Oswaldo admite guerra de egos no Mundial 2000 e diz ter saudade
De todos os craques que fizeram parte, talvez, do melhor time que o Corinthians já montou em seu pouco mais de 100 anos de vida, na conquista do Mundial de Clubes da Fifa, em 2000, no Brasil, nenhum deles participou da imagem que se tornou a mais emblemática do título.
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Após 120 minutos sem gols, a disputa de pênaltis contra o Vasco sagrou o Corinthians campeão mundial de clubes, num Maracanã dividido entre alvinegros e cruzmaltinos. Ao centro do gramado, enquanto os jogadores se abraçavam, o técnico Oswaldo de Oliveira, sozinho, praticava o "auto abraço". Admirava os torcedores, em gesto real de agradecimento em lágrimas, imagem repetida por inúmeras vezes, mais até que a derradeira cobrança de Edmundo, para fora, com o sempre frio Dida se levantando sem esboçar emoção.
"Sim, inegavelmente", responde Oswaldo sobre se aquele momento foi o grande auge da sua carreira. "É uma lembrança constante. O tempo passa e cada vez mais eu me sinto fortalecido", reforça antes de confessar que, sim, sente muita saudade daquela época. "Tenho, claro que tenho. Vou ter sempre".
Nesta entrevista exclusiva ao Terra, o atual técnico do Botafogo relembra a trajetória do Corinthians nos quatro jogos que levaram ao título, que, até hoje, não é devidamente reconhecido pelos rivais (foi o primeiro Mundial organizado pela Fifa, mas só a partir de 2005 ele passou a ser anual). Oswaldo relembra o decisivo confronto com o Real Madrid, a guerra de egos num time estrelado por Ricardinho, Rincón, Marcelinho, Edílson e Luizão, dentre outros, e aposta toda as suas fichas no bicampeonato mundial, agora com o Chelsea, da Inglaterra, como possível rival na grande final.
Confira a entrevista:
Terra - O que vem a sua mente quando você volta 12 anos no tempo direto para janeiro de 2000?
Oswaldo de Oliveira - É uma lembrança constante. O tempo passa e cada vez mais eu me sinto fortalecido, porque foi uma coisa muito importante para todo mundo, para os jogadores, para o clube e para a torcida. É uma lembrança muito forte que eu tenho, talvez a mais forte.
Terra - Foi o grande momento da sua carreira?
Oswaldo - Sim, inegavelmente. É claro que, a longo prazo, no Japão eu conquistei um tricampeonato, mas eu acho que de apoteose, de momento, de grandiosidade de título, realmente, aquele Mundial foi bastante importante.
Terra - Como foi a preparação para aquele torneio? O Corinthians vinha de um bicampeonato nacional, e você consolidado como treinador...
Oswaldo - Na verdade, tudo isso veio desde o Campeonato Paulista (de 1999). Quando eu reassumi a equipe, nós éramos os últimos colocados no grupo e, de forma imbatível, conseguimos a classificação e, depois, a conquista do título vencendo os três grandes de goleada: o São Paulo por 5 a 1, o Santos por 4 a 0 e o Palmeiras por 3 a 0. A equipe foi ficando muito sólida durante o Campeonato Brasileiro. Nós ganhamos os oito primeiros jogos de forma consecutiva. Isso deu um lastro de muita confiança à equipe. Foi um ano bastante cansativo, se eu não me engano nós tivemos 88 jogos. Foi um ano que só acabou em janeiro. Aquilo cansou a equipe, mas por outro lado deu muita força e confiança. O Vasco que saiu antes da disputa do Campeonato Brasileiro fez intertemporada, fez jogos amistosos, e se preparou para o Mundial. Nós não tivemos essa chance. Naquela final de 120 minutos, o time perdeu o Ricardinho no meio do jogo e o Rincón jogou com uma contusão que ele arrastou desde as finais do Campeonato Brasileiro. Por isso tudo é que foi muito importante. Foi uma escalada progressiva e vertical que teve início no Campeonato Paulista, passando pelo Brasileiro e culminando com o título mundial.
Terra - Vamos repassar jogo a jogo? A estreia contra o Raja Casablanca, do Marrocos, foi um jogo difícil, o time não parecia estar ajustado para o torneio, por mais que viesse de duas conquistas importantes.
