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Ter Lula de volta deve beneficiar relações entre Brasil e China, diz especialista no país asiático

Para Arthur Kroeber, da consultoria Gavekal Dragonomics, mudança é 'claramente' positiva do ponto de vista diplomático, mas é necessário esperar para ver se negócios também serão atingidos de forma positiva

9 nov 2022 - 12h01
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RIO - O analista americano Arthur Kroeber, fundador da consultoria Gavekal Dragonomics, acredita que a esperada mudança na política externa de um terceiro governo do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é "claramente" positiva em relação à China, embora mais na esfera diplomática do que na comercial. Ao mesmo tempo, o especialista crê que o Brasil será pouco afetado por uma eventual piora nas relações entre chineses e americanos, que pode ocorrer dependendo dos resultados da eleição legislativa nos Estados Unidos, realizada na terça-feira, 8.

Kroeber tem uma visão não tão negativa sobre os impactos na economia da expansão de poder sem precedentes obtida pelo presidente Xi Jinping, no Congresso do Partido Comunista da China, realizado no mês passado. A seguir, os principais trechos da entrevista, concedida, de Nova York, na véspera da participação remota de Kroeber na Conferência Anual do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), realizada nesta quarta-feira, 9.

Há risco sistêmico para a economia?

Isso não levará a um problema econômico sistêmico, por duas razões. Uma é que a contaminação em outros setores, como a indústria do aço e do cimento, não foi tão ruim. Houve desaceleração, mas esses setores conseguiram se manter lucrativos. Os gastos em infraestrutura ajudaram, as exportações também. Então, a forte desaceleração no setor imobiliário não levou a um desastre no setor de materiais pesados. Em segundo lugar, se olharmos para o setor financeiro, cerca de 6% dos empréstimos bancários são para incorporadoras. O que não é muito, relativamente aos balanços dos maiores bancos sistemicamente importantes. E esses bancos têm elevados indicadores de capital e muitas provisões para perdas. Então, não vemos um estresse financeiro. O sistema consegue absorver mais perdas de incorporadoras. Como não há uma crise na indústria pesada e não há uma crise no setor financeiro, o governo concluiu que pode continuar apertando o setor imobiliário até atingir os resultados. Minha estimativa é que haverá ao menos mais dois ou três trimestres de políticas restritivas até que o governo esteja convencido de que é seguro voltar a aumentar fluxos de crédito para o setor imobiliário. É um problema muito severo, está retardando o crescimento econômico no curto prazo, mas a razão pela qual o governo está fazendo isso é por que eles acreditam que isso é necessário para estabelecer uma fundação de empresas para um crescimento de maior qualidade no futuro. É uma perda de curto prazo em nome de um ganho de longo prazo. A ideia é ter um esvaziamento controlado da bolha agora, em vez de esperar por um estouro descontrolado, talvez muito pior, daqui a três ou quatro anos.

E a política de "covid zero", que o sr. também citou como preocupação de curto prazo para a economia?

Há duas razões para manter a política de "covid zero". A primeira é que Xi apoiou a política pessoalmente, então tem muita credibilidade política depositada na ideia de que a China está lidando com a pandemia melhor do que outros países e está mantendo a população segura. A segunda razão é que, do ponto de vista da saúde pública, eles estão legitimamente preocupados de que, se fizessem como os outros países estão fazendo, se abrindo, haveria muitos casos, haveria muita gente nos hospitais e muitas mortes. Algumas estimativas de pesquisadores chineses apontam que 1,5 milhão poderiam morrer se eles abrissem como outros países.

Por causa do tamanho da população?

A população de idosos é grande, e o sistema de saúde pública não é adequado. O número de leitos de UTI por pessoa é menor do que em países desenvolvidos, então, se as pessoas ficarem doentes, há mais chances de morrerem. São preocupações razoáveis. Para eles abrirem, precisam estar convencidos de que poderão fazer isso sem uma grande crise no sistema de saúde. Para isso, precisam de vacinas mais efetivas e melhores tratamentos. É difícil enxergar isso nos próximos seis meses. Adicionalmente, temos o inverno (do Hemisfério Norte) chegando. Por isso, é muito difícil ver uma abertura significativa antes da próxima primavera (do Hemisfério Norte). Estamos começando a ver apenas algumas indicações que de poderão flexibilizar algo.

O que poderá ser flexibilizado?

