Depoimento de Vorcaro vira disputa entre CPMI e Comissão do Senado
Integrantes da CPMI do INSS e o grupo de trabalho sobre o Banco Master da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado travam uma disputa por protagonismo na retomada dos trabalhos legislativos após o recesso de carnaval.
Isso porque a CPI decidiu antecipar o depoimento de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, antes marcado para a próxima quinta-feira, 26, para a segunda-feira, 23. A CAE, que ouviria o banqueiro de forma inédita na terça-feira, 24, acabou ficando com o segundo lugar.
O presidente da CAE, senador Renan Calheiros, denuncia uma tentativa de esvaziar os trabalhos do seu colegiado. "Sim (a CPI quer esvaziar nossos trabalhos). Mas não vai esvaziar", afirma Renan. Para ele, a relevância dos trabalhos da sua comissão não permitirá que a CPI retire a importância da iniciativa da CAE.
"A CAE atua permanentemente no acompanhamento e fiscalização do Sistema Financeiro Nacional, como um todo, inclusive nas suas fraturas que favorecem fraudes como a do Master. Nosso trabalho fortalece, sem nenhum conflito, qualquer CPI que queira tratar dessas fraudes, punir responsáveis e aprimorar legislação", diz Renan. "E pior é que o ex-presidente do BRB quer depor também."
Em publicação feita no X nesta quarta-feira, 18, o presidente da CPI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), disse que a decisão é para garantir "prioridade absoluta" da CPI.
"Inicialmente previsto para o dia 26, o depoimento foi remarcado para garantir prioridade absoluta aos trabalhos desta Comissão Parlamentar Mista de Inquérito, cujo foco central é a investigação das irregularidades envolvendo empréstimos consignados e os prejuízos causados a viúvas, órfãos e aposentados do INSS", afirmou.
Do lado da CPI, sob condição de reserva, parlamentares da oposição reconhecem que o movimento pode servir para assegurar protagonismo do grupo, mas não veem concorrência direta com os trabalhos da CAE.
O relator da CPI, deputado Alfredo Gaspar, porém, não crê que houve uma antecipação do discurso de Vorcaro com esse intuito. "Na verdade, o depoimento foi adiado anteriormente, não foi uma antecipação. Inicialmente o depoimento seria no dia 5 de fevereiro, depois 19, remarcado para 26 e agora 23", disse.
A oitiva de Vorcaro na CPI inicialmente seria feita no dia 5 de fevereiro, mas foi adiada após pedido da defesa do banqueiro.
Vorcaro é personagem da CPI do INSS após investigações apontarem irregularidades nos créditos consignados feitos pelo Banco Master. Processo administrativo do INSS de novembro de 2025, que analisou a regularidade do acordo de cooperação técnica (ACT) com o Master, mostra que o banco deixou de apresentar mais de 250 mil documentos que comprovassem contratos firmados de crédito consignado.
Dados obtidos pelo Estadão por meio da Lei de Acesso à Informação mostram que o Master tinha apenas um consignado com beneficiários do INSS até novembro de 2022. O ACT foi firmado em 2020.
"O MPF e INSS já apuram possíveis irregularidades na concessão de empréstimos consignados pelo Banco Master, além do desconto de benefícios sem autorização", afirmou o vice-presidente da CPI do INSS, Duarte Jr. (PSB-MA), autor de um dos requerimentos de convocação de Vorcaro.
Como mostrou a Coluna do Estadão, Vorcaro conversou com Renan para agendar uma data para o seu depoimento na CAE e pediu para viajar em voo particular fretado para Brasília. O senador levou essa demanda para o STF e para a Polícia Federal.
O Senado ofereceu à Polícia Legislativa ajuda para complementar a segurança de Vorcaro, que ficará na capital federal entre os dias 23 e 24 para depoimentos na Casa.