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Detentos mataram ex-aliados no novo massacre em Manaus

Três vítimas dos ataques que voltaram a ocorrer na capital amazonense chegaram a ser denunciadas pelo envolvimento no morticínio de 2017

30 mai 2019
01h07
atualizado às 08h46
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MANAUS - Os ataques em cadeias de Manaus desde o domingo, em que morreram 55 presos, colocaram em lados opostos presos antes considerados aliados. Três detentos agora assassinados eram acusados de, no massacre de 2017, terem matado com crueldade colegas presidiários do Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj). Nessa unidade, houve 56 mortes em 1º de janeiro de 2017. Nesta semana, mais 19 óbitos de presos foram registrados no local.

Por outro lado, entre os presos apontados como mandantes dos ataques mais recentes nas cadeias, ao menos dois já apareciam com papel de protagonistas no massacre de 2017. Isso mostra que eles continuam a desempenhar cargo de influência no Compaj e na Família do Norte (FDN), maior facção da Região Norte do País, que controla a rota de escoamento de cocaína pelo Rio Solimões.

Na chacina de 2017, os presos haviam atacado rivais do Primeiro Comando Capital (PCC), grupo com o qual disputavam o comando do tráfico de drogas na região. Desta vez, eles miraram antigos aliados da FDN, que está rachada.

Fachada do complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) em Manaus (AM)
Fachada do complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj) em Manaus (AM)
Foto: Edmar Barros / Futura Press

Nesta semana, o governo transferiu nove presos para unidades federais com intuito de isolá-los e de interromper a onda de assassinatos nas cadeias. Entre eles está Janes do Nascimento Cruz, conhecido como Caroço. O nome dele já aparecia em denúncia do Ministério Público apresentada à Justiça no final de 2017 como um dos líderes da rebelião daquele ano - o processo que denunciou 213 presos pelo massacre que aconteceu há dois anos ainda tramita na Justiça e está na fase de interrogatório dos réus.

Aponta o documento da época que Cruz foi indicado por 25 testemunhas como um dos líderes gerais da FDN dentro do Compaj, maior unidade prisional do Estado. "(Ele) portava armas de fogo (curta e longa) e trajava colete balístico durante o evento. Foi visto atirando contra o policial que fazia a guarda da portaria e participando do grupo de internos que invadiu a inclusão. Teve ação decisiva nas mortes e esquartejamentos ocorridos na quadra do Pavilhão 3", descreve o documento do MP.

"O que aconteceu depois de 2017 foi uma relativa calmaria. O grupo criminoso dominante tinha usado uma ação cruel e exibicionista para mostrar quem mandava ali. Com isso, houve o recuo de grupos rivais, que ficaram amedrontados", explica o promotor Edinaldo Medeiros, responsável por apresentar a denúncia contra 213 presos pelo massacre daquele ano.

Segundo o governo do Amazonas, Janes do Nascimento Cruz voltou a ter papel decisivo nos crimes cometidos no Compaj nesta semana. Lá morreu Naelson Picanço de Oliveira, conhecido como "Pulguinha". Diz o Ministério Público, com base no relato de testemunhas que realizaram reconhecimento em imagens do local, que, em 2017, Naelson foi responsável por esquartejar vários corpos, "inclusive arrancou o olho de uma vítima e passou a brincar com ele". A brutalidade ocorreu no pavilhão denominado Seguro PCC, para onde eram levados presidiários com afinidade com a facção buscando proteção de retaliação que poderia ser cometida por integrantes da FDN.

Quem também foi transferido nesta semana para um presídio federal foi Rivelino de Melo Muller, o Loirão. A investigação aponta que em 2017 ele exerceu posição de liderança durante a rebelião, estando hierarquicamente abaixo de Janes, o Caroço. "Rivelino matou vários internos e ordenou a morte de vários outros."

Ainda detido no Compaj em 2019, Muller é apontado como um dos mandantes do ataque que vitimou nesta semana Rodrigo Oliveira Pimentel, o Pipoca. Pimentel dessa vez ficou do lado dos derrotados. Em 2017, a investigação apontou que ele tinha "atirado nos internos" e matado alguns deles. Quem também saiu de executor para alvo da FDN foi Ivanilson Calheiro Amorim. Ele teria iniciado o incêndio no Seguro PCC há dois anos, onde vários tiveram os corpos carbonizados.

O promotor Edinaldo explica que, na investigação de 2017, testemunhas já apontavam o Compaj como a "célula mater" do crime organizado no Estado do Amazonas. "'Quem controla o Compaj controla o crime e controla a cidade', me diziam as testemunhas. Antes, tínhamos duas facções disputando esse espaço. O que mudou para agora é que a disputa acontece entre dois grupos de uma mesma facção", acrescentou o promotor. "Eles sabem que o comando é algo que está sempre em xeque."

Ele não atua mais no processo que julga os detentos pelo massacre de 2017. Pediu afastamento da promotoria depois que uma lista foi divulgada pela facção com nomes de alvos preferenciais que deveriam ser executados. No primeiro lugar da lista estava o nome de Edinaldo. "O afastamento foi uma decisão de ordem pessoal. Já estava há dez anos naquele cargo", diz ele que agora atua em outra promotoria criminal.

11 presos provisórios mortos

A Defensoria Pública do Amazonas informou nesta quarta-feira, 29, que 11 das 55 vítimas dos ataques desta semana nas cadeias de Manaus eram considerados provisórios, ou seja, ainda não tinham condenação definitiva pelo crime de que eram acusados e poderiam, ao final do processo, ser inocentados ou condenados.

"O senso comum acha que, para os presos, a morte é uma consequência natural. Mas não, não é para eles estarem morrendo. É um fato inaceitável sob todos os ângulos", disse ao Estado o defensor-geral Rafael Barbosa.

O levantamento apontou que outros 16 já tinham condenação definitiva, enquanto os 28 restantes já tinham cumprido algum tipo de medida e aguardavam a apreciação de um segundo processo, indicando que eram reincidentes. Entre os crimes atribuídos anteriormente às vítimas, o mais comum era tráfico de drogas, seguido por homicídio.

Barbosa disse que aguardará o posicionamento do governo do Estado sobre as indenizações devidas aos parentes das vítimas antes de eventualmente entrar na Justiça com tal pedido. Em 2017, o governo havia anunciado que pagaria um valor e deu início a negociações com a Defensoria. A destituição do governo, a realização de eleições complementares e a posse de um novo governador atrasou todo o processo.

Agora, o governador Wilson Lima (PSC) já antecipou que o Estado não tem dinheiro para pagar os parentes, indicando que não facilitará as indenizações. "Vamos aguardar para ver a solução que será tomada", disse o defensor.

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Estadão
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