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Donos de Peugeot acusam falha crônica no motor 1.6 THP e cobram troca negada pela Stellantis

Proprietários relatam consumo excessivo de óleo, carbonização e substituições de motor que antes era feitas como "cortesia"; marca defende que concessionárias estão preparadas para avaliar cada caso

20 jun 2026 - 16h00
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Os Peugeot 3008 e 5008 construíram boa parte de suas imagens no Brasil por meio do design, do bom pacote de equipamentos e, claro, do motor turbo com desempenho superior ao de boa parte dos SUVs vendidos por aqui.

Para muitos compradores, viraram uma espécie de escolha racional com gostinho de carro premium. Só que, para uma parcela de proprietários, essa conta começou a fechar de outro jeito. Com consumo anormal de óleo, carbonização interna, falhas de funcionamento e a possibilidade de uma troca de motor por dezenas de milhares de reais.

O propulsor traz um defeito de fabricação relatado por vários proprietários. O problema envolve o conhecido motor 1.6 THP, usado em versões do Peugeot 3008 e também do 5008, bem como em modelos da Citroën — como o saudoso C4 Cactus.

Procurada pelo Jornal do Carro, a Peugeot declarou que "sua rede de concessionárias está preparada para avaliar cada caso individualmente, mediante criterioso diagnóstico técnico e conforme os procedimentos de pós-venda e condições vigentes de garantia."

A reportagem, com auxílio dos personagens ouvidos nesta matéria, encontrou ao menos 50 relatos no Reclame Aqui sobre problemas semelhantes aos descritos neste texto - forte sinalização de que o defeito não é um caso isolado. A maioria envolve o 3008, até por se tratar de modelo com maior volume de vendas que o 5008 no Brasil.

Destes, 20 tiveram a questão solucionada. O restante se divide entre casos em que os clientes tiveram a troca do motor custeada pela marca, porém precisaram arcar com o valor da mão de obra, e outros que amargaram o prejuízo sem o suporte da Peugeot. A empresa traz respostas diferentes a um mesmo problema.

Proprietários relatam problemas com o motor

Donos ouvidos pela reportagem relatam um padrão parecido. Os carros têm histórico de revisões em concessionárias, quilometragem relativamente baixa e surgimento repentino de consumo excessivo de óleo. Em alguns casos, segundo os proprietários, a solução indicada pela própria rede autorizada foi a substituição completa do motor. Isso, todos comentaram, "como uma cortesia".

Oliveira diz que começou a se especializar no THP quando trabalhava em uma oficina focada em veículos da antiga PSA, de Peugeot, Citroën e DS. Lá, segundo ele, ficou responsável por cuidar dos carros equipados com esse propulsor. Depois, abriu a própria loja.

"Todo THP que chegava na oficina era eu que cuidava. Acabei conversando com muitos clientes e ganhando muita experiência. Hoje atendo clientes do Brasil inteiro. Tenho clientes de Brasília, Paraná, Rio de Janeiro, Mato Grosso. Tenho bastante referência desse problema", diz.

O especialista afirma que o defeito é especialmente frequente nos THPs usados em veículos importados da Europa, como 3008, 5008 e Grand C4 Picasso. Para ele, a tropicalização é um ponto importante na discussão.

"O motor é o mesmo, mas muda material e muda aplicação. Por conta disso, a gente vê que o motor de 3008, 5008 e Grand Picasso sofre mais com carbonização. A tropicalização é um ponto bem importante", afirma.

Como o defeito começa no motor 1.6 THP

Segundo o especialista, a origem do problema costuma estar nos retentores de válvulas. A função dessas peças é impedir que o óleo desça pela haste da válvula e entre na câmara de combustão. Quando os retentores perdem eficiência, o óleo começa a ser queimado junto com a mistura de ar e combustível.

"Esses retentores vedam a passagem de óleo para dentro da câmara de combustão. Quando eles não conseguem fazer essa vedação direito, começa a passar óleo para dentro da câmara. Esse óleo gera mais carbonização ali dentro", explica.

De acordo com o reparador, a Peugeot e a Citroën passaram a vender retentores atualizados, mas os carros anteriores não saíam de fábrica com esse componente mais novo.

"Os retentores atualizados têm viton (uma vedação de alta performance) cobrindo toda a parte interna. Os que vêm no carro não cobrem. Até 2022, esses carros não vinham com os retentores atualizados. Só a partir dos últimos THP, em 2023, isso começou a acontecer", afirma.

