Alice Ferraz: Mais amor, por favor
Fim de ano e a sensação de urgência é tema recorrente para qualquer cronista. Vivendo dezembro de 2022 em um mundo de conexões humanas imediatas através das redes sociais, a sensação de "agora ou nunca" foi amplificada pela infodemia, enxurrada de informações instantâneas que recebemos a cada minuto. Talvez essa seja a causa da nítida sensação que temos de resolver todos os nossos problemas antes de 31 de dezembro.
Sem opção e surfando como posso a onda para não me afogar, tenho sido levada a almoços, jantares e festas em que falamos, falamos e falamos - e não ouvimos nada a não ser (talvez) o barulho das nossas próprias vozes. Na hora em que estou fisicamente presente nesses encontros me pego ouvindo, mas não escutando. Depois de alguns dias uma frase ou outra aterrissa e consigo entender a dimensão do que foi dito assim, causalmente.
"Em 2023, queria mais sexo com meu marido", disse uma linda mulher na faixa dos 50 anos, vivendo um longevo casamento, quando falávamos sobre as expectativas para o próximo ano, a que ela recebeu a resposta curta e grossa: "Se quer mais sexo, me seduza, faça alguma coisa". Uma mulher interessante, de aparência bem cuidada, que pareceu ter dito isso na intenção de pedir ajuda, que queria ser ouvida e talvez tenha acreditado que soltando algo assim de modo eventual pudesse se agarrar a uma solução.
Escutar isso de um companheiro ao nos mostrarmos vulneráveis nos coloca em uma posição solitária e demorei a entender a dor e o pedido de socorro. Me coloquei em sua posição e imaginei se fosse o contrário, se o marido tivesse feito esse pedido abertamente como ela fez, o que aconteceria? Ela certamente iria examinar suas doses hormonais, buscaria terapia, se sentiria culpada talvez? Mas ele deu de ombros. A minha resposta vem algumas semanas depois, como aquele personagem do inesquecível Jô Soares que, quando respondia à pergunta, seu interlocutor já tinha ido embora.
Se o seu marido não entende você querer mais sexo com ele como um sinal de seu amor, se ele não reconhece seu visível cuidado com esse aspecto do seu casamento como uma forma de sedução, se ele coloca toda a responsabilidade nas suas mãos e acha normal falar assim com você, minha amiga, talvez esteja na hora de rever se ele é o parceiro certo para esse momento de vida. "O amor só dá certo quando ambos estão certos de que seu desejo está resguardado pelo outro, que existe respeito e carinho a essa vulnerabilidade de desejar o outro e nesse momento ter seu desejo retribuído", dizia o filósofo e terapeuta alemão Bert Hellinger.