Oswaldo - Eu tive que mudar a zaga. O Fábio Luciano (zagueiro) estreou naquele jogo. E logo em seguida o Adílson (Batista, outro zagueiro) entrou no meio e passou a ser o titular também. Então, apesar de nós termos toda a trajetória, nós tivemos mudanças importantes na equipe, e foram mudanças positivas para aquela competição. Precisávamos de zagueiros técnicos para a saída da bola junto com o Rincón. O time ficou ainda mais técnico nesse aspecto, por mais que tenha sido uma estreia difícil (Luizão e o próprio Fábio Luciano marcaram os gols, apenas no segundo tempo de jogo).
Terra - E aí veio o jogo mais importante e crucial: enfrentar o poderoso Real Madrid.
Oswaldo - Foi um jogo de alternativas, com o Dida, mais uma vez, pegando um pênalti. Um pênalti salvador naquele momento. Foi um jogo duríssimo. A qualidade do time do Real Madrid era indispensável comentar. Até revi esse jogo há pouco tempo. Nós tivemos boas chances de vencer, mas no final o Real teve aquele pênalti, e o Dida foi fundamental mais uma vez (no empate por 2 a 2).
Terra - E aí veio o jogo com o Al Nassr, da Arábia Saudita, que, após a vitória do Real Madrid por 3 a 2 sobre o Raja Casablanca, obrigava vocês a vencer por dois gols de diferença. E o Rincón faz aquele gol salvador no final do jogo.
Oswaldo - Esse jogo tem uma particularidade. O nosso lateral direito foi expulso, o Daniel. Estávamos ganhando de 1 a 0 (gol de Ricardinho) e precisávamos fazer o segundo. E eu ainda podia fazer uma substituição para cobrir aquele buraco, mas resolvi colocar o Dinei e fiquei com o Luizão na lateral direita. E a jogada começa no próprio Luizão, passa pelo Dinei até o passe para o Rincón resolver.
Terra - Foi um alívio imenso, não?
Oswaldo - Foi um negócio incrível. Nós tínhamos um homem a menos, e com um buraco no lado que tinha um excelente jogador da seleção marroquina, que atuava pelos sauditas. Eu já tinha o enfrentado quando jogava no Catar, e ele era muito veloz. Os momentos que eles tiveram de gol foram sempre por ali. Mas ainda assim conseguimos reverter a situação, e acabou sendo um passo muito grande para a conquista.
Terra - E chega a final com o Vasco, 120 minutos, sem gols. Como você lembra dessa final?
Oswaldo - Foi um jogo de muita preocupação. A gente não estava mais em fase de treinar, com o time exausto, e eu tive que fazer alguns reparos defensivos, já que nós íamos jogar nada menos do que contra Romário, Edmundo, Juninho Pernambucano e Felipe. Um timaço. E mais: Viola e Donizete que entraram no decorrer do jogo. Nós tínhamos que dar consistência defensiva à equipe para suportar isso. Acho que conseguimos isso, criando algumas boas oportunidades para definir a partida. E na decisão, mais uma vez o Dida decisivo.
Terra - Aquela imagem de você se abraçando e chorando ao ver a torcida no Maracanã foi talvez uma das imagens mais emblemáticas daquela conquista, não?
Oswaldo - Aquilo ali foi o seguinte: eu acho que a torcida entendeu qual era a necessidade do time. Ela normalmente empurrava, tinha aquele gritos de botar o time para cima, e naquele dia ela entendeu o jogo de uma forma diferente, tanto que lançaram o "todo poderoso Timão". Era uma coisa forte, consistente, sem nada desvairado. A torcida mostrava para o time que tinha que ir passo a passo, pois seriam 120 minutos de jogo. Aquilo me emocionou muito. Se não fosse a participação da torcida, possivelmente nós não teríamos conseguido.
Terra - Você dirigiu um time que tinha Marcelinho, Rincón e Ricardinho, sem falar em Edílson e Luizão. Era difícil controlar esta "guerra de egos"? O que tinha de verdade nessa história?