A entrada de óleo na câmara de combustão é apenas o começo. Com o tempo, a carbonização se acumula nos pistões e nos anéis de segmento. Estes são responsáveis por controlar compressão e lubrificação dentro do cilindro. Quando ficam carbonizados ou travados, o motor passa a queimar ainda mais óleo.

"Essa carbonização vai se alojando nos anéis de segmento do pistão. Eles perdem a compressão e, no lugar de vir óleo só de cima, começa a vir óleo de baixo também. Aí se gera uma carbonização muito grande e começa o consumo excessivo de óleo. Não é algo normal e não deveria acontecer no carro", comenta o especialista.

Pedro Oliveira afirma estar, neste momento, finalizando o reparo de um Peugeot 3008 2019 com apenas 44 mil km rodados. O caso, segundo ele, mostra que a falha não se limita a carros muito usados.

"Estou fazendo um Peugeot 3008 2019 muito bem cuidado, com 44 mil km rodados. Tirei o cabeçote, mandei para a retífica, fiz banho químico nos pistões, limpeza da parte de baixo, brunimento, e vou montar novamente", relata.

Carros que consomem 1 litro a cada 1.000 km

Pedro também chama atenção para os anéis de segmento originais. Segundo ele, o terceiro anel, responsável pela raspagem e controle de óleo, tem construção diferente da encontrada em marcas usadas no reparo, como Mahle ou KS.

"Pela minha experiência e pelo que eu vejo diariamente, os anéis de segmento originais têm o terceiro anel, o de raspagem, em três peças unidas. Quando colocamos de outra marca, como Mahle ou KS, eles vêm separados. Todos os motores THP que fiz até hoje não voltaram a ter consumo excessivo de óleo", afirma.

Segundo o especialista, há motores reparados por sua oficina rodando mais de 80 mil quilômetros após o serviço sem voltar a apresentar consumo anormal.

Ele reconhece que motores turbo podem consumir algum óleo, mas diferencia isso dos casos relatados por proprietários de 3008 e 5008.

"Carro turbo realmente pode consumir um pouco de óleo. Mas eu pego muitos clientes com 3008 e 5008 fazendo 1 litro de óleo a cada 1.000 km. Essa é uma média muito assertiva de consumo excessivo de óleo em carros abaixo de 80 mil km", afirma.

A fala do especialista reforça o ponto central dos donos. O defeito não aparece apenas em veículos negligenciados ou com alta quilometragem. Segundo Pedro Oliveira, há casos em carros bem cuidados, com baixa rodagem e manutenção feita dentro do esperado.

Óleo, combustível e carbonização

O reparador afirma que a manutenção também influencia a velocidade de evolução do problema. Na avaliação dele, intervalos longos de troca de óleo e combustível de baixa qualidade podem agravar a carbonização.

"Um ponto que ajuda os retentores a perderem eficiência é o óleo velho. Esse carro pede troca de óleo a cada 5.000 km ou seis meses, mas normalmente o brasileiro deixa para fazer de ano em ano ou a cada 10.000 km", diz.

Segundo Oliveira, o óleo 0W30 usado nesses motores é fino e, em determinadas condições, pode se misturar a resíduos de combustível, favorecendo a formação de depósitos no cabeçote e na parte baixa do motor.

"Por normas de emissões, o óleo usado de fábrica é 0W30. Só que esse óleo é muito fino. Ele acaba se misturando com combustível, e esse residual fica na parte de cima do cabeçote e na parte de baixo, gerando carbonização também. A gasolina gera muita carbonização", explica.

Ele diz que o uso de combustível de maior octanagem e trocas de óleo a cada 5.000 km podem ajudar, principalmente em carros novos ou ainda pouco contaminados por carbonização. Mas ressalta que, em veículos usados sem esse cuidado desde zero, a substituição preventiva dos retentores pode não ser suficiente se os anéis já tiverem sido afetados.

"Num carro zero, usando combustível bom e trocando óleo de 5 mil em 5 mil km, pode ser que não gere carbonização. Mas em um usado que não teve esse cuidado desde zero, mesmo trocando os retentores, uma hora ou outra pode cair nos anéis de segmento", afirma.

Quando o custo-benefício vira risco

É justamente esse cenário que preocupa os proprietários. O 3008 pode parecer uma compra atraente no mercado de usados, especialmente pelo nível de acabamento e desempenho. No entanto, uma falha estrutural no motor muda completamente a lógica do negócio.

