Mulheres e neurodivergência: por que o diagnóstico ainda é mais difícil para elas?
Estigmas sociais atrelados ao machismo dificultam o diagnóstico de mulheres neurodiversas; especialistas explicam
A escritora e ativista carioca Alice Casimiro, 24, sempre foi de falar e interagir pouco. A ansiedade sempre caminhou ao seu lado, assim como se comunicar com voz baixa e não conseguir fazer contato visual, além da coordenação motora ser dificultosa. Apesar de trabalhar com as palavras, ler livros sempre foi absurdamente difícil, assim como ter uma rotina muito movimentada. Apesar de todos esses fatores, Alice só descobriu que era autista aos 20 anos. O diagnóstico do transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH) só veio aos 22. "É mais difícil identificar neurodivergências em mulheres por causa das expectativas que a sociedade tem sobre nós, que são diferentes, além da cobrança maior de nos comportarmos de certas formas. Os estudos também costumavam ser feitos muito mais em homens, o que deixava as manifestações em mulheres de fora das pesquisas", acredita Alice.
Dona de um perfil com quase 30 mil seguidores no Instagram, Alice encontrou nas redes sociais uma forma de se conectar com outras pessoas que compartilham da mesma realidade que ela. Criada em 2019, a página reúne diversas reflexões sobre o tema, que também se estendem no seu blog, 'A Menina Neurodiversa'. Por conta das dificuldades para se comunicar intimamente pessoalmente, a escritora viu na internet uma possibilidade de expandir diálogos com mais facilidade. Seus relatos em primeira pessoa auxiliam milhares de pessoas a identificar, reconhecer e buscar acompanhamento especializado. "Vemos pouca representatividade na mídia, nas pesquisas, eventos e espaços no geral.O diagnóstico pode se tornar mais fácil em minorias quando pararmos de associar certos diagnósticos a meninos, brancos, hétero e crianças", analisa.
Ao contrário do que os estigmas sociais endossam, neurodiversidades como as de Aline não são doenças, tampouco precisam de uma cura. Quem explica é Alessandra Vieira, psicóloga, especialista em Neuropsicologia e Reabilitação e Saúde Mental, psicopatologia e atenção psicossocial.
"A neurodiversidade se tornou um conceito que defende que condições neurológicas atípicas ou neurodivergentes são uma manifestação da diferença humana, e não uma doença que precisa ser curada, como muitos acreditam. O termo foi usado pela primeira vez por uma socióloga australiana que tinha Síndrome de Asperger, Judy Singer, em 1998, na sua tese de doutorado na Universidade de Tecnologia de Sidney. A popularização do termo fora do meio acadêmico veio um ano após Judy publicar um capítulo "Por que você não pode ser normal pela primeira vez em sua vida? De um 'problema sem nome' a uma nova categoria de deficiência" para o livro “Disability Discourse", Discurso da Deficiência, em português", explica a especialista.
De acordo com o programa Neurodiversidade no Trabalho, da Universidade Stanford, entre 15% e 20% da população mundial é considerada neurodiversa. Durante a década de 1990, houve um movimento que conscientizou sobre a neurodiversidade e abraçou a inclusão de todas as pessoas com possível neurodivergência. Atualmente, a neurodiversidade é vista como um movimento de justiça social e se popularizou ainda mais, principalmente através da internet, que soma perfis que funcionam como verdadeiros grupos de apoio. Pesquisa e educação são cada vez mais importantes na forma com que certas deficiências e condições neurológicas são vistas.
As manifestações de neurodiversidade mais comuns são o Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, Transtornos do Desenvolvimento Intelectual (DI), Transtornos Específicos da Aprendizagem e Transtornos da Comunicação. Do ponto de vista da neurodiversidade, o Autismo e o TDAH não são considerados transtornos. Porém, os principais manuais médicos (DSM V e CID – Código Internacional de Doenças) classificam essas manifestações de neurodiversidade como transtornos de neurodesenvolvimento.
"Os maiores estigmas, mitos e preconceitos em relação a pessoas com algum tipo de neurodivergência são, de certo ponto, contraditórios, quando os sintomas são leves e estes sujeitos são funcionais, sua neurodivergência é questionada. Quando os sintomas são mais severos, estes sujeitos sofrem violência, são excluídos e rejeitados por conta de suas limitações ou crises sensoriais mais severas. Para estes exemplos, damos o nome de capacitismo, que é o preconceito contra pessoas com deficiência e neurodivergências", informa a psicóloga.
Para João Lucas Lima, presidente do Instituto Neurodiversidade - clínica e comunidade inclusiva referência em Autismo, TDAH, deficiências e terapias multidisciplinares - há ainda outro grande estigma. "O maior estigma é que neurodivergentes são iguais, e que toda manifestação de autismo, dislexia, TDAH, bipolaridade, depressão é igual. Não é. Existem diferentes formas de ser, cada pessoa com autismo, com TDAH é de um jeito", garante.
Ainda que as redes sociais estejam facilitando o apoio aos neurodivergentes, as mulheres ainda são menos propensas a serem formalmente diagnosticadas. Muitas vezes, médicos e outros profissionais especializados em saúde mental ignoram os sintomas, ou não os identificam corretamente.
Aline Provensi, psicóloga especialista em TEA, acredita que a socialização das mulheres leva à camuflagem dos sintomas, o que dificulta a identificação. "O subdiagnóstico de pessoas designadas meninas e pessoas racializadas, principalmente para o TEA e o TDAH, é sustentado por algumas hipóteses. Sabe-se que as pesquisas que resultaram na composição dos critérios diagnósticos, em sua maioria, envolveram meninos brancos. Desse modo, as características citadas nos manuais e catálogos são fenótipos masculinos e podem não conseguir rastrear outras formas de se comportar. As mulheres são socialmente ensinadas a serem mais passivas, a não chamarem a atenção, a serem empáticas e simpáticas, e, por isso, podem não ter tantos comportamentos aparentes e clássicos", afirma Aline, diagnosticada com TEA, TDAH e Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD).
Pessoas racializadas carecem de ainda mais representatividade neurodivergente. A grande maioria dos filmes e séries retratam pessoas brancas, o que cria esse imaginário de que pessoas racializadas e neurodiversas não existem. Além disso, elas passam por diversos entraves sociais para acessar um diagnóstico e comumente são recebidas com preconceitos, tal como seu comportamento ser visto como um desvio de conduta, déficit intelectual ou influenciado por substâncias.
"Acredito que para que mais mulheres, pessoas LGBT+ e pessoas racializadas possam ter um diagnóstico e acompanhamento adequado, precisamos criar políticas públicas mais eficazes para que esse processo seja mais facilmente acessado. A avaliação ainda é algo muito elitizado e que não é possível para milhares e milhares de pessoas de baixa renda, que em sua maioria são racializadas, mulheres e LGBT+. Precisamos ter consciência de como fatores culturais influenciam na forma como cada condição vai se mostrar e pensar nos critérios diagnósticos a partir disso. É importante também ter cada vez mais representações com diversidade de gênero, raça e sexualidade em conteúdos audiovisuais", finaliza Aline.
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