'Orixá': franco-brasileiro cria fusão inovadora de sons e canta símbolos das favelas e do candomblé
Criado oficialmente há dez anos pelo franco-brasileiro Adrien de Araújo, o projeto Drama On The Corner (D.O.T.C.) nasceu de uma paixão compartilhada com seu amigo de infância Gérald Portocallis: os dois queriam tocar funk, soul e R&B e fazer "as pessoas dançarem". Depois de uma pausa de anos, o duo lançou recentemente seu segundo EP, "Orixá", que contém cinco faixas originais dançantes e repletas de referências internacionais, revisitadas por uma produção moderna conectada às origens da família paterna de Adrien.
Adrien de Araújo demonstra em "Orixá" como sua herança familiar, composta por raízes indígenas e músicos eruditos, impacta sua produção musical. "Essas influências fazem parte da minha história e da história da minha família. Minhas influências são, por exemplo, Banda Black Rio, Milton Nascimento, Jorge Ben e Emílio Santiago. O Emílio Santiago era um grande amigo do meu pai e meu padrinho musical. Eu queria botar na minha música essas influências do Brasil e misturar com outras influências europeias e africanas. Toda essa história começou com meu avô, meu pai e depois a minha formação musical. Foi um retorno às minhas raízes brasileiras", conta.
Filho do falecido pianista Walter Araújo, que fez carreira na França, Adrien também é neto de um maestro, José da Providência Araújo. Seu avô nasceu em uma aldeia Guajajara, no Maranhão, onde viveu até os 4 anos, antes de ser enviado para um internato, onde aprendeu português e estudou música — saxofone, clarinete, piano, violão — até se tornar maestro.
Apesar do ritmo moderno e da pegada eletrônica, segundo Adrien, sua produção é altamente influenciada pela música erudita. "Para mim, a música clássica foi quase toda a minha vida. Estudei 15 anos no Conservatório de Paris com a pianista francesa Florence Delaage. Toquei muito Chopin e Rachmaninoff, essas influências mais românticas da música clássica. Você pode ouvir isso nas harmonias desse EP", detalha.
Na descrição oficial do duo, as inspirações originais vão da French Touch (Daft Punk, Cassius, Saint-Germain) à House de Detroit (Moodymann, Andrés, Theo Parrish). No entanto, Adrien de Araújo define que o som que produz é uma mistura de toda a carga cultural e familiar dele com a de Gérald Portocallis, que estudou bateria no sul da França: "O Gérald vem mais da House Music e do Jazz. Eu trago a música brasileira, a clássica, a francesa, o Funk e o Soul. O estilo do Drama On The Corner seria um Neo Soul, Jazz Fusion e Afrobeat, além de Samba Funk", explica.
Participações musicais no EP "Orixá"
Adrien de Araújo afirma que, em seu processo de composição, já imaginava as vozes que iriam entrar nas melodias, como no caso da participação da húngara Lilla Molnár: "Fui a Budapeste gravar esta cantora húngara a faixa 'Smooth Lips'. Também trabalhamos com Ladybird, uma das grandes vozes da House Music mundial. E com o cantor K.O.G, que tem dupla nacionalidade da Inglaterra e de Gana".
"Combinar várias culturas, várias inspirações, é música do jeito que tem que ser. Música não é só para pessoas de um país, é para ser ouvida no mundo inteiro", afirma Adrien de Araújo.
Em seu discurso, o músico deixa claro que a sonoridade do Drama On The Corner funciona como uma criação gastronômica: a fusão técnica rigorosa da música erudita em seu preparo, porém com o tempero rítmico brasileiro e africano, resultando em um prato feito para ser apreciado em qualquer lugar do mundo, sem fronteiras.
Das favelas à Europa: música sem fronteiras
Nos estúdios da RFI, Adrien detalha a importância de cantar na língua de sua família paterna, o português, e de homenagear a religiosidade afro-brasileira como forma de unificação cultural em tempos de intolerância. Ele brinca com seu sotaque francês ao cantar em português, mas enfatiza que, apesar de ser "50% francês e 50% brasileiro", há dias em que o sangue brasileiro fala mais alto. "Eu queria cantar em português, como franco-brasileiro. Foi muito importante para mim cantar em português", diz o músico.
O artista morou por um ano no Rio de Janeiro, onde frequentava pagodes e bailes de favela. "Percebi essa mistura de cultura indígena, africana e europeia, particularmente no Rio de Janeiro. Tudo isso me influenciou muito. Os orixás fazem parte da cultura popular do Brasil, como Iemanjá, que reunifica essas três raízes, europeia, africana e indígena, como se dizia antigamente. Hoje em dia, em 2026, é muito importante unificar o mundo através da arte com uma mensagem de paz e alegria", defende.
Novos projetos em 2026
A agenda do Drama On The Corner está cheia de novidades para 2026, porém ainda com espaço para projetos, que incluem o desejo do duo em colaborar com o grupo Os Garotin e de participar de possíveis festivais no Brasil.
Por enquanto, Adrien e Gérald lançarão, em março, o clipe da música "Orixá". Há ainda a previsão de um show no início de maio no New Morning, casa que abraça artistas brasileiros e internacionais em Paris, e do lançamento do vinil do EP "Orixá" também em maio. O trabalho dos músicos também pode ser acompanhado nas redes sociais Instagram e Facebook.