André Esteves: Brasil é Disneylândia para fintechs, que precisam ser reguladas
Para sócio do BTG, progresso da infraestrutura digital gerou maior inclusão ao sistema financeiro, mas é preciso proteger sociedade de ciberataques e fraudes
DAVOS - O sócio sênior e chairman do BTG Pactual, André Esteves, defendeu em debate nesta terça-feira, 20, no Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, que fintechs e outras instituições que tomam o mesmo risco dos bancos precisam ser reguladas da mesma forma.
"No Brasil, a infraestrutura digital progrediu muito rapidamente", disse Esteves. "É uma Disneylândia para fintechs", afirmou, ressaltando a boa infraestrutura bancária brasileira, que evoluiu em meio à disparada da inflação no passado, incluindo a de pagamentos, que permitiu o desenvolvimento do Pix. "Isso criou a infraestrutura para novos produtos, novas empresas, novos negócios."
Para a sociedade brasileira esse movimento foi bom, com maior inclusão das pessoas ao sistema financeiro, mas nesse ambiente cheio de novas empresas é preciso avançar na regulação, inclusive para proteger a sociedade de ciberataques e fraudes, disse.
Questionado se o BTG está perdendo mercado para esses novos participantes, Esteves disse que o banco originalmente foi um banco de atacado e a parte digital foi lançada há certa de dez anos. E neste momento ele afirmou, em tom de brincadeira, que está mais do lado das fintechs, que começaram a avançar no Brasil ao redor do mesmo período.
Esteves ressaltou que a jornada digital do BTG Pactual foi diferente de outros participantes do mercado. Há alguns anos, bancos de investimento tinham múltiplos mais baixos que bancos de varejo, pela percepção entre investidores que a presença das agências valorizava o negócio. Ou seja, a percepção era que a competição era mais fácil no atacado do que no varejo, por causa da rede. "Agora, é o oposto", disse Esteves, citando que, por conta das crescentes exigências regulatórias e de capital, é difícil tanto estabelecer bancos de investimento como de varejo.
Na avaliação dele, nesse ambiente, a competição no varejo aumentou, porque os bancos tradicionais passaram a ter como competidores empresas de tecnologia, que criaram seus bancos digitais. Pelo lado da sociedade, houve benefícios, porque aumentou o acesso das pessoas a bancos, além de serviços e produtos que eram caros ficaram mais baratos e acessíveis. "Foi uma transformação positiva que a tecnologia trouxe."
"O alerta que vem dessa transformação digital está provavelmente ligado à regulação", disse Esteves no debate. Na indústria bancária, segundo ele, há uma importante linha entre o que é regulado e o que não é. "Precisamos estar certos de que as pessoas que fornecem os mesmos serviços com a mesma tomada de risco devem ter a mesma regulação."
Questionado se este já não é o caso agora, Esteves respondeu que não, citando crescentes arbitragens entre os agentes, como fintechs e bancos tradicionais, seguradoras, empresas do mercado de capitais e bancos. "É um desafio, porque toda vez que há uma grande transformação, há um desafio como esse", disse ele. "Considero um desafio natural."
O sócio do BTG disse que a regulação que veio após a crise financeira mundial de 2008 deixou o sistema bancário mais previsível e seguro. Mas não pode agora existir um sistema paralelo, com esses novos agentes, sem regras semelhantes.
Inteligência artificial
No debate, o tema final foi sobre o papel da inteligência artificial (IA) nos bancos. Esteves disse que, por enquanto, a questão está ligada mais aos ganhos de produtividade, que tem dominado as conversas e deve continuar assim por cerca de dois a três anos. Em alguns poucos anos, vai começar efetivamente a afetar linhas de produtos, criando produtos e serviços baseados em IA. "Haverá novas formas de fazer negócios financeiros usando a IA."
No debate, participaram o presidente do Banco Central do Catar, Sheikh Bandar Bin Mohammed Bin Saoud al-Thani, e a CEO do alemão Commerzbank, Bettina Orlopp, além do presidente do Royal Bank of Canadá (RBC), David McKay.