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'Salve' de facção expõe racha que causou massacre em Manaus

Texto explica motivo de ataques em cadeias amazonenses; hipótese é de racha no comando de grupo criminoso

31 mai 2019
03h10
atualizado às 08h09
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A principal hipótese para explicar a nova onda de mortes que atingiu as cadeias de Manaus nesta semana é um racha entre lideranças da facção Família do Norte (FDN), a mais poderosa da região Norte do País. O grupo, que já havia ganhado protagonismo no início de 2017 ao executar 56 rivais com crueldade no interior do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), agora se vê dividido internamente entre dois expoentes que fundaram a organização criminosa, mas que planejam rumos distintos para o futuro dela.

Parte dessa hipótese que é investigada pela polícia amazonense surgiu a partir de informações fornecidas pelos próprios criminosos em mensagens enviadas aos "filiados", visando a esclarecer as razões da nova onda de mortes, que no domingo e na segunda-feira deixou 55 mortos em quatro cadeias da capital.

O chamado "salve geral" explica em 1,6 mil palavras as razões para a divisão e como um dos grupos prepara a continuidade das atividades criminosas no Estado.

Policiais caminham em frente à entrada principal do Compaj em Manaus
Policiais caminham em frente à entrada principal do Compaj em Manaus
Foto: Ueslei Marcelino / Reuters

O salve data da segunda-feira, 27 de maio, segundo dia de ataques nas cadeias. "Esse salve é para expor a todos a maior conspiração de todos os tempos, toda sujeira que vamos apresentar aqui foi orquestrada pelo JB e passada através da mulher dele, a Sheila, para seus subordinados", diz a mensagem. JB é João Pinto Carioca, o João Branco, um dos expoentes da FDN, atualmente detido em uma unidade prisional federal, e a mulher citada é Sheila Maria Faustino Peres.

O texto é escrito por quem supostamente João Branco pretendia atacar: aliados de José Roberto Fernandes, o Zé Roberto da Compensa, outro fundador da facção, também detido em presídio federal e chamado pelo Ministério Público Estadual de "capo de tutti capi" (chefe de todos os chefes).

O massacre de 2017, segundo a investigação da polícia e do MP, mostrou que Branco, Zé Roberto e um terceiro cabeça, Gelson Lima Carnaúba, o Mano G, articularam as ordens para a eliminação de integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC), facção que disputava espaço no comércio de drogas na capital amazonense e no Estado como um todo.

Depois da eliminação dos rivais associados à facção paulista, a FDN passou a enfrentar divergências internas. "Tudo começou há muito tempo atrás quando o JB decidiu que queria ser o dono de tudo. Ele sabia que para ter sucesso teria que tirar nosso número 1 de cena", continua o salve, referindo-se a Zé Roberto como o "número 1". Assim, os investigadores têm delineado que João Branco contrapôs sua força à de Zé Roberto e pretendia criar uma dissidência maior que a facção original, essa seria denominada FDN Pura.

A informação também consta de um relatório de inteligência da Secretaria da Administração Penitenciária (Seap) do Amazonas. No dia 22 de maio, o documento mostrou que o sistema poderia sofrer uma nova onda de instabilidades diante da tentativa de o grupo de João Branco tomar o poder.

Isso se deveria principalmente por uma suspeita de que o grupo de Zé Roberto estava perdendo espaço na venda de drogas regionalmente, assim como estava perdendo força no interior do sistema prisional, dando brechas a outros criminosos, segundo descreveu o documento da Seap.

A inteligência mostrou, segundo o secretário da Administração Penitenciária, Marcus Vinícius Almeida, que o grupo dissidente pretendia atacar na madrugada da segunda para terça-feira desta semana e o principal foco seria o Centro de Detenção Provisória Masculino (CDPM), que funciona em uma área anexa ao Compaj. Mas o plano foi descoberto, e quem seria vítima tratou de agir primeiro.

"O plano era matar de forma covarde, à base de trairagem, os principais cabeças da FDN-AM", relata o salve do grupo de Zé Roberto. "Porém o plano não saiu como JB desejava e graças a Deus eles não conseguiram dar sequência na conspiração porque nós descobrimos", acrescenta.

