Zelensky acusa o COI de 'fazer o jogo da Rússia' ao desclassificar atleta por homenagem a ucranianos mortos
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, acusou nesta quinta-feira (12) o Comitê Olímpico Internacional (COI) de "fazer o jogo" da Rússia, após a desclassificação do atleta Vladislav Heraskevych dos Jogos Olímpicos de Inverno de Milão-Cortina. Heraskevych pretendia usar um capacete em homenagem aos atletas ucranianos mortos durante a invasão russa.
O profissional de 27 anos, que era o porta-bandeira da delegação ucraniana na cerimônia de abertura, foi desclassificado porque seu capacete trazia imagens de vítimas da guerra. Segundo o COI, a mensagem violava o Artigo 50 da Carta Olímpica, que proíbe qualquer forma de "propaganda política" nos locais de competição, na Vila Olímpica ou durante as cerimônias de entrega de medalhas.
"O movimento olímpico deve contribuir para o fim das guerras, não fazer o jogo dos agressores. Infelizmente, a decisão do Comitê Olímpico Internacional de desclassificar o atleta ucraniano de skeleton Vladislav Heraskevych diz o contrário", escreveu Zelensky nas redes sociais.
"O COI não apenas desqualificou o atleta ucraniano, como também desqualificou a sua própria reputação. As gerações futuras lembrarão deste momento como vergonhoso", escreveu o ministro das Relações Exteriores da Ucrânia, Andriy Sybiga, nas redes sociais.
Heraskevych representava uma esperança de medalha para seu país: ele havia terminado em quarto lugar no Campeonato Mundial da modalidade em 2025. O atleta foi informado da decisão no início da manhã, durante uma reunião com a nova presidente do COI, Kirsty Coventry, que apareceu em lágrimas pouco antes do início das provas de skeleton, em que os atletas descem a pista de gelo em uma prancha equipada de patins.
Atleta insistiu em usar capacete
Vladislav Heraskevych publicou uma foto sua usando o agora famoso capacete com as imagens serigrafadas de vários de seus compatriotas mortos, com a legenda "Este é o preço da nossa dignidade", logo após a decisão do COI de desqualificá-lo "por se recusar a aceitar as regras (...) referentes à liberdade de expressão dos atletas".
"Vladislav não começou a prova, mas não estava sozinho - toda a Ucrânia estava com ele, e sempre estará. Porque quando um atleta defende a verdade, a honra e a memória, isso já é uma vitória. Uma vitória para Vladislav. Uma vitória para todo o país", disse o Comitê Olímpico Ucraniano, em um comunicado.
O COI, que na terça-feira ofereceu a Vladislav Heraskevych a opção de usar uma braçadeira preta em vez do capacete, confirmou que ele não foi autorizado a participar das competições.
COI 'estava determinado' a ver atleta na pista
"Esta manhã (quinta-feira), ao chegar ao local da competição, Heraskevych se reuniu com a presidente do COI, Kirsty Coventry, que explicou a posição do COI a ele pela última vez. Como em reuniões anteriores, ele se recusou a mudar de posição", argumentou a entidade olímpica, em uma longa declaração. Nessas circunstâncias, "a decisão foi tomada pelo júri da Federação Internacional de Bobsleigh e Skeleton (IBSF), com base no fato de que o capacete que ele pretendia usar não estava em conformidade com os regulamentos", continuou o comunicado.
"Nós realmente queríamos que ele participasse. Isso teria enviado uma mensagem muito forte", disse Mark Adams, porta-voz do COI. "Não se trata da mensagem Trata-se do local. Não podemos aceitar que os atletas sejam submetidos à pressão de seus líderes políticos." Contatado pela AFP nesta manhã, o Tribunal Arbitral do Esporte (TAS) indicou que não recebeu um recurso de Vladislav Heraskevych.
O atleta ucraniano participou dos treinos de segunda-feira usando um capacete cinza com as imagens de seus compatriotas que morreram na guerra. Ele também usava esse capacete durante os treinos de quarta-feira, segundo um fotógrafo da AFP.
O presidente ucraniano Volodymyr Zelensky elogiou a iniciativa, detalhando as identidades dos atletas retratados no capacete de Vladislav Heraskevych: "o patinador artístico Dmytro Sharpar, morto em combate perto de Bakhmut; Yevhen Malyshev, um biatleta de 19 anos morto pelos ocupantes perto de Kharkiv; e outros atletas ucranianos que perderam a vida na guerra travada pela Rússia."
Com AFP