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Moedas verdes impulsionam ações ambientais locais no Brasil

2 fev 2026 - 13h56
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Criação de sistemas monetários alternativos, baseados na troca de recicláveis e consumo de energia solar por créditos para uso em comércio local, crescem e já movimentam R$ 550 mil mensais no país.O comércio de salgados e bolos de Márcia Rodrigues, de 54 anos, começou na frente de casa apenas com uma fritadeira. Em oito anos, a comerciante superou vários desafios, inclusive as dificuldades impostas pela pandemia, e agora tem um ponto próprio. O crescimento trouxe novos equipamentos e clientes, mas também mais despesas.

Moradores do Conjunto Palmeiras ganham crédito em moeda solar por comprar energia de usina solar local
Moradores do Conjunto Palmeiras ganham crédito em moeda solar por comprar energia de usina solar local
Foto: DW / Deutsche Welle

A conta de energia do empreendimento subiu para cerca de R$ 1,3 mil mensais, então Márcia precisou encontrar alternativas para economizar e continuar investindo no negócio. Foi quando surgiu no ano passado, no bairro onde ela mora e trabalha, o Conjunto Palmeiras, em Fortaleza, no Ceará , a moeda solar .

É um crédito que Márcia ganha ao comprar cotas de quilowatts-hora gerados numa usina solar instalada no bairro e gerida por moradores. Em forma de moeda digital, ela pode usar o valor em estabelecimentos da região.

O que é feito no Conjunto Palmeiras é um tipo de iniciativa que tem se proliferado no Brasil. São as chamadas moedas verdes ou ambientais, um sistema que recompensa com créditos com valor equiparado ao real pessoas que realizam práticas ecológicas, como o consumo de energia solar ou a coleta de resíduos orgânicos e recicláveis.

Pelo menos 40 programas de governo de prefeitos eleitos no Brasil em 2024 tinham uma proposta de criar uma moeda verde, segundo levantamento feito por Eduardo Diniz, professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e pesquisador do Centro de Estudos de Microfinanças e Inclusão Financeira, também da FGV.

"Depois da eleição, identificamos 100 cidades querendo fazer moedas municipais. Dessas, umas 40 eram moedas verdes. Então, você tem uma coisa que está querendo aparecer com força", afirma.

Múltiplos modelos

Diniz, que está começando a mapear a presença das moedas verdes no Brasil, afirma que há três modelos mais comuns. Além destes vinculados ao poder público, há aqueles criados por cooperativas e outros associados a bancos comunitários.

A maioria está em cidades pequenas e médias. "Elas variam muito de uma pra outra, na forma de financiamento, modelo de circulação, restrição de usos, alcance e design", acrescenta Diniz. Um levantamento da Rede Brasileira de Bancos Comunitários e Municipais (RBBC) estima que há 50 mil pessoas usando moedas verdes, circulando por mês cerca de R$ 550 mil.

Santiago, no Rio Grande do Sul , tem duas moedas: a pila verde, que permite a troca de resíduos orgânicos por comidas nas feiras locais, e a pila azul, com a qual é possível trocar recicláveis por moedas para comprar ingressos para cinema, passagem de transporte público e aulas de atividades sociais e esportivas, como pilates.

A criação da primeira moeda, a pila verde, veio como uma medida para tentar reduzir os custos com a gestão de resíduos sólidos, que era o quinto maior gasto da prefeitura. "É um dos maiores custos dos municípios brasileiros, porque muitos não têm aterros sanitários", explica o prefeito de Santiago, Marcelo Gorski.

A iniciativa começou com dois pontos de coleta, hoje são 19, em que os moradores podem deixar os resíduos e receber a moeda, para usar nas feiras. O material coletado vira adubo para os feirantes usarem na sua plantação. "Nós fomos englobando várias possibilidades para que as pessoas façam a separação adequada dos resíduos", diz Gorski. São 3 mil pessoas cadastradas e 70 estabelecimentos alcançados.

Do outro lado do Brasil, na cidade de Igarapé-Açú, no Pará , a empreendedora Carolina Magalhães fundou o Movimento Moeda Verde preocupada com o descarte de lixo nos igarapés. Ela se inspirou numa iniciativa da Santa Cruz da Esperança, em São Paulo, para conter focos de proliferação de mosquitos.