Oswaldo - Não dá para negar que tinha mesmo. Como todos os times têm. As pessoas são diferentes. Alcançam patamares diferentes durante a carreira. E nós lá tínhamos isso, sim. E era de conhecimento de todos, afinal, era Corinthians, e lá não se esconde nada. Há muito assédio, muita gente envolvida. Foi realmente uma arte nós tentarmos resolver aquilo, tentar equilibrar aquilo tudo. O que pese os egos, eles eram pessoas do bem, todos eles. Entenderam que se não fosse com as forças somadas, nós não iríamos conseguir. Se cada um saísse pelo seu próprio lado nós não teríamos conseguido. Foi o que eu sempre tentei passar para eles, fazê-los entender que sem isso seria impossível. Acho que fomos muito bem sucedidos.
Terra - Os europeus, no caso o Manchester United e o Real Madrid, vieram para cá mesmo com essa sensação de "torneio de verão"? Eles estavam, de fato, interessados em serem campeões do primeiro Mundial da Fifa?
Oswaldo - O que eu vi bem foi um Real Madrid lutando muito, com muita raça. Vi o jogo do Vasco com o Manchester (United) e vi os vascaínos soberbos. Edmundo e Romário foram fantásticos, como falar que um jogo em que os dois brilharam o time europeu não queria nada com nada? Eles lutaram, sim. Aqui tem muito essa coisa de bairrismo, torcidas, então as pessoas procuram desfavorecer, infelizmente. O cara torce por um clube e tem a possibilidade de se expressar, ele acaba tirando mérito. É a velha questão de "puxar brasa para a sardinha". Eu acho que no fundo todos reconhecem que foi uma grande competição, muito difícil e que eu me orgulho muito de ter sido o primeiro campeão mundial dessa nova versão do torneio. E de ter conseguido isso no Corinthians, que para mim foi um divisor de águas. A minha vida, a minha carreira mudou totalmente depois que eu passei por lá.
Terra - Sente muita saudade dessa época?
Oswaldo - Tenho, claro que tenho. Vou ter sempre. Sempre que eu posso eu converso com o Edu, com o Ricardinho, com o Luizão, com o Rincón, Edílson e Vampeta. O Dida mesmo agora eu reencontrei no nosso jogo com a Portuguesa, e foi um reencontro emocionante e sensacional. Ele também ainda traz muito aquilo, e isso me deixa muito feliz.
Terra - E você analisa de que forma o atual momento do Corinthians? Como vê as chances da equipe para a disputa deste Mundial de Clubes, doze anos depois?
Oswaldo - Eu vejo muito bem e a caminho do bicampeonato. Sinceramente, eu acho que o Corinthians tem grandes condições de conquistar este título no Japão. Até porque não é Barcelona, não é Real Madrid, não é o Milan. Eu respeito muito o time do Chelsea, que é muito bom, principalmente com as contratações que fez, mas acabou perdendo referências muito importantes, como foi o caso do Drogba e do próprio Anelka. Então, eu acho que o Corinthians está maduro suficiente. O Tite tem feito um trabalho magnífico, com jogadores de excelente nível que já demonstraram que nos momentos decisivos eles vão para decidir. Estou confiante e acho que o Corinthians vai conseguir o bicampeonato.
Terra - Você trabalhou no Japão por cerca de três temporadas? O que pode falar sobre a preparação? Nesta época do ano faz muito frio no país...
Oswaldo - Os clubes daqui já estão acostumados com isso, desde o Flamengo em 1981. Os brasileiros, vira e mexe, vão para lá. O Vasco já foi, o São Paulo várias vezes, o Inter, o Grêmio, enfim, todo mundo está acostumado. Acima da temperatura, que é muito fria nessa época do ano (estimativa de 4 a 5 graus), o mais importante é se adaptar ao fuso horário. São agora onze horas de diferença, por causa do horário de verão, e a adaptação é árdua. E a temperatura também, porque é mesmo muito frio. Tomara que não esteja chovendo, o que só agrava. Mas são coisas que com alguns dias o jogador vai se adaptar e vai jogar bem. Os gramados de lá, que são ótimos, mas são muito rápidos, com grama muita curta. A final é em Yokohama, onde o Brasil foi pentacampeão do mundo, e é um estádio excelente. Isso não é dificuldade, e a temperatura é adaptável. O maior problema mesmo o fuso horário e o poderio dos adversários.