Burocracia da canonização barra aspirantes a santos
- Simone Sartori
- Direto de São Paulo
A beatificação de irmã Dulce pode ser considerada rápida se comparada a outros aspirantes. Levou cerca de 10 anos. O padre Luís Simões, juiz do Tribunal Eclesiástico da Bahia e professor de Direito Canônico na Universidade Católica de Salvador (UCSal), critica a pesada burocracia da canonização, que amarra o processo por décadas.
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"A beatificação de irmã Dulce foi rápida porque a trajetória dela suscita uma dinâmica mais rápida. Porém, em outros casos, temos uma burocracia muito grande, é muito demorado e rigoroso o processo. Acredito que deveria ser mais simples, porque ser santo significa ser aquele que foi fiel ao projeto de Deus e viveu com seriedade, com amor e caridade", afirma Simões, que garante ser possível atingir a santidade. "Ser santo não implica perfeição, e o apelo dos santos não é para fazer idolatria. É uma questão pedagógica, para se estimular a viver um projeto de Deus", sustenta Simões.
O padre Jesus Hortal, doutor em Direito Canônico e ex-reitor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), acredita que a dificuldade em se declarar santos brasileiros está relacionada à desorganização da Igreja em atender às exigências do Vaticano. "Tem muitas pessoas por aí que foram santas, mas não foram (oficialmente) declarados santos. Do ponto de vista de organização, a Igreja Católica no Brasil sempre foi um pouco fraca. Com isso, essa parte burocrática dificulta um pouco", diz Hortal.
A irmã Célia Cadorin, postuladora dos dois santos brasileiros, acredita que o Brasil demorou para ter santos por inexperiência no cumprimento das exigências do Vaticano. Ela defende as rigorosas etapas do processo e afirma que as regras do Vaticano são necessárias para evitar contestação. "Quando a causa é bem feita, quando tudo apurado e feito de acordo com as exigências, a conclusão é rápida. A parte mais difícil é a médica porque o milagre precisa ser provado sem nenhuma dúvida", afirma a religiosa.
Célia viveu 23 anos em Roma trabalhando como postuladora da causa da Madre Paulina e, na sequência, do Frei Galvão. Os primeiros santos brasileiros foram canonizados em um intervalo de cinco anos (Madre Paulina, em 2002, e Frei Galvão, em 2007). "O postulador tem que viver em Roma para responder dúvidas e correr atrás do que for preciso, a pedido da Congregação dos Santos. Às vezes, é preciso voltar ao Brasil para acompanhar o trabalho dos vice-postuladores. Atravessei o Atlântico 60 vezes nesse período", conta.