"Um grupo de moradores se juntou e a ideia era criar uma feira onde as pessoas poderiam comprar com essa moeda depois de entregar o material reciclado. E a gente faria uma parceria com uma cooperativa de uma cidade próxima para vender o material", conta Magalhães.

O trabalho começou com a conscientização de crianças e eventos itinerantes, hoje já tem banco e oferece até microcréditos para empreendedores locais. Lá, a moeda é física, pelas limitações de conexão de internet. Atualmente, são 52 comércios cadastrados para receber a moeda. O projeto cresceu e saiu de 12 toneladas arrecadadas mês para 40.

"O retorno não é só financeiro, temos um retorno ambiental. Conseguimos reduzir em 68% o envio de recicláveis para o lixão", comemora Magalhães.

Do voucher à moeda

O surgimento das moedas verdes no Brasil está vinculado a duas práticas iniciadas a partir do fim dos anos 1980. Uma delas é a iniciativa "Compra do Lixo", implementada pelo ex-prefeito de Curitiba, no Paraná , Jaime Lerner (1937-2021) em 1989.

Para driblar a dificuldade de acesso dos caminhões de lixo em periferias da cidade, a prefeitura começou a estimular a coleta domiciliar, ofertando em troca vale-transporte à população. Depois disso, vieram outras iniciativas semelhantes, como a Moeda Verde, de Santo André , mas ainda numa dinâmica de troca de resíduos por vouchers ou serviços. Lá, a cada cinco quilos de recicláveis entregues, o morador recebe um quilo de frutas, legumes e verduras.

Na década de 1990, diante de um momento de inflação em alta, também começaram a surgir as moedas sociais, uma espécie de dinheiro alternativo que circula dentro de um local específico, como um bairro ou uma cidade. Elas também deram origem a bancos comunitários. Hoje, são 152 bancos comunitários e 182 moedas sociais no país, das quais 160 estão em circulação.

A primeira foi a moeda social Palmas, criada no Conjunto Palmeiras em 1998, mesma comunidade que desde o ano passado opera a moeda solar usada por Márcia. "Em 2016, começaram a surgir vários projetos nos bancos comunitários relacionados à questão climática , ambiental e de transição ecológica", explica Joaquim Melo, fundador do Banco Palmas e presidente da RBBC.

Dentro do escopo da rede, há três tipos de projetos em operação. O maior está relacionado à coleta seletiva, operando em quatro estados: Pará, Ceará, Espírito Santo e Rio de Janeiro. São cerca de 150 ecopontos onde os moradores depositam recicláveis e recebem o pagamento em moeda ambiental. Por mês, são retiradas dos ecopontos nos quatro estados 15 toneladas de resíduos. Em torno de R$ 400 mil mês vai para circulação em moeda verde, atingindo 15 mil pessoas.

O segundo modelo é o de resíduos orgânicos, em que os moradores são estimuladas a levar a coleta para composteiras comunitárias. Em Fortaleza, cada balde de cinco litros de resíduos orgânicos gera R$ 0,50 em moeda ambiental. São mais de 3 mil pessoas fazendo a coleta, e movimentando R$ 20 mil por mês.

"Isso ajuda a não ir lixo para o aterro, a prefeitura fica pagando menos porque não tem que levar esse resíduo. E ele também vira adubo orgânico, que a gente distribui para as hortas comunitárias", explica Melo.

O terceiro modelo é a moeda solar do Conjunto Palmeiras, um sistema de cashback para moradores que adquirem cotas de até 500 quilowatts-hora da usina associativa. A usina vende um quilowatts-hora por R$ 0,30, um quarto do valor cobrado pela distribuidora da cidade.

A população que aderiu recebe um boleto. Do que é pago, metade volta para eles em forma de moeda solar, a outra parte vai para um fundo. São 70 famílias participando do projeto, com expectativa de expansão para 100 e uma circulação mensal de R$ 6 mil. Há uma usina em operação, outra construída e outra em construção.

Internacionalmente, há casos de moedas verdes na Europa, como a Pago em Lixo, de Portugal, e nos Estados Unidos, e moedas solares, como a VillaWatt, na Espanha, e a Brooklyn Microgrid, nos Estados Unidos.

Impactos no meio ambiente e na economia local

Márcia Rodrigues tem conseguido economizar cerca de R$ 600 todo mês com o desconto proporcionado pela moeda solar, dinheiro que ela pretende reinvestir na infraestrutura do ponto que ocupa. Ela também comemora que pode usar a moeda para comprar nos mercadinhos do bairro, em vez de ir a grandes redes de supermercado.