Uma coisa que estão fazendo é aumentar o número de voos internacionais autorizados a ir para a China. Provavelmente, vão reduzir os requerimentos de quarentena (para visitantes estrangeiros). Eles podem fazer isso, é uma abertura muito controlada, sem mudar as políticas gerais. As razões pelas quais eles farão isso é porque há muitos chineses que têm filhos estudando fora do país. Outra razão é que muitos investimentos estrangeiros na China estão sendo adiados, por muitas razões, mas uma delas é que executivos estrangeiros não podem ir à China e fazer as reuniões preparatórias que seriam feitas normalmente. Atualmente, o fluxo de passageiros internacionais na China está em cerca de 3% do nível de antes da pandemia, embora acima do que estava no início deste ano. Elevar esse nível para 10%, provavelmente, daria conta das viagens de negócios.

Quais suas projeções para o crescimento do PIB da China este ano e no próximo?

Não fazemos projeções, mas nossa expectativa é de que o crescimento deste ano será de cerca de 3%. Para 2023, eu diria que provavelmente será entre 3% e 4%. O motivo pelo qual será um pouco melhor ano que vem é que, neste ano, eles essencialmente perderam um trimestre inteiro de crescimento no segundo trimestre, por causa do lockdown em Xangai. Se não houver outro lockdown no estilo desse de Xangai no próximo ano, as coisas se mantendo, será possível crescer mais, mesmo que ainda haja problemas com a política de "covid zero", com o setor imobiliário e com uma desaceleração nas exportações.

Quais as consequências desse crescimento menor na China para o Brasil?

Antes de tudo, algumas das consequências já estão sendo sentidas. Essa muito forte desaceleração do setor imobiliário teve impacto nos preços de commodities (matérias-primas cotadas internacionalmente). E isso continuará. A China está se movendo estruturalmente para um quadro de menor demanda por minério de ferro e todas as outras coisas que vão na construção. Então, há um problema cíclico, mas também um problema estrutural, porque a demanda chinesa por essas coisas será mais fraca. Só que fica mais complicado, porque, à medida que a demanda na China por aço se contrai, a indústria siderúrgica precisará focar mais em qualidade, em vez de apenas volume. E há uma tentativa de maximizar a eficiência da produção de aço, importando um minério de maior qualidade. Mesmo que a demanda agregada caia, é provável que a maior parte da contração seja sentida por produtores locais, que têm a pior qualidade. É uma equação complexa, mas, fundamentalmente, temos de nos acostumar com a ideia de que a longa tendência de a China adicionar mais e mais demanda por commodities ano a ano acabou. Agora, no longo prazo, há oportunidades para o Brasil na exportação de produtos agrícolas, como soja e carnes. Isso continua, porque o gosto do consumidor tende a aumentar de padrão. Além disso, os investimentos externos da China estão sendo recalibrados. Eles serão mais seletivos sobre o tipo de coisa no que estão investindo, tentarão garantir maiores retornos. O Brasil continua a ser um dos mais atrativos destinos para o investimento chinês, mas provavelmente eles serão mais seletivos.

A eleição do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) muda algo?

Claramente ajuda. Lula tem um longo histórico de ser receptivo à China. É benéfico do ponto de vista do Brasil. A questão é se as companhias chinesas verão o ambiente operacional do Brasil como capaz de oferecer bons retornos. O problema do Brasil sempre foi o ambiente operacional difícil, muita regulação e muitos tributos. Ter o Lula de volta será benéfico no nível diplomático. E a China está numa posição difícil, porque sua posição na Guerra da Ucrânia a fez muito impopular nos Estados Unidos e na Europa. Claramente é do interesse chinês ter a melhor relação possível com países como o Brasil. É uma oportunidade para estreitar a relação diplomática com o Brasil e isso se traduzir em mais investimentos.

E como fica o Brasil no meio das disputas entre China e Estados Unidos?

O foco da política americana para a China é tecnologia. O que o governo Biden está interessado é em reduzir o fluxo de tecnologia americana, como semicondutores, para a China. Em apoio a isso, eles podem tentar colocar alguma restrição aos fluxos de capital americano para a China. O Brasil de certa forma fica à parte disso, porque não está envolvido nessas questões tecnológicas. É, francamente, uma coisa boa. Vários aliados dos Estados Unidos vendem muitos bens de tecnologia para a China e ficaram numa posição difícil. O Brasil tem a vantagem de não ser afetado por esse jogo. Então, é razoável perseguir sua própria estratégia comercial com a China. No fim do dia, não acho que os Estados Unidos tenham muito interesse ou apetite para colocar muita pressão no Brasil sobre isso. Isso sob o governo Biden. Poderá haver mudanças daqui a dois anos (quando haverá eleições presidenciais nos Estados Unidos).

Estadão
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