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O BBB não cria ‘monstros’, apenas revela as ‘sombras’ dos participantes e do público, diz psicanalista

Para Elizandra Souza, há uma distinção equivocada entre o bem e o mal no reality show

15 fev 2026 - 09h27
(atualizado às 09h27)
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Eliminados no ‘Paredão’, desclassificados por atitude agressiva ou desistente por apertar o botão, os oitos primeiros participantes a deixar a casa do ‘BBB26’ saíram com imagem pública abalada e quase todos com fama de vilão.

Esta edição do reality show da Globo se tornou uma máquina de moer reputações. Por que tantos comportamentos equivocados e como explicar o julgamento implacável dos telespectadores?

Em entrevista à coluna, a psicanalista e professora de formação em Psicanálise Elizandra Souza, autora do livro ‘As Sombras do Eu: Psicopatologias da Maldade’, ressalta a projeção do público nos participantes e a pressa em defini-los como bons ou maus, paladinos ou algozes.

Comenta ainda a respeito da importância de limitar o impacto das redes sociais na vida cotidiana a fim de garantir a saúde mental.

Competidores do 'BBB26' enfrentam avaliação maniqueísta do público, separados entre bons a serem apoiados e maus merecedores de condenação
Competidores do 'BBB26' enfrentam avaliação maniqueísta do público, separados entre bons a serem apoiados e maus merecedores de condenação
Foto: Reproduções

A experiência de confinamento em um reality show pode aflorar as ‘sombras’ de uma pessoa, tema de seu livro?

Sim. O reality show é um laboratório social que funciona como um catalisador para as nossas ‘sombras’. Em nossa vida cotidiana, como Freud explica no conceito de ‘mal-estar na civilização’, nós reprimimos constantemente nossas pulsões mais primitivas — agressividade, inveja, libido descontrolada — para conviver em sociedade. Usamos máscaras sociais como defesa para manter essas sombras sob controle. O confinamento pode destruir essa estrutura, removendo as válvulas de escape habituais, enquanto submete o indivíduo a uma pressão extrema: vigilância 24 horas, competição, privação de sono e a convivência forçada. Nesse ambiente, as defesas psíquicas enfraquecem e o que foi reprimido retorna com força. A agressividade pode emergir de forma bruta, não mais mediada pela civilidade. O que vemos na tela não é a criação de um ‘monstro’, mas a revelação do que já existe em estado latente em cada um de nós, nossas sombras mais profundas que, sem os freios sociais, vêm à tona.

O participante Pedro saiu do ‘BBB26’ direto para uma clínica psiquiátrica. A pressão de um reality show pode agravar os transtornos já existentes e gerar outros?

Sim, a pressão de um reality show é um gatilho potente. É importante fazer uma distinção: o programa não necessariamente ‘gera’ um transtorno ou alguma patologia mental, mas pode descompensar uma estrutura que já era frágil. Uma pessoa com uma estrutura frágil pode ver seus sintomas explodirem em um ambiente de desconfiança constante. Uma pessoa que depende da admiração alheia, pode entrar em colapso ao enfrentar a rejeição do público ou dos colegas, sofrendo uma ‘ferida narcísica’ insuportável. O confinamento pode gerar uma perda de referências da realidade, junto com a vigilância constante e a pressão psicológica podem ser o estopim para um surto. A linha que separa o real do imaginário se apaga, e o sujeito pode mergulhar em delírios persecutórios. O que aconteceu com Pedro é um exemplo trágico de como um ambiente artificialmente estressante pode levar uma estrutura psíquica ao seu limite, exigindo intervenção imediata para evitar um dano permanente.

A circunstância de confinamento e a pressão psicológica tiram os 'freios sociais' e fazem os participantes do reality revelarem comportamentos ocultados no dia a dia, afirma Elizandra Souza
A circunstância de confinamento e a pressão psicológica tiram os 'freios sociais' e fazem os participantes do reality revelarem comportamentos ocultados no dia a dia, afirma Elizandra Souza
Foto: Divulgação

O formato do reality show induz o público a definir cada participante como herói, vilão ou jogador descartável. Como explicar esse maniqueísmo radical que reduz pessoas a rótulos?