As moedas verdes, analisa Eduardo Diniz, oferecem uma alternativa social, econômica e ambiental para comunidades desprivilegiadas. Além disso, possibilitam pensar uma nova forma de economia, em que o dinheiro não é controlado apenas pelo Estado. "Esse modelo de o Estado controlar a moeda tem cinco, seis séculos, mas a moeda é muito mais antiga que isso, desde que a humanidade começou a produzir excedentes", afirma.

Para Melo, as moedas verdes atacam um tripé. "Você protege o meio ambiente, aumenta a renda da família e também fortalece o comércio local."

A comerciante Rosiline Lima, de 63 anos, por exemplo, correlaciona a sobrevivência durante a pandemia e a expansão do seu negócio ao uso da moeda verde em Igarapé-Açú. "Quando chegou a pandemia, eu me vi sem perspectiva, precisava sobreviver. Eu comecei a fazer pão, botava numa bicicleta e saía pela rua", lembra.

Nessa época, ela já fazia coleta de recicláveis, mas deixava no quintal. Então, começou a entregar ao Movimento Moeda Verde e usava o dinheiro social para comprar os insumos para produzir os pães. Ela também acessou um microcrédito de R$ 300, que pagou com os recicláveis.

"Comecei a fazer campanha de reciclável, tanto na rua como com minha família, para pagar. E assim eu consegui fazer o pagamento. Hoje eu já tenho uma moto e montei um espaço para receber os clientes", comemora.

Nem tudo são flores

Apesar de vários exemplos bem sucedidos, o desenvolvimento de uma moeda verde enfrenta muitos desafios, inclusive nas comunidades onde ela opera. Em Santiago, Igarapé-Açú e no Conjunto Palmeiras foi preciso usar a criatividade para educar a população sobre a importância da coleta ou sobre o que é energia solar, bem como criar mecanismos para mantê-los engajados na participação.

"A gente sai na rua com o carro de som, tem assembleia com os moradores para explicar o que é a usina solar. Também temos o agente comunitário de energia, que vai de casa em casa, acompanhar as famílias", diz Melo.

"As pessoas se empolgam, mas rapidamente se desempolgam. A gente precisa inventar coisas para continuar promovendo a mudança de comportamento", acrescenta Magalhães.

Outro desafio da expansão das moedas verdes, para Melo, está, contraditoriamente, no modelo de transição energética que vem sendo adotado no Brasil, que, segundo ele, exclui da participação da população mais pobre. "Toda a matriz energética brasileira, toda a legislação, está voltada para as grandes usinas, para os grandes parques solares", critica.

Ele usa o exemplo dos impactos socioambientais das usinas eólicas no Ceará para fortalecer a crítica e diz que é preciso que o país entenda as moedas verdes como política pública. "O grande problema da transição ecológica, de projetos de créditos de carbono, etc., é que eles podem até reduzir o impacto climático, mas concentram renda na mão de novos bilionários", acrescenta.

De acordo com Eduardo Diniz, isso influencia na escalabilidade das moedas verdes. "Uma das minhas hipóteses para elas estarem mais em cidades pequenas e médias é que, nas cidades grandes, a estrutura de coleta de lixo é muito controlada, há uma pressão de certas empresas", analisa.

Há ainda um terceiro entrave, o desenvolvimento de pesquisas sobre moedas sociais e verdes. "A academia acaba gostando de estudar os megaproblemas e, às vezes, esquece de estudar modelos de pequena escala", aponta Diniz. Para ele, é preciso estudar o que funciona e não funciona, para apoiar as comunidades no desenvolvimento dos projetos.

Melo também defende a criação de marcos regulatórios, como legislações, e a ampliação de subsídios. "O Brasil gasta bilhões em subsídios para o setor de energia elétrica. Nós estamos dizendo, nós precisamos para fins sociais, para distribuir riqueza, temos um relevante trabalho econômico", diz.

Um dos sonhos de Carol Magalhães, por exemplo, é conseguir acessar os financiamentos dos bancos públicos e privados, mas isso ainda não aconteceu, mesmo com prêmios e reconhecimentos locais. "Estamos falando de economia, de circulação de moeda num território e quando fazemos isso, retemos riqueza aqui dentro", conclui.

Deutsche Welle A Deutsche Welle é a emissora internacional da Alemanha e produz jornalismo independente em 30 idiomas.
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