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Fênix, o time indígenas só com LGBTs tem sua própria Neimar

Fênix é formado por habitantes de aldeia no Mato Grosso e chama atenção pela representatividade e competência

23 mar 2022 12h37
| atualizado às 16h02
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Fênix antes do jogo; Neimar é a segunda em pé, da esquerda para a direita
Fênix antes do jogo; Neimar é a segunda em pé, da esquerda para a direita
Foto: Arquivo Pessoal

Na Terra Indígena Meruri, no interior do Mato Grosso, indígenas se reúnem frequentemente para um ritual bastante familiar à maioria dos brasileiros: jogar bola. Mais do que combater estereótipos frequentemente associados aos indígenas, o futebol ali faz parte de uma luta contra os preconceitos de gênero. Isso porque o Fênix é um time formado exclusivamente por indígenas LGBTQIA+ e vem ganhando destaque tanto pela representatividade quanto pela performance em campo.

O Fênix foi idealizado por Brenda Boe e Neimar Boe. Elas sonhavam juntas em fundá-lo, mas os planos foram deixados de lado em maio de 2020, quando Brenda morreu. Sua morte e a falta de integrantes para completar uma equipe levaram ao engavetamento do projeto. No ano seguinte, porém, em um evento na aldeia Meruri o interesse pela criação de um time de futebol LGBTQIA+ foi retomado.

Boas lembranças: Brenda prepara Andrya para uma partida
Boas lembranças: Brenda prepara Andrya para uma partida
Foto: Arquivo Pessoal

"Vieram indígenas de outras aldeias para a festa, todos do povo Boe, entre os quais outras pessoas gays e trans, e isso nos animou", contextualiza Neimar Boe, que aos 25 anos é mestra em Antropologia Social, capitã, zagueira e fundadora do Fênix.

Em fevereiro de 2021, a primeira partida rolou. O placar final ficou em 11 a 3 para o Fênix. A vitória oficializou a fundação do time e trouxe novos desafiantes. A partir daí o time conquistou uma torcida, composta majoritariamente por mulheres.

Para a capitã, é clara a diferença entre os jogos partilhados exclusivamente entre homens cisgêneros e os que enfrentam o Fênix: "Percebi que, dentro de campo, homens perderem para homens é mais tranquilo, mais natural. Quando nós ganhamos deles, parece que não pode. Eles acham que somos pessoas mais frágeis, fracas. Mas nosso jogo não tem a ver com a nossa sexualidade, vai muito além, e as partidas ajudam a quebrar preconceitos”.

Registro do primeiro jogo do Fênix, time formado exclusivamente por indígenas LGBTQIA+
Registro do primeiro jogo do Fênix, time formado exclusivamente por indígenas LGBTQIA+
Foto: Arquivo Pessoal

Hoje, a principal dificuldade da equipe é manter a constância dos treinos, pois as integrantes pertencem a diferentes aldeias do povo Boe: Meruri, Nabureiao, Piebaga, Arareiao, Tadarimana e Pobore. No entanto, elas vêm se comprometendo a treinar separadamente, para estarem preparadas quando houver novas disputas e torneios.

Para a organização, Neimar conta com a amiga e parceira de equipe, Andrya Boe, mulher trans de 22 anos, jogadora da lateral direita e estudante de Pedagogia em Campo Grande (MS). Andrya considera o time parte de sua família e um elo com Brenda Boe. "Fazer parte do time é também uma homenagem para a minha amiga. Quando jogo, sinto a Brenda muito presente”, conta Andrya, que também destaca a importância do time em “ajudar outras comunidades indígenas a se fortalecerem, estimulando outros times assim”.

Não é à toa que Brenda Boe siga tão presente em campo. Ela foi a primeira mulher a se assumir trans em todo o seu povo. "Brenda foi fundamental para romper com fortes barreiras em relação à diversidade. A partir dela, outras tiveram mais liberdade, menos medo e mais coragem de ser quem são”, diz Neimar.

Time se preparando para entrar em campo; Neimar está em pé, de uniforme
Time se preparando para entrar em campo; Neimar está em pé, de uniforme
Foto: Arquivo Pessoal

 

Fonte: Redação Nós
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