"Poucas pessoas na organização poderiam desafiar o Zé Roberto. João Branco é uma delas", diz o procurador da República Edmilson Barreiros, que participou da Operação La Muralla, a primeira a investigar a organização da FDN em 2015. "Ele tem uma carreira longeva na vida criminal, tinha diversas condenações. Como fazia parte da cúpula da organização, antes da briga, ele sempre foi ouvido nas decisões."

Para o procurador, a coesão entre as lideranças se tornou cada vez mais difícil à medida em que o comércio de drogas do grupo se expandiu. "É um grupo muito forte sob (o ponto de vista do) poderio bélico, ele se capitalizou financeiramente durante um certo tempo."

Os investigadores acreditam, então, que o grupo de Zé Roberto tenha deflagrado o ataque e assassinado 15 presos rivais no Compaj. No dia seguinte, morreram 5 no CDPM e outros 25 no Instituto Penal Antônio Trindade, próximo a essas duas cadeias. Seria uma onda de ataques e vinganças. "Entendam que a nossa intenção era simplesmente não entrar em mais um racha na cidade e começar outra guerra. Queremos deixar claro que a FDN continua firme e forte", acrescenta a mensagem distribuída aos "filiados".

"O João Branco já vinha dando sinais de querer tomar determinadas áreas que eram do Zé Roberto. Nós tivemos em 2018 um tiroteio com seis mortos na Compensa (bairro de Manaus), que foi obra dele contra o Zé Roberto. Isso já vinha se arrastando há algum tempo. Por isso, a gente mantinha guarda alta o tempo todo para eles. Se vacilasse, eles fariam isso aí. E fizeram", diz o coronel Amadeu Soares, ex-secretário de Segurança do Amazonas, explicando que ao longo de 2017 e 2018, período em que esteve à frente da pasta, manteve uma rotina de operações e inspeções nas cadeias para tentar evitar novos levantes.

A disputa por poder entre grupos criminosos é permanente, segundo especialistas. No caso da FDN, isso é agravado pelo domínio fragmentado dos líderes da facção sobre os bairros, e um conflito em Manaus com o Comando Vermelho, grupo de quem outrora foi aliado.

"O que aconteceu no domingo foi mais uma etapa desse cenário de conflitos, que já estava bastante agravado com a situação entre o CV e a FDN", diz o pesquisador do Laboratório de Estudos Criminais da Universidade Federal do Ceará, Ítalo Lima.

"Apesar de ser bastante forte a ideia de irmandade entre criminosos, a traição também exerce papel importante no próprio movimento desses grupos", conta. "Economicamente, pareceria mais viável manter o 'estado de coisas' mas, pelo próprio movimento criminal, é muito difícil."

Vida de crime

As alianças frágeis no comando da FDN remetem à própria forma como o grupo se consolidou como a terceira maior facção criminosa do País. Antes de se reunirem em "família", os integrantes da cúpula já tinham extensas carreiras no narcotráfico, haviam consolidado seus próprios mercados de droga ao longo de décadas nos bairros de Manaus e no interior, e eram considerados os maiores criminosos do Amazonas.

Zé Roberto da Compensa, por exemplo, diz que está no crime desde os 12 anos de idade, segundo mensagens de sua própria autoria interceptadas pela PF. Em 2015, a inteligência da PF o identificava como "o mais conhecido e respeitado" criminoso no Amazonas, entre aqueles que formavam o "conselho" da FDN.

Na mesma época, João Branco era considerado "o criminoso mais procurado do Estado do Amazonas", por ser o principal suspeito de assassinar um delegado da Polícia Civil, motivo pelo qual foi preso. A FDN nasceu quando eles e outros traficantes com projeção semelhante se conheceram nas cadeias.

A polícia amazonense investiga os crimes cometidos no interior das cadeias. Nove suspeitos de ligação com as ordens para os assassinatos foram transferidos nesta semana para presídios federais; outros 20 podem ser enviados ainda nesta semana, segundo a administração estadual. As cadeias estão sendo reforçadas com agentes da Força-tarefa de Intervenção Penitenciária, do Ministério da Justiça, que autorizou também a prorrogação da permanência dos agentes da Força Nacional no Estado. A polícia realiza operações desde a terça-feira visando a prevenir eventuais confrontos entre partes rivais nas ruas de Manaus.

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Estadão
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