Caso Epstein abala já desgastada imagem do Deutsche Bank
Arquivos do caso Epstein mostram que o financista chegou a manter mais de 40 contas no banco alemão, mesmo após ser condenado por crime sexual. Deutsche Bank diz reconhecer "erro".Em retrospecto, pode-se dizer que as relações comerciais com Jeffrey Epstein não foram uma boa decisão do Deutsche Bank.
O maior banco da Alemanha administrava grande parte do patrimônio do criminoso sexual, que chegou a ter mais de 40 contas na instituição financeira.
De acordo com o Wall Street Online, as ações do banco de Frankfurt caíram 5,49% em 4 de fevereiro, logo que foram divulgadas as primeiras informações sobre a mais recente leva de documentos do caso Epstein.
Epstein foi condenado por crimes sexuais em 2008 e morreu na prisão em agosto de 2019 - segundo as investigações, por suicídio - enquanto aguardava julgamento por acusações de abuso sexual de dezenas de mulheres, incluindo menores.
Políticos, personalidades do mundo acadêmico e famosos de todo o mundo estão nos documentos do caso Epstein. Embora os autos do inquérito sobre o caso tenham sido divulgados, ainda não é possível avaliar o grau de envolvimento de cada um dos nomes mencionados nos arquivos sobre o escândalo de abuso sexual e se outros crimes ainda virão à tona.
Que o nome do Deutsche Bank esteja nesses documentos pode parecer estranho num primeiro momento, mas só para quem não está familiarizado com a história recente do banco de Frankfurt nos Estados Unidos e os litígios judiciais em que a instituição se envolveu nos últimos anos.
Assim como outros envolvidos no escândalo, o Deutsche Bank lamenta as relações com Epstein. "Como tem sido enfatizado desde 2020, o banco reconhece seu erro ao aceitar Jeffrey Epstein como cliente em 2013", afirmou um porta-voz da instituição financeira em 9 de fevereiro.
Obrigação de verificar
O banco não enfrenta acusações de que algum de seus diretores tenha participado de festas de Epstein ou frequentado a ilha particular do magnata. Problemática, para o Deutsche Bank, é a prestação de serviços financeiros a Epstein, acusado de comandar uma rede de exploração sexual de menores.
O especialista em ética econômica Bernd Villhauer, consultor da Universidade de Tübingen, na Alemanha, diz que bancos têm a obrigação de verificar o ambiente de negócios de seus parceiros comerciais, independentemente das regulamentações legais e diretrizes de compliance.
"Justamente neste caso, deveria-se ter muito cuidado em estabelecer contato com alguém como Epstein, ou em apoiar seus negócios ao administrar contas para ele - e estamos falando de somas consideráveis", diz Villhauer.
Para o banco alemão, deveria estar claro com quem ele estava se envolvendo. O Deutsche Bank iniciou sua relação comercial com Epstein em 2013, depois que o banco JPMorgan rompeu relações com ele. Em 2008 o financista havia sido condenado por aliciar uma jovem de 14 anos para ter relações sexuais, num caso em que se declarou culpado.
Posteriormente, o JPMorgan pagou 290 milhões de dólares (R$ 1,5 milhão) em um acordo com vítimas de Epstein.
Lucro acima de tudo?
O Deutsche Bank manteve sua relação comercial com Epstein por meses após tê-lo notificado sobre o encerramento do contrato, no fim de 2018. Todas as contas só foram encerradas após a prisão do financista, em julho de 2019, como mostram documentos do Departamento de Justiça dos EUA.
Embora o banco tivesse dado a Epstein um prazo até 28 de fevereiro de 2019 para encerrar suas contas, em carta datada de 21 de dezembro de 2018, os serviços foram oferecidos a ele muito além dessa data.
De acordo com os documentos liberados pelo Departamento de Justiça dos EUA, o Deutsche Bank disponibilizou em curto prazo a quantia de 50 mil euros em "notas de grande valor" em 9 de abril de 2019, antes de uma viagem de Epstein à Europa. Mais duas requisições de dinheiro em espécie estão nos documentos.
Disponibilizar dinheiro em espécie, por si só, não é algo suspeito. "Existem relações com clientes em que, na minha opinião, não há absolutamente nenhum problema se alguém sacar 200 mil dólares ou mais em dinheiro. Um banco não deve se colocar na posição de juiz", avalia Villhauer.
No entanto, o contexto é determinante. "Se eu souber que alguém já esteve envolvido com tráfico de drogas - só como exemplo - e essa pessoa então saca uma quantia elevada, é claro que preciso ficar atento. É diferente de quando alguém diz que precisa imediatamente de uma quantia maior em dinheiro e pode comprovar onde vai usá‑la", diz o especialista.
O mesmo cuidado vale para as transferências bancárias. No caso de Epstein há descrições de finalidades como "aluguel", "mensalidades de estudos" ou "assuntos de imigração". Elas só soam suspeitas para quem conhece bem os negócios obscuros de Epstein.
Consequências possíveis
Villhauer diz que um banco deve ser capaz de "comunicar da forma mais transparente possível o que analisa e em que situações o faz". Além disso, as regras devem ser rígidas. "Principalmente um banco como o Deutsche Bank, que já foi alvo de discussões em vários contextos, faria bem em analisar a situação com mais atenção".
A profundidade da relação com Epstein ficou clara em 2020, quando o Deutsche Bank concordou em pagar uma multa de 150 milhões de dólares por controles inadequados de lavagem de dinheiro à autoridade financeira do Estado de Nova York, que acusou o banco alemão de ignorar os riscos de olho nos altos lucros, e mais 75 milhões de dólares às vítimas de Jeffrey Epstein como parte de um acordo.
Mas isso significa que o banco de Frankfurt já se livrou desse problema e de suas consequências? Para Villhauer, não. "Se uma instituição valoriza sua reputação e deseja fazer negócios de maneira moralmente correta, ela nunca está isenta de responsabilidade. O banco deve sempre se autoavaliar", diz.
Novas revelações não podem ser descartadas. Em Frankfurt, o desenrolar dos acontecimentos do caso Epstein certamente será acompanhado com muita atenção.