Deputado: eu ia dar soco, tapinha não é coisa de homem
- Flávia Bemfica
- Direto de Porto Alegre
O deputado federal Sérgio Moraes (PTB-RS) disse nesta segunda-feira que a briga que protagonizou com um colega parlamentar no sábado, durante um evento do partido em Porto Alegre, foi uma tentativa desesperada de denunciar o uso que algumas lideranças estaduais estariam fazendo da legenda para benefício particular e de afilhados. O deputado ficou nacionalmente conhecido em 2009, quando declarou que se lixava para a opinião pública.
O desentendimento entre Moraes e o deputado estadual Ronaldo Santini (vinculado ao ex-senador Sérgio Zambiasi) ocorreu no 10º Seminário Estadual de Alinhamento Estratégico do PTB gaúcho, no centro de eventos do Hotel Plaza São Rafael, em Porto Alegre. Ambos estavam na mesa principal, diante de aproximadamente 1 mil correlegionários.
Em determinado momento, enquanto uma outra liderança partidária discursava, os dois deputados chegaram às vias de fato. Moraes investiu contra Santini e em seguida caiu no chão. Quase uma dezena de outros participantes correu para apartar. Ao microfone, o orador tentava minimizar o escândalo. "Calma, pessoal, o momento é de serenidade. Podem deixar que o pessoal da mesa cuida de tudo." Um vídeo com o incidente foi parar no Youtube, mas acabou sendo retirado nesta segunda-feira.
Santini é econômico nos comentários sobre o assunto. Limita-se a dizer que o fato foi "lamentável" e "estragou uma reunião linda". Diz que não revidou e que não quer se estender no assunto porque acredita que ele deverá ser resolvio "internamente". Moraes, por sua vez, soltou o verbo. Confira abaixo os principais trechos da entrevista que ele concedeu ao Terra nesta segunda.
Terra - O senhor deu um tapa no deputado Santini?
Sérgio Moraes -
Não, não dei, as imagens mostram isso claramente. Não pegou nele, porque eu caí para trás. Eu teria dado é um soco e não um tapinha. Tapinha não é coisa de homem. É que eu levantei e, quando ele levantou, eu caí.
Terra - O que aconteceu antes da briga?
Moraes -
Eu fiz um discurso em que disse para os filiados que tem um grupinho que se adona do partido e que os filiados só servem para carregar bandeira. Fui muito aplaudido. O Ronaldo (o deputado Santini) havia me ameaçado antes do encontro, porque sabia que eu ia falar isso. Por intermédio do Marcelo, meu filho (o deputado estadual Marcelo Moraes), ele mandou dizer que eu não podia falar isso no encontro, que não podia abrir. Tipo assim, tentou me dar um cala-boca. Eu respondi para o Marcelo que não tinha conversa, que ia lá e ia falar. E fui. O meu discurso ninguém contestou. Aí, quando eu voltei para a mesa, o Santini, que estava sentado ao meu lado, ficou irado comigo. Ele começou a me cutucar, a me irritar e a me ofender, disse umas coisas que nem posso repetir. Eu disse para ele usar o microfone. Tem um momento em que eu dou o microfone para ele. Aí nós dois levantamos e eu caí.
Terra - Em seu discurso o senhor denunciou o uso do partido para benefícios particulares?
Moraes -
É, é isso. A panelinha está sempre por ali usando o partido para benefício próprio. Eu desafio qualquer um a me mostrar qualquer nomeação feita por mim. Eu nunca indiquei cargos. Só um comandante para a chefia da Casa Militar, que acabou chefiando os Bombeiros, e um gerente do Banrisul (o Banco do Estado do Rio Grande do Sul) de Santa Cruz (Moraes concentra sua votação na cidade de Santa Cruz, da qual já foi prefeito, e onde hoje a prefeita é sua esposa, Kelly). Eu nem lembro o nome dele, foram os empresários que pediram para eu conduzir ele à superintendência do Banrisul. Só que ele acabou em uma superintendência que nem é a de Santa Cruz. Enquanto isso, olha o Lara (o atual secretário estadual do Trabalho e presidente do PTB gaúcho, Luis Augusto Lara), por exemplo. Foi secretário no governo do Rigotto (Germano Rigotto, do PMDB), da Yeda (Yeda Crusius, do PSDB) e agora do Tarso (Tarso Genro, do PT).
Terra - Há muita disputa por cargos?
Moraes -
Há uns dois meses venho brigando dentro do partido. Porque o PTB tem R$ 2 milhões por mês de cargo para nomear, que é aquilo: tem cargo de R$ 15 mil, cargo de R$ 20 mil, e assim vai. E eu nunca consigo saber qual é o critério para as nomeações, porque há um grupo que se apossa disso.Ora, eu sou vice-presidente do PTB no Estado. E se eu que sou o vice-presidente não sei, imagina os filiados. Então fiquei sabendo do seminário e disse que ia lá para dizer isso para os filiados. Foi o que eu fiz.
Terra: O senhor não espera algum desdobramento dentro do partido?
Moraes -
Não estou mexendo com pouca coisa. Sei que o buraco é muito mais embaixo. Eu tive um ato de desespero para clarear o partido porque o PTB se vende. O Eliseu Santos (o ex-secretário de Saúde de Porto Alegre, Eliseu Santos, assassinado em fevereiro de 2010), olha o que aconteceu. O Ministério Público denunciou integrantes do PTB pelo assassinato do Eliseu. Ele sabia de alguma coisa, ia denunciar, e alguém mandou matar. Queima de arquivo. Isso não sou eu que estou dizendo, foi o Ministério Público.