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Deputado que acolheu beagles diz que pesquisa com animais é ultrapassada

Ricardo Tripoli será relator de comissão da Câmara criada para acompanhar as denúncias de maus-tratos envolvendo instituto em SP

22 out 2013
17h07
atualizado às 19h22
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Fiel depositário de dois cães da raça beagle oriundos do Instituto Royal, em São Roque (SP), o deputado federal Ricardo Tripoli (PSDB-SP) defende uma discussão a respeito dos limites éticos ao uso de animais em pesquisas científicas. De acordo com o deputado, os indícios de maus-tratos sofridos pelos cães são suficientes para uma busca por métodos alternativos.

<p>Deputado se tornou responsável por duas cadelas resgatadas até decisão da Justiça</p>
Deputado se tornou responsável por duas cadelas resgatadas até decisão da Justiça
Foto: Facebook / Reprodução

Você sabia? Por que os beagles são usados em pesquisas de medicamentos?

"É algo muito duro de você imaginar que nos tempos de hoje a ciência ainda utilize métodos ultrapassados. (...) A gente discute isso há quase 20 anos, essa questão dos estudos científicos. O mundo já está mudando isso. Não dá para admitir que a ciência que avançou tanto, com células que são elaboradas em laboratório, você imaginar que esses métodos retrógrados e ultrapassados ainda sejam utilizados. E nem sempre de forma correta", afirmou o deputado nesta terça-feira em entrevista ao Terra.

De acordo com o deputado, os ativistas que invadiram o Instituto Royal na madrugada da última sexta-feira apresentaram diversos relatos de maus-tratos sofridos pelos animais, que teriam uma série de distúrbios decorrentes do confinamento. "Você observa que os animais estão obviamente estressados. Um animal confinado, não só num espaço diminuto, mas que tem que ficar numa gaiola por cinco, seis meses, você imagina o trauma que é. Ele sai de lá, vai para o teste, volta para a gaiola", diz Tripoli, que alega haver um "absurdo de irregularidades" cometidas pelo instituto.

Criada no dia 17 de outubro, a página "Adote um animal resgatado do Instituto Royal" já recebeu quase 380 mil curtidas no Facebook até esta terça-feira. Na página, ativistas ligados a ONGs em defesa dos animais relatam que muitos dos cães resgatados apresentavam mutilações nas línguas e em suas orelhas, além de terem um comportamento arredio.

Apesar de não terem sinais evidentes de lesões, as cadelas que estão sob os cuidados do deputado também demonstram transtornos. "Os que estão comigo, eu imagino pelo que me disse o próprio veterinário, eram animais de procriação. As duas cadelas eram matrizes. O que você percebe é que elas não têm ainda muita mobilidade. Como ficaram confinadas muito tempo, quando você coloca elas num espaço aberto, elas andam e voltam pro mesmo lugar. Você tem que ir devagarzinho acostumando elas. (...) Como eram de procriação, elas não eram de experimento, elas forneciam animaizinhos para experimento", relata.

Autor do Projeto de Lei 2833/11, que pune maus-tratos a cães e gatos, Tripoli é membro da Comissão do Meio Ambiente da Câmara e deve ser relator na comissão especial criada nesta terça-feira pela casa para acompanhar a situação no Instituto Royal. "Eu estou como membro da comissão externa da Câmara, que vai fazer uma aferição agora de tudo que aconteceu. A ideia é ouvir os grupos e também cientistas. Vamos convidar os (cientistas) de lá também, e outros que têm uma visão mais ampla, de procurar algo alternativo, de fazer pesquisa sem o uso de animais", prevê o deputado. "A comissão foi criada hoje. Ela começa amanhã a discutir, tem que ter o roteiro de trabalho. O que está acertado é que o deputado Protógenes (Queiroz) é o presidente e eu serei o relator. Agora que nós vamos conversar o roteiro de trabalho. Com certeza uma visita ao instituto deve ocorrer."

Na opinião de Tripoli, a grande repercussão do caso do Instituto Royal será de grande valor para a discussão de novas práticas científicas. "Há necessidade que essa discussão seja ampla, seja aberta, seja irrestrita e leal. (O caso Royal) vai ajudar muito. Eu acho que as entidades, bem ou mal, recolocaram o assunto na pauta. O Brasil inteiro está revoltado, você não tem ideia do que eu recebo de e-mails", conta o deputado.

