CEO do BTG defende plataformas de investimentos e pede cuidado em mudanças de regulação após Master
O presidente-executivo do BTG Pactual, Roberto Sallouti, afirmou nesta segunda-feira que eventos recentes envolvendo o Banco Master deixam claro que há espaço para aprimorar a regulação e a supervisão, mas defendeu cautela para evitar um retrocesso no acesso a investimentos.
"Entendemos que é preciso muito cuidado, como sociedade e como setor financeiro, para não retrocedermos a uma situação anterior à existência das plataformas de investimento, quando basicamente os clientes iam aos seus bancos e só tinham acesso a um depósito pagando cerca de 80% do CDI ou a um fundo de investimento com taxa de administração de 4%", afirmou.
O Banco Master foi liquidado no ano passado pelo Banco Central, após ganhar os holofotes com um crescimento agressivo financiado por emissão de dívida com promessa de retornos polpudos, o que resultou em um forte impacto nas reservas do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Até o dia 6 de fevereiro, já foram pagos R$36 bilhões em garantias a credores do conglomerado Master, o que representa 89% do montante a ser pago.
De acordo com Sallouti, o FGC tem um objetivo duplo desde a sua criação, sendo o primeiro proteger todos os investidores e o segundo fomentar a concorrência ao garantir funding para as instituições classificadas entre S3 e S5, que não possuem limites relevantes junto a investidores institucionais.
A segmentação S3, S4 e S5 do Banco Central classifica instituições financeiras pelo porte e risco proporcional ao PIB, definindo regras prudenciais, sendo S3 (médio porte/0,1% a 1% PIB), S4 (pequeno porte/<0,1% PIB) e S5 (risco simplificado, incluindo cooperativas e fintechs menores).
O presidente-executivo do BTG afirmou que plataformas de investimento ajudaram a democratizar o acesso e a oferecer boas oportunidades de investimento para todos, além de terem permitido o aumento da concorrência nos diferentes segmentos de crédito.
"Precisamos ter cuidado para não criar regras que façam com que as plataformas de investimento deixem de distribuir depósitos de instituições S3 a S5 ou tornem o custo para esses players tão elevado que inviabilize seus negócios", reforçou ao encerrar a teleconferência de resultados do BTG.
Nesta segunda-feira, o diretor de Regulação e de Organização do Sistema Financeiro e Resolução do Banco Central, Gilneu Vivan, disse que a autarquia deve incluir em sua lista de entregas para este ano ou início de 2027 a revisão de algumas regras do FGC.
DISCUSSÃO CARREGADA DE EMOÇÃO
No caso específico do Banco Master, Sallouti disse entender que o ponto mais importante foi a proteção dos investidores dentro dos limites do FGC.
"No nosso caso, distribuímos cerca de 10% da base de depósitos do Banco Master. Nem tudo foi distribuído diretamente pelo Banco Master; parte veio de aquisições realizadas pelo banco. E a verdade é que, quando começamos a perceber, no início de 2024, que o tratamento do balanço talvez não fosse adequado, reduzimos a distribuição e interrompemos totalmente essa atividade em outubro de 2024."
"Portanto, é claro que, quando se percebe que as atividades não justificam o tamanho ou a composição do balanço, é necessário agir de forma responsável. Mas, fora isso, precisamos contar com uma boa regulação por parte do FGC."
Sallouti acrescentou que a regulação provavelmente deve avançar no sentido de limitar o percentual de depósitos por plataforma e o percentual de depósitos distribuídos ao varejo.
"Ao mesmo tempo, acredito que o ambiente de supervisão — especialmente sobre os bancos classificados entre S3 e S5 — precisa ser reforçado, sobretudo quando o balanço dessas instituições atinge determinado porte. Isso provavelmente ajudará a evitar situações como as que estamos enfrentando atualmente. É importante lembrar que o problema estava nos ativos, e não nos passivos."
O executivo acrescentou que, "muitas vezes, essas discussões acabam ficando carregadas de emoção, mas é fundamental que tentemos preservar o que há de positivo nesse arcabouço construído ao longo de mais de duas décadas no Brasil".
Na semana passada, o presidente-executivo do Itaú Unibanco, Milton Maluhy Filho, afirmou que não se pode permitir que um evento como o que aconteceu envolvendo o Banco Master volte a acontecer. Ele citou que algumas plataformas utilizaram o FGC como forma de alavancagem de suas operações, viabilizando um modelo de negócio não sustentável.
Um dia antes, o presidente-executivo do Santander Brasil, Mario Leão, também disse que "o Brasil não deveria aceitar que um novo Banco Master pudesse acontecer". E ressaltou que o desafio daqui para a frente envolve como será a evolução das regras para evitar algo parecido.