritor, que age sobretudo nos pequenos vasos da mucosa nasal, reduzindo o inchaço e a sensação de nariz entupido.
Para Ana Patrícia, não é correto afirmar que o medicamento contrai os vasos do corpo inteiro de todas as pessoas. O uso excessivo, ingestão acidental ou aplicação inadequada, no entanto, podem levar o organismo a absorver parte do medicamento.
O farmacêutico Costa destaca que o uso abusivo e prolongado do Neosoro pode provocar hipertensão e taquicardia. A bula do medicamento recomenda que o uso não seja feito por tempo superior a cinco dias.
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Quais os riscos associados à nimesulida?
Alegações sobre o efeito da nimesulida de "engrossar o sangue" não estão cientificamente corretas. O medicamento não aumenta a viscosidade do sangue. Palpitações também não são consequência da nimesulida.
No entanto, há sim risco para o fígado, segundo explica o médico hepatologista Vinícius Nunes, membro da Sociedade Brasileira de Hepatologia. "Ela tem risco de causar hepatite, que é uma inflamação no fígado. A maioria das pessoas vai usar e não vai ter problema nenhum, mas pode existir efeito colateral em alguns casos", diz.
A bula do medicamento não recomenda o uso em pacientes com insuficiência hepática. Além disso, afirma que a associação dele a reações hepáticas graves é rara.
Segundo o vídeo, problemas hepáticos causariam, em sequência, reações no coração. Mas isso está incorreto. "Há situações em que [problemas hepáticos] são tão graves que possuem repercussões cardíacas, mas isso é uma exceção", explica o hepatologista.
Sibutramina não é o 'remédio mais perigoso para o coração', mas deve ser usado com acompanhamento
Para a cardiologista Ana Patrícia Nunes de Oliveira, a afirmação do vídeo de que a sibutramina seria o "remédio mais perigoso para o coração" é alarmista. No entanto, o medicamento usado no tratamento da obesidade tem riscos cardiovasculares reais e deve ser prescrito de forma criteriosa.
"Ela aumenta a atividade de neurotransmissores como a noradrenalina. Como consequência, pode aumentar a frequência cardíaca e a pressão arterial", alerta.
Por esse motivo, a sibutramina é contraindicada para pessoas com:
doença arterial coronariana; insuficiência cardíaca;arritmias clinicamente relevantes; doença cerebrovascular;hipertensão não controlada.
A medicação não deve ser usada sem avaliação médica ou acompanhamento da pressão arterial e frequência cardíaca.
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Em caso de dúvidas, procure médico ou farmacêutico
Os especialistas consultados consideram legítimo que as pessoas tenham dúvidas com relação às medicações. Para saná-las, é importante consultar profissionais da saúde, em especial diante de conteúdos alarmistas.
Os pacientes podem questionar esses profissionais a respeito dos riscos do uso do medicamento em seus quadros, assim como a dose e o tempo indicados. Perguntar sobre alternativas de tratamento também é válido.
Não é recomendado interromper, substituir ou reduzir um medicamento prescrito apenas por causa de conteúdos das redes sociais. Eles podem provocar pânico desnecessário, levar pessoas a interromper tratamentos importantes ou induzi-las a usar alternativas sem eficácia ou segurança.
"Uma informação científica de qualidade não produz pânico. Ela permite que as pessoas reconheçam riscos, evitem a automedicação e participem de maneira consciente das decisões sobre a própria saúde", afirma Ana Patrícia.
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