O dono deixa de lidar com uma manutenção previsível e passa a enfrentar uma conta que pode chegar a dezenas de milhares de reais. Mais do que isso. Passa a depender de uma análise da fabricante, de laudos da concessionária e de uma política comercial que, segundo os relatos, não é clara nem uniforme.

Para Erik, o suporte da concessionária foi decisivo para o desfecho favorável. Para Fernando, a insistência e a interpretação da própria política interna abriram caminho para a troca. Para Paulo, nem o diagnóstico em concessionária autorizada nem o histórico de revisões foram suficientes até agora.

Proprietários entram em desespero ao ver a informação de nível do óleo do motor
Proprietários entram em desespero ao ver a informação de nível do óleo do motor
Foto: Reprodução/Whatsapp / Estadão

Essa diferença de tratamento é um dos pontos mais sensíveis da história. Em tese, clientes com sintomas semelhantes, carros de mesmo conjunto mecânico e histórico de manutenção parecido deveriam receber respostas parecidas. Todavia, os relatos mostram uma espécie de loteria. Alguns consumidores conseguem o motor em cortesia, outros pagam a mão de obra e, por fim, outros têm o pedido negado.

O ponto mais delicado é a fidelização. Muitos donos afirmam que continuaram fazendo revisões em concessionárias justamente para preservar eventual suporte da marca. Para eles, a mensagem implícita era de que se o histórico estivesse completo, a Peugeot poderia reconhecer o problema e fornecer o motor. Quando a negativa veio, esses clientes sentiram que cumpriram sua parte do acordo informal sem receber a contrapartida esperada.

A discussão sobre vício oculto

A discussão jurídica gira em torno do conceito de vício oculto. Pelo Código de Defesa do Consumidor, a contagem de prazo para reclamação por vício oculto começa quando o defeito se torna evidente, não necessariamente na data da compra ou no fim da garantia contratual. Proprietários argumentam que um motor com manutenção em dia não deveria exigir substituição completa com 44 mil, 70 mil, 80 mil ou 84 mil km, ainda mais em veículos posicionados em faixa superior de preço.

Do outro lado, as negativas relatadas pelos clientes se apoiam, em geral, no fim da garantia ou em critérios internos de política comercial. Há quem tenha conseguido cortesia sem todos os carimbos no manual. Há quem tenha pagado apenas mão de obra. Há quem tenha recebido motor e documentação. E há quem, como Paulo, tenha recebido negativa mesmo com histórico completo de revisões e diagnóstico da própria rede.

Foto com o painel informando sobre o aviso é compartilhado com frequência entre proprietários de 3008
Foto com o painel informando sobre o aviso é compartilhado com frequência entre proprietários de 3008
Foto: Reprodução/Whatsapp / Estadão

Essa falta de padrão é o que transforma uma falha mecânica em crise de pós-venda. Para o consumidor, não basta saber que o motor pode apresentar problema. O cliente passa a perguntar por que alguns tiveram o motor substituído e outros, com sintomas semelhantes, ficaram com a conta?

No caso de Paulo, seu desejo é de que a Peugeot seja notificada a fim de realizar o reparo integral, incluindo peças, mão de obra e regularização documental, Tudo isso, claro, sem custo ao proprietário.

Enquanto a Stellantis não apresenta uma explicação pública e uniforme sobre os critérios adotados para esses casos, a percepção entre donos é de insegurança. Quem já teve o problema teme ficar com prejuízo. Quem ainda não teve passa a monitorar o nível de óleo com receio.

A seguir, veja o comunicado da Peugeot em resposta à reportagem, na íntegra. Para contexto: a empresa pediu acesso aos clientes ouvidos pela reportagem, que, autorizada pela fonte, compartilhou seu contato com a montadora.

"A Peugeot informa que entrou em contato com o proprietário mencionado e está trabalhando na solução do caso. Esclarece também que não teve acesso aos dados dos clientes citados e/ou entrevistados pela publicação e reitera que sua rede de concessionárias está preparada para avaliar cada caso individualmente, mediante criterioso diagnóstico técnico e conforme os procedimentos de pós-venda e condições vigentes de garantia."

Vale ressaltar que o proprietário mencionado pela Peugeot na nota oficial alega que não foi procurado pela empresa até a publicação desta matéria. Ele diz ainda que a companhia sequer respondeu à reclamação em andamento no Procon.

Estadão
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