Bem-vindos ao "Homogenoceno": como os humanos estão tornando a vida selvagem perigosamente igual
A homogeneidade é apenas uma faceta das mudanças provocadas pelos seres humanos na tapeçaria da vida da Terra.
A era dos humanos é cada vez mais uma era de uniformidade. Em todo o planeta, plantas e animais diversificados estão desaparecendo, substituídos por espécies que têm a sorte de prosperar ao lado das pessoas e viajar facilmente conosco. Alguns cientistas já cunharam até uma palavra para essa reorganização da vida: "Homogenoceno".
As evidências disso podem ser encontradas nos museus do mundo. Seus depósitos estão cheios de animais que já não mais caminham entre nós, preservados apenas em frascos com álcool: cobras enroladas, peixes inchados, sapos, pássaros. Cada espécie extinta marca a remoção de um caminho evolutivo específico de um lugar específico — e essas ausências estão sendo cada vez mais preenchidas repetidamente pelas mesmas espécies mais resistentes e adaptáveis.
Uma dessas ausências é representada por um pequeno pássaro mantido em um frasco de vidro no Museu de História Natural de Londres: o ralinho-de-asa-barrada-de-Fiji, não visto na natureza desde a década de 1970. Ele parece estar dormindo, com os olhos fechados, as asas dobradas ao longo do dorso e o bico apoiado no vidro.
Um pássaro que não voa, o ralinho era particularmente vulnerável a predadores introduzidos pelos humanos, incluindo mangustos trazidos para as ilhas de Fiji no século XIX. Seu desaparecimento foi parte de um padrão mais amplo no qual espécies insulares estão sumindo e um conjunto mais restrito de animais globalmente bem-sucedidos prospera em seu lugar.
É um fenômeno que foi chamado de Homogenoceno antes mesmo de um termo semelhante que ganhou mais popularidade, o Antropoceno, ter sido cunhado em 2000. Se o Antropoceno descreve um planeta transformado pelos seres humanos, o Homogenoceno é uma consequência ecológica: menos lugares com vida própria e específica.
Isso vai muito além de aves e mamíferos carismáticos. Peixes de água doce, por exemplo, estão se tornando mais "iguais" à medida que as barreiras naturais que antes mantinham as populações separadas - cachoeiras, bacias hidrográficas, limites de temperatura - são efetivamente obscurecidas ou apagadas pela atividade humana. Pense nas carpas comuns deliberadamente criadas em lagos para pescadores ou nos bagres soltos de aquários domésticos que agora prosperam em rios a milhares de quilômetros de seu habitat nativo.
Enquanto isso, milhares de espécies de moluscos desapareceram nos últimos 500 anos, com caracóis que vivem em ilhas também sendo severamente afetados: muitos são simplesmente comidos por caracóis predadores não nativos. Alguns caracóis invasores tornaram-se altamente bem-sucedidos e amplamente distribuídos, como o caracol gigante africano, que agora é encontrado desde as ilhas havaianas até as Américas, ou os caracóis-maçã-dourados sul-americanos, que se espalharam pelo leste e sudeste da Ásia desde sua introdução na década de 1980.
A homogeneidade é apenas uma faceta das mudanças provocadas pelos seres humanos na tapeçaria da vida da Terra, um processo que começou na última era glacial, quando a caça foi provavelmente a chave para o desaparecimento do mamute, da preguiça gigante e de outros grandes mamíferos. E continuou ao longo de cerca de 11.700 anos da recente época do Holoceno — o período após a última era glacial —, à medida que florestas foram derrubadas e savanas desmatadas para a agricultura e o crescimento de fazendas e cidades.
Nas últimas sete décadas, as mudanças na vida na Terra se intensificaram dramaticamente. Esse é o foco de uma importante nova publicação da Royal Society of London: A Biosfera no Antropoceno.
O Antropoceno chegou ao oceano
A vida nos oceanos tinha sofrido relativamente poucas mudanças entre a última era glacial e a história recente, mesmo com os seres humanos afetando cada vez mais a vida na Terra. Mas isso mudou nas últimas décadas: uma das características do Antropoceno é a rápida extensão dos impactos dos seres humanos pelos oceanos.
Isso se deve, em parte, à pura e simples superexploração, já que a tecnologia humana após a Segunda Guerra Mundial permitiu uma pesca de arrasto mais eficiente e profunda, e os estoques de peixes ficaram seriamente esgotados.
O peixe-leão do Pacífico foi introduzido no Caribe, onde está devorando peixes nativos que não o reconhecem como predador.Drew McArthur / shutterstockEm parte, isso também se deve aos efeitos crescentes do aquecimento global causado pela queima de combustíveis fósseis e à redução dos níveis de oxigênio que se espalham pelos oceanos. O efeito mais visível disso agora é a devastação dos recifes de corais.
Fora da vista, muitos animais estão sendo deslocados para o norte e para o sul, para fora dos trópicos, a fim de escapar do calor; essas condições também estão afetando a desova dos peixes, criando "gargalos" onde o desenvolvimento do ciclo de vida é limitado pelo aumento do calor ou pela falta de oxigênio. Os impactos estão chegando às profundezas dos oceanos, onde propostas de mineração em águas profundas ameaçam danificar uma vida marinha que ainda é muito pouco conhecida pela ciência.
E, assim como em terra e nos rios, essas mudanças não estão apenas reduzindo a vida nos oceanos — elas estão redistribuindo espécies e obscurecendo fronteiras biológicas de longa data.
Biodiversidade local, uniformidade global
Nem todas as mudanças na vida causadas pelos seres humanos são calamitosas. Em alguns lugares, espécies não nativas que chegaram se integraram perfeitamente aos ambientes existentes, na verdade aumentando a biodiversidade local.
Em outros contextos, tanto históricos quanto contemporâneos, os seres humanos têm sido decisivos na promoção da vida selvagem, aumentando a diversidade de animais e plantas nos ecossistemas ao cortar ou queimar a vegetação dominante e, assim, permitir que uma maior variedade de animais e plantas floresça.
Mas há oportunidades para ajudar a vida selvagem, por exemplo, mudando os padrões da agricultura para usar menos terra para cultivar mais alimentos. Com essa liberação de espaço para a natureza, junto a mudanças na agricultura e na pesca que protejam ativamente a biodiversidade, ainda há uma chance de evitarmos as piores previsões de um colapso futuro da biodiversidade.
Isso, no entanto, não é de forma alguma uma certeza. Evitar mais fileiras de cadáveres conservados em frascos de museu exigirá um esforço conjunto para proteger a natureza, que deve ter como objetivo ajudar as futuras gerações de seres humanos a viver em um mundo biodiverso.
Os autores não prestam consultoria, trabalham, possuem ações ou recebem financiamento de qualquer empresa ou organização que se beneficiaria deste artigo e não revelaram qualquer vínculo relevante além de seus cargos acadêmicos.