Esse maniqueísmo (a divisão radical entre bem e mal) é um mecanismo psicológico do próprio público que pode enxergar esses atributos nos participantes, pois todos nós temos aspectos que consideramos ‘bons’ (nossos ideais) e ‘maus’ (nossas sombras, como a inveja, o egoísmo, a raiva). É psicologicamente desconfortável admitir nossa própria ambivalência. Portanto, o público projeta suas próprias sombras no participante eleito como ‘vilão’. Ele se torna o depositário de toda a maldade que não queremos reconhecer em nós mesmos. Odiá-lo é uma forma de expurgar nosso próprio lado sombrio de forma segura. Da mesma forma, projetamos nossas qualidades idealizadas no ‘herói’, que passa a representar tudo o que aspiramos ser. Reduzir pessoas a rótulos simplifica a realidade e a torna mais palatável. É mais fácil amar um herói e odiar um vilão do que lidar com o fato de que todo ser humano é uma mistura complexa de luz e sombra, inclusive nós mesmos.

Muitos competidores precisam iniciar psicoterapia após deixar um reality show. Seria um estresse pós-traumático?

Sim, podemos considerar estresse pós-traumático (TEPT), mas a psicanálise oferece uma leitura mais profunda. O trauma não é apenas um evento, mas uma série de experiências que quebram a estrutura psíquica do sujeito. O ex-participante lida com múltiplos traumas como ser eliminado e sentir-se rejeitado pelo público. Isso pode ser vivido como um abandono devastador. A perda da identidade, também é um fator que pode contribuir para esse estresse, quando durante muito tempo a pessoa vive como um ‘personagem’ sob o olhar do outro. Ao sair, há uma confusão entre a pessoa real e a persona pública. O participante é exposto a um julgamento massivo e cruel nas redes sociais. Sua imagem é dissecada, criticada e, muitas vezes, ‘cancelada’. Isso representa um ataque direto ao seu ‘Eu’, à sua autoimagem, que pode levar a quadros de estresse e depressivos graves.

As redes sociais são um ambiente nocivo à saúde mental. Como fazer parte desse mundo digital, onde estamos expostos a julgamentos cruéis, sem adoecer?

O narcisismo é uma das grandes questões do nosso tempo, e as redes sociais são o seu palco principal. Sobreviver a elas exige um trabalho psíquico ativo. Uma forma de não ser tão afetado é construir um senso de valor que não dependa exclusivamente da validação externa (curtidas, comentários). Entender que o ódio e os julgamentos cruéis que recebemos dizem mais sobre as ‘sombras’ de quem projeta do que sobre nós mesmos. O hater está, na verdade, atacando em nós algo que ele não suporta em si mesmo. Essa compreensão cria um distanciamento protetor. Por outro lado, ter a clareza de que nosso perfil online é um recorte, uma persona, e não a totalidade do nosso ser. É preciso cultivar uma vida e relações ‘offline’ que nutram nosso senso de identidade para além da tela. Não há saúde mental sem limites. É preciso limitar o tempo de tela e, principalmente, encontrar outras fontes de satisfação e validação (trabalho, arte, esportes, relações reais). A psicanálise chama isso de sublimação: canalizar nossas pulsões para atividades socialmente produtivas e criativas, em vez de buscarmos a satisfação imediata e perigosa do palco digital. Em suma, a proteção não está em se esconder, mas em fortalecer o mundo interno para que o barulho do mundo externo não nos defina nem nos destrua.

O público gosta fazer uma divisão apressada dos competidores do 'BBB' entre bons e maus; o tempo se encarrega de mostrar eventuais equívocos de julgamento
O público gosta fazer uma divisão apressada dos competidores do 'BBB' entre bons e maus; o tempo se encarrega de mostrar eventuais equívocos de julgamento
Foto: Ilustração feita com IA Gemini/Google
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