Bolsa Família, “Palestina livre”, valores da direita: BBB26 vira reality de militância
Programa reflete a guerra ideológica na sociedade e eliminações parecem influenciadas por ódio político
O ‘Big Brother Brasil’ está contaminado de teor político. As redes sociais enxergam a casa dividida entre participantes de direita, liderados por Cowboy, e competidores de esquerda, comandados por Ana Paula Renault.
Além disso, alguns confinados comentam abertamente sobre temas sensíveis interpretados como ideológicos.
A própria Ana Paula já defendeu o Bolsa Família, criado no primeiro mandato do presidente Lula, e refutou o conceito de meritocracia ao afirmar que “nem todos partem do mesmo lugar”.
Ainda que não seja aliada dela no jogo, Marciele disse que, fora da casa, segue a mesma “visão social e política” da jornalista, ou seja, progressista que defende forte atuação assistencial do Estado.
Em uma festa, Babu — que faz recorrentes citações engajadas sobre a “favela” — levantou um braço (lembrando o gesto antirracista do grupo Panteras Negras) e pediu “paz no mundo, paz para a Palestina, Palestina livre”.
No outro lado do espectro político, o legendário católico Brígido deixou claro ter entrado no ‘BBB’ para se opor ao pensamento de Ana Paula. Não conquistou apoio popular: foi eliminado com quase 80% dos votos.
Mesmo sem fazer ativismo diante das câmeras, Cowboy é visto como representante informal dos conservadores, especialmente daqueles que vivem nas regiões do agronegócio e dos que se mudaram para a Flórida, o paraíso dos eleitores de Donald Trump.
Sarah se declarou “de direita” no podcast ‘JP News Em Off’ no ano passado. “Nas épocas em que a gente estava com a política de direita, o Brasil cresceu muito mais”, argumentou.
Esse posicionamento declarado a fez entrar na casa já sob críticas e suscitar numerosa torcida por sua saída. Não resistiu à primeira ida ao Paredão.
O clima de guerra eleitoral no ‘Big Brother Brasil’ começou antes mesmo de a atração começar. Na transmissão de uma dinâmica na ‘Casa de Vidro Sudeste’, a câmera da Globo mostrou um cartaz levantado por uma espectadora onde se lia ‘Lula reeleito 2026’.
Quando o embate ideológico passa a ocupar o centro da narrativa, o risco é que a função primordial do reality show — o entretenimento — seja diluída em disputas que extrapolam a competição.
Sob esse prisma, o público tende a reduzir os participantes a rótulos políticos, transformando cada atitude em prova de alinhamento ou oposição aos líderes da esquerda e da direita.
Esse cenário também altera como os competidores são julgados. Eles passam a ser amados ou odiados de maneira maniqueísta, separados entre ‘bons’ e ‘maus’.
A votação nos Paredões, que deveria refletir carisma, jogo e identificação emocional, pode se tornar um plebiscito eleitoral marcado por cancelamentos rápidos, torcida organizada e pouca disposição ao diálogo.
Embora o ‘BBB’ funcione como espelho