Bateria que promete aposentar carros a combustão é testada e confirma recarga em 5 minutos
Célula da famigerada bateria de estado sólido da Donut Lab foi submetida a teste, mas avaliação deixa várias lacunas; entenda
Este repórter vem acompanhando a saga da famigerada bateria de estado sólido desenvolvida pela Donut Lab, admite, com algum ceticismo. O projeto da startup finlandesa deu o que falar na última CES (Consumer Electronics Show), foi chamado de "fraude" por rivais e segue permeado por polêmicas.
A fim de apagar incêndios que possam comprometer o produto, a Donut Lab enfim colocou números onde antes só havia promessas com contornos de um filme de ficção científica dirigido por Denis Villeneuve. A startup divulgou os primeiros resultados de testes independentes de sua controversa bateria.
E os primeiros dados mostram que o projeto pode não ser, em português claro, propaganda enganosa. Segundo o teste, uma única célula carregou de zero a 80% em apenas 4,5 minutos sob um taxa de 11C. Número que realmente surpreende.
Como foi o teste da bateria de estado sólido
A avaliação foi conduzida pelo VTT Technical Research Centre. A instituição de pesquisa é, assim como a Donut Lab, finlandesa, e serve de árbitro técnico no setor. O objetivo foi avaliar o desempenho de carregamento das células fornecidas pela startup, que as identifica como baterias de estado sólido.
A capacidade nominal foi determinada em 26 Ah (ampère-hora) após testes iniciais dentro da faixa de tensão recomendada. E o protocolo foi direto e reto.
A célula foi carregada a 5C, ou 130 ampères, até chegar a 4,3 volts. O que seguiu foi carregamento em tensão constante até chegarmos aos 26 Ah. O mesmo procedimento foi repetido, então, na taxa mais brutal de 11C, ou 286 ampères. Este nível de estresse elétrico é reservado mais a experimentos do que a produtos reais.
Recarga rápida dos carros cairia de meia hora para cinco minutos
Os resultados do teste, pelo menos em termos de velocidade, são impressionantes. A célula atingiu 80% de carga em menos de cinco minutos com temperatura subindo de 26,5°C para cerca de 63°C.
De fato, aqui entramos em território capaz de redefinir o conceito de "carregamento rápido". A título de comparação, a maioria dos carros elétricos atuais leva entre 20 e 40 minutos para atingir o mesmo nível, e isso sob sistemas térmicos líquidos sofisticados e arquiteturas de 800 volts.
Teste revela problemas e não aborda questões importantes
Mas o teste não rendeu apenas louros. Com apenas um dissipador de calor a temperatura da superfície atingiu o limite de segurança de 90°C. Só após resfriamento os engenheiros reiniciaram a avaliação.
Mesmo em condições menos extremas, o calor continuou atuando como um vilão silencioso. O experimento deixou evidente que o carregamento ultrarrápido não é apenas uma questão de química, mas de engenharia térmica.
E este ponto é particularmente desconfortável para a Donut Lab. A empresa havia sugerido que sua bateria poderia operar sem sistemas complexos de resfriamento ativo, mas os dados mostram o oposto. Em um veículo real, isso significa que qualquer promessa de carregamento consistente a 11C teria de depender de sistemas térmicos sofisticados como em qualquer outro carro elétrico moderno.
Mas o pior não é isso. O relatório do VTT verifica apenas a velocidade de carregamento. As afirmações mais extraordinárias da Donut Lab permanecem, por ora, no território da fé.
A startup, bom lembrar, fala em densidade energética de 400 Wh/kg, vida útil de 100 mil ciclos, retenção de desempenho em temperaturas extremas e paridade de custo com baterias convencionais de íons de lítio. Nenhuma dessas promessas foi validada independentemente.
O contexto torna tudo ainda mais nebuloso. Quando revelou a bateria na CES, a Donut Lab não fez demonstrações ao vivo e não apresentou documentação técnica revisada por pares. Os funcionários presentes no estande divulgavam informações desencontradas e até mesmo os materiais de divulgação tinham dados distintos.
Por enquanto, o veredito é um tanto agridoce. A bateria funciona e carrega de modo absurdamente rápido. Sem explodir. No entanto, não desafia as leis da termodinâmica. O calor continua lá, implacável.
Novos testes da bateria de estado sólido em breve
Marko Lehtimäki, CEO da Donut Lab, prometeu divulgar novos testes independentes em breve. De acordo com landing page comandada pela startup, o próximo será revelado na segunda-feira, 1.
Será que a companhia conseguirá, com novo material, arrebatar fiéis para a causa ("I Donut Believe")? Será que farão a cabeça de céticos, como este repórter?
Relembrando que, de acordo com a Donut Lab, a Verge — focada em motocicletas elétricas — utilizará sua bateria de estado sólido em uma nova versão da TS Pro. Para nosso espanto, caso a promessa de lançamento, previsto para este ano, se cumpra, teremos o primeiro veículo de produção em massa alimentado por tal solução.