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Caso Orelha: por que precisamos falar em educação humanitária

Intervenções educativas são uma das estratégias mais eficientes para influenciar atitudes de crianças e adolescentes em relação aos animais

18 fev 2026 - 08h44
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A gravidade dos recentes episódios de maus-tratos a animais registrados país afora é tão marcante que o caso mais notório - a morte sob tortura do cão comunitário Orelha, de Santa Catarina - foi parar no desfile da escolas de samba do Grupo Especial no Sambódromo da Marquês de Sapucaí, no Rio de Janeiro. A escola Mocidade Independente de Padre Miguel, em seu enredo sobre a cantora Rita Lee, colocou placas com o nome de Orelha no pescoço dos cães que ornamentavam um carro alegórico em referência ao amor que a cantora tinha pelos animais.

O caso é emblemático e coloca ainda mais importância sobre uma questão que a sociedade brasileira precisa se fazer com urgência e seriedade: o que fazer para intervir e prevenir novos casos de agressão contra animais? O episódio no qual quatro adolescentes são acusados do espancamento que resultou na morte de Orelha chama a atenção para um problema que está longe de ser caso isolado.

Situações de violência contra animais envolvendo crianças e adolescentes estão associados a uma diversidade de fatores. Entre eles estão dificuldades comportamentais e psicológicas, exposição à violência e inserção em contextos sociais ou familiares nos quais a violência é normalizada.

Qual o papel da educação na prevenção desse tipo de violência? E quando a violência já aconteceu, o que fazer para irmos além de medidas punitivas? O que se sabe sobre a eficácia de programas de intervenção dirigido a crianças e adolescentes que maltrataram animais?

Perguntas como essas têm sido feitas por vários pesquisadores, que assim como eu, se interessam em compreender os múltiplos aspectos do vínculo que construímos com os animais, inclusive quando esse vínculo envolve dificuldades em protegê-los e cuidá-los.

Um possível modelo de intervenção

Uma pesquisa publicada em 2025 investigou a eficácia de um programa de intervenção educacional dirigido a crianças que já demonstraram comportamentos preocupantes em relação a animais, incluindo crueldade ou risco de dano animal. O programa foi aplicado de forma individual na escola ao longo de 6 a 10 semanas com 24 crianças. A pesquisa também envolveu um grupo controle. Ou seja, um grupo de 24 crianças que não participaram do programa foi comparado com o grupo que participou da intervenção.

O foco principal era ensinar compreensão da senciência animal (que animais sentem e têm emoções), conhecimento das necessidades de bem-estar animal, assim como práticas corretas e seguras de interagir com animais, e habilidades ligadas a cuidados, empatia e comportamento responsável com animais. Os resultados mostraram diferenças significativas comparando o grupo controle e o que recebeu a intervenção.

O grupo que participou do programa mostrou mais comportamento positivo em relação a animais, maior capacidade de entender e se comportar com base nos sentimentos dos animais e maior crença em que animais têm mente e sentimentos.

Os autores alertam que não se pode dizer que resultados semelhantes seriam observados em crianças que possuem dificuldades psicológicas mais complexas, porém independente da gravidade da violência praticada, meninos e meninas mostraram diferenças nitidamente positivas após o programa.

Ou seja, o estudo sugere que este tipo de programa pode reduzir a probabilidade de repetição e ajudar no desenvolvimento de atitudes mais compassivas embora não se possa dizer se esses impactos se manteriam ao longo do tempo.

Estudos como esse, com grupo controle e maior rigor científico ainda são raros, mas apontam uma possível estratégia a ser explorada e possivelmente implementada em casos de maus-tratos animais.

Educação humanitária

Em linha com esse estudo, há ainda análises sobre programas chamados "Humane Education" ou educação humanitária. Essas intervenções têm um caráter preventivo e envolvem um conjunto de práticas educacionais intencionais e sistemáticas voltadas ao desenvolvimento de empatia, pensamento crítico e responsabilidade ética. O objetivo é ensinar crianças e jovens a compreender o impacto de suas ações sobre outros seres, humanos e não humanos, e sobre o mundo ao seu redor.

Uma revisão sistemática mostrou que intervenções educativas são uma das estratégias mais citadas para influenciar atitudes em relação aos animais. Elas parecem ser importantes para que os jovens conheçam melhor os animais e tenham contato com eles.

Esses programas geralmente incluem componentes emocionais que estão associados a maior empatia e atitudes mais favoráveis. Crianças expostas a esses programas tendem a estender a empatia pelos animais para a empatia também entre humanos. Ou seja, tais programas podem ter um impacto positivo em uma série de comportamentos sociais.

No Brasil, temos discussões acadêmicas relevantes sobre educação ética e bem-estar animal, porém ainda precisamos avançar muito na pesquisa e avaliação desse tipo de programa. Investir em pesquisas específicas nessa área seria um passo fundamental para desenvolver, avaliar e aprimorar intervenções educativas desse tipo.

Prevenção e políticas públicas

Casos como o do cão Orelha são um convite para reavaliarmos o lugar da educação e das políticas públicas na prevenção da violência contra animais. Nesse sentido, a inclusão sistemática, no contexto educacional, de programas inspirados nas características da Humane Education pode representar um passo importante em direção a mudanças educacionais mais amplas, com foco na prevenção e no desenvolvimento de empatia, cuidado e responsabilidade.

Trata-se de uma abordagem que vai além da punição e reconhece que estamos diante de um fenômeno complexo, que envolve fatores emocionais, sociais e relacionais, e que exige uma ação integrada de diferentes camadas da sociedade.

The Conversation
The Conversation
Foto: The Conversation

Renata Roma não presta consultoria, trabalha, possui ações ou recebe financiamento de qualquer empresa ou organização que poderia se beneficiar com a publicação deste artigo e não revelou nenhum vínculo relevante além de seu cargo acadêmico.

The Conversation Este artigo foi publicado no The Conversation Brasil e reproduzido aqui sob a licença Creative Commons
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