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Feminismo indígena: tem diferença?

Puyr Tembé, líder e ativista, comenta reivindicações específicas, como a busca por maior protagonismo na sociedade

3 mar 2022 - 07h00
(atualizado em 13/4/2022 às 14h56)
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Tuíra ameaça com um facão José Antonio Muniz Lope, presidente da Eletronorte
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Foto: Protássio Nêne/Estadão Conteúdo

A história indígena, a partir da colonização, é marcada por diferentes atos de resistência e luta. Uma das imagens mais emblemáticas que circulam na internet mostra uma mulher em pé com uma peixeira na mão estendida próxima ao rosto de um homem. Ele era o então diretor da Eletronorte e tinha como objetivo instalar uma usina hidrelétrica no rio Xingu. Os kayapós não concordavam e, num ato de protesto, Tuíre, mulher e liderança indígena daquele povo, protagonizou a cena descrita. Ela se popularizou como símbolo de força e coragem.

Aos 44 anos, a liderança indígena Puyr Tembé, presidenta da Federação dos Povos Indígenas do Pará, cofundadora da Anmiga (Articulação Nacional das Mulheres Indígenas Guerreiras da Ancestralidade) e uma das organizadoras da Marcha das Mulheres Indígenas, atribui a suas ancestrais e a Tuíre Kayapó a inspiração para trabalhar pelo empoderamento das mulheres nas causas mais importantes da atualidade.

Segundo Puyr, as conquistas indígenas no universo feminino se devem a um trabalho contínuo, que conta com muitas vozes: “Esse trabalho é coletivo e começou no passado, mas nos últimos anos, para a gente, a situação se agravou mais e mais.”

Lutas por territórios e por domínio do espaço digital marcaram pandemia, diz Puyr Tembé
Lutas por territórios e por domínio do espaço digital marcaram pandemia, diz Puyr Tembé
Foto: Arquivo Pessoal

Entre as bandeiras levantadas pelas mulheres indígenas estão a busca pela educação para um maior protagonismo na sociedade e o fim da violência de gênero, comuns à causa feminista como um todo. Mas há necessidades específicas dos povos indígenas que elas buscam representar também. Com a pandemia, a prioridade do movimento foi garantir a vida através de um planejamento efetivo para a vacinação de seus povos, o que, por si só, foi bastante desafiador. “Tivemos que encarar as lutas dentro dos nossos territórios, mas também as lutas nas telas. No início da pandemia, nós não dominávamos o processo de, por exemplo, fazer uma live. E precisamos aprender a fazer uma matéria, a gravar, para poder falar o que a gente estava sentindo, para sensibilizar o mundo sobre o que estava acontecendo com os nossos povos”, diz Puyr.

A luta pela demarcação de terras também marca diferentes frentes de atuação e resistência das mulheres indígenas. Com esse objetivo foi criada a Marcha das Mulheres Indígenas, que, em 2019, durante sua primeira edição, reuniu 2.500 membros de mais de 130 etnias em Brasília. “Mulheres de todas as regiões do país, que nunca tinham sequer saído do seu território, estavam na marcha. Mulheres que não sabiam falar português, mas estavam cientes da importância de se posicionar”, conta Puyr.

Em 2022, uma das prioridades da Anmiga é garantir visibilidade e representatividade política às mulheres indígenas. No mês de fevereiro deste ano elas se reuniram para organizar e estabelecer estratégias, ações e eventos, com o objetivo de estimular as guerreiras a concorrerem nas eleições: "Nós precisamos chegar lá e levar nossas vozes. Fazer com que esses setores entendam a leitura que a gente tem do mundo, enquanto mulher, enquanto mãe, enquanto avó, enquanto guerreiras, com toda a nossa ancestralidade".

Primeira edição da Marcha das Mulheres Indígenas, em 2019, reuniu 2.500 membros de mais de 130 etnias em Brasília
Primeira edição da Marcha das Mulheres Indígenas, em 2019, reuniu 2.500 membros de mais de 130 etnias em Brasília
Foto: Arquivo pessoal

 

Fonte: Redação Nós
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