'Ainda não dá para dizer que o pior já passou', diz Zeina Latif; leia entrevista
Recuperar a imagem no setor ambiental é tarefa urgente para atrair recursos, afirma a economista
Com um pé na academia - fez doutorado em Economia pela USP - e o outro na política - foi secretária, até dois meses atrás, do governo Rodrigo Garcia, em São Paulo -, a campineira Zeina Latif se mostrou uma analista competente ao lançar, em abril passado, o livro Nós do Brasil - Nossa Herança e Nossas Escolhas, onde reavalia os entraves ao crescimento do País.
Nesta conversa com Cenários, Zeina junta passado e presente para falar do Brasil 2023, onde ela vê "uma classe trabalhadora muito machucada" pela inflação, "usando mais crédito rotativo e indignada com a forma como Bolsonaro tratou a saúde". E acrescenta: "Não dá para dizer que o pior já passou".
Na virada prevista para 2023, ela aponta como tarefa urgente do próximo governo "reconquistar a reputação perdida na área ambiental". "São os ventos de fora", adverte, "que vão definir nossa capacidade de inserção na economia mundial." A seguir, trechos mais importantes da conversa.
Estamos às vésperas de um novo governo. O que acha que vai mudar em 2023?
O que estamos vendo, na dinâmica mundial, é a preocupação com questões ambientais, e isso é mandatório mudar. Tem de redirecionar, reconquistar a reputação lá fora, com um plano ao mesmo tempo viável e ambicioso. Comparo este momento com o dos valores democráticos nos anos 1970 e 1980, em que o mundo aprofundava a globalização, e o Brasil passava constrangimentos pela ditadura militar. Então, são ventos de fora que vão definir a nossa capacidade de inserção mundial.
Na prática, isso significa...
... que o Brasil é uma economia muito fechada. Quando a gente vê as barreiras tarifárias, é que se percebe que isso nos coloca numa situação de isolamento. A agenda ESG é que pode abrir uma porta para investimentos.
A imagem do Brasil lá fora é tão ruim como parece?
É difícil avaliar, os públicos são diferentes. Temos os europeus e temos outros players, como a China. É preciso separar o que é visão do Brasil e o que é desgaste do governo Bolsonaro. Mas o Brasil não é visto como um país de políticas públicas adequadas. Há uma boa vontade em função da transição política, mas é claro que haverá cobrança por resultados concretos.
Como conselheira do SOS Mata Atlântica, acompanho isso há 15 anos. E às vezes me parece que lá fora aproveitam nossa fragilidade para bloquear nossos produtos. É isso mesmo?
É possível que isso exista, de fato, mas vejo também uma resistência nossa. No caso, os temores do setor produtivo com as agendas de abertura da economia. Essa complexidade das normas, das regras não tarifárias, tem a ver com a nossa escolha, ao longo do tempo, de ter uma economia fechada.
E como vê nisso o debate sobre a reforma tributária? O governo deixou passar uma chance?
Eu entendo que sim. Passada a aprovação da reforma da Previdência, em 2019, era o momento de avançar a tributária, a PEC 45 da Câmara. Havia então condições políticas para isso.
E quanto à inflação e taxa de juros? Acha que o Banco Central tem acertado na sua estratégia?
É nítido que houve excessos nas políticas de estímulo por conta da pandemia, principalmente no lado fiscal. Era um tema em que eu pensava: "Olha, vai dar dor de cabeça". Depois, percebendo a atuação dos BCs mundo afora, vi que a injeção de liquidez dos BCs de países ricos em 2020 foi três vezes maior que a de 2008. Bom, não teve jeito, a inflação voltou e o nosso BC começou a subir juros antes do resto do mundo. Também porque aqui a inflação começou a subir antes.
A que atribui tanta dificuldade dos nossos governantes em lidar com o tema?
Eu diria que não podemos subestimar essa questão da inflação e o quanto a nossa sociedade valoriza a inflação baixa. Nos protestos de 2013, os jovens foram às ruas reclamar de tarifa de ônibus, mas aquilo já incluía a inflação, estava tudo subindo. Não consigo dissociar o impeachment da presidente Dilma da desarrumação da economia. O (Michel) Temer chegou com baixíssima taxa de aprovação, menos de 5%, tocou as reformas, entregou a economia para o Bolsonaro num ambiente muito mais saudável. Não teve um "fora Temer", mesmo depois do escândalo político que o envolveu.
Isso pesou no cenário que vivemos hoje no País?
A provocação que eu faço é a seguinte: será que essa inflação alta não machucou o eleitor do Bolsonaro? Se você compara os números de 2018 e agora, onde foi que ele perdeu mais votos? No Sudeste. Uma região que não conseguiu se beneficiar, como o Centro-Oeste, dos lucros das commodities.
Como ressaltava o governo Bill Clinton, "é a economia, estúpido!". Não é isso?
Sim. E eu gosto de citar uma pesquisa da professora Esther Solano sobre as classes populares, uma parcela muito indignada com a forma como Bolsonaro lidou com a saúde. A gente vê essa parcela muito machucada, usando mais crédito rotativo, inadimplência subindo, classe média encolhendo. Ainda não dá para dizer que o pior já passou.