Ativistas receosos
No Facebook, ativistas ligados à ação no Instituto Royal se mostram receosos com a possibilidade de serem denunciados pelo furto dos cães. Nas discussões da página dedicada ao assunto, circulam mensagens que alertam para a possibilidade de os animais terem chips de identificação, que poderiam ser rastreados. "Os beagles estão com chip de identificação e há ordem judicial para pegá-los em clínicas veterinárias e devolver ao Instituto Royal. ATENÇÃO: chamem APENAS veterinários de confiança e, se possível, um que vá até o seu local. Tomem cuidado com clínicas veterinárias e lojas PET", alerta uma das mensagens.

Os ativistas que todos os animais sejam ONGs antes de serem levados à adoção, já que precisariam passar por quarentena. "Caso você saiba de alguém que esteja com algum beagle resgatado - que esta pessoa tenha adotado, conseguido de alguma maneira - por favor, entregue-o a alguma ONG (podemos indicar), ou a algum protetor sério que esteja acompanhando o caso. É de extrema importância que esses cães passem por exames, fiquem em quarentena. Eles não podem ser vacinados ainda (não sabemos o que pode acarretar) e não podem tomar anestesia", diz texto publicado na página.

O deputado Ricardo Tripoli diz manter um diálogo frequente com alguns dos ativistas, que, segundo ele, devem ser protegidos. "Eles têm que tomar cuidado, porque são todos protetores, são pessoas de paz. Eles só visam o bem-estar dos animais. Eu, como deputado da área de meio ambiente e da proteção animal, trabalho para a defesa dos animais e também dos protetores. A luta deles é uma luta legítima", conclui.

O Terra entrou em contato com o Instituto Royal, mas até as 17h45 não havia recebido um posicionamento da empresa sobre o assunto.

Ativistas retiram animais de instituto
Ativistas invadiram, por volta das 2h de 18 de outubro de 2013, a sede do Instituto Royal, em São Roque, no interior de São Paulo, para o resgate de cães da raça beagle que seriam usados em pesquisas científicas. Mais tarde, coelhos também foram retirados do local. Cerca de 150 pessoas participaram da invasão. Ao todo, 178 cães foram retirados do instituto. O centro de pesquisas era alvo de frequentes protestos de organizações pelos direitos dos animais.

Os beagles são usados por ter menos variações genéticas, o que torna os resultados dos testes mais exatos. Apesar de os ativistas relatarem diversas irregularidades, perícia feita no Instituto Royal não constatou indícios de maus-tratos aos animais. No dia seguinte à invasão, um novo protesto terminou em confronto entre policiais militares e manifestantes e provocou a interdição da rodovia Raposo Tavares. Quatro pessoas foram detidas.

Em nota, o Instituto Royal refutou as alegações dos manifestantes. "O instituto não maltrata e nunca maltratou animais, razão pela qual nega veementemente as infundadas e levianas acusações de maltrato a seus cães. Sobre esse ponto, o instituto lamenta que alguns de seus cães, furtados na madrugada da última sexta-feira, estejam sendo abandonados", diz a nota, acrescentando que todas as atividades desenvolvidas no local são acompanhadas por órgãos de fiscalização.

Segundo o instituto, a invasão de sua sede constituiu um "ato de grave violência, com sérios prejuízos para a sociedade brasileira, pois dificulta o desenvolvimento de pesquisa científica no ramo da saúde". A invasão ao local, de acordo com a posição do Royal, provocou a perda de pesquisas e de um patrimônio genético que levou mais de dez anos para ser reunido. O instituto também informou que os animais levados durante a invasão, quando recuperados, serão recolhidos e receberão o tratamento veterinário adequado, podendo ser colocados para adoção.

Marcelo Morales, coordenador do Conselho Nacional de Controle de Experimentação Animal (Concea) - órgão responsável pela fiscalização do setor -, afirmou que nenhum animal retirado do laboratório sofria maus-tratos ou tinha mutilações. De acordo com o médico, o instituto era acompanhado pelo Concea, ligado aos ministérios da Ciência, Tecnologia e Inovação e da Saúde, nos testes para medicamentos coadjuvantes na cura do câncer, além de antibióticos e fitoterápicos da flora brasileira, feitos a partir de moléculas descobertas por brasileiros. "Milhões de reais foram jogados no lixo e anos de pesquisas para o benefício dos brasileiros e dos animais também foram perdidos", disse o pesquisador.

Fonte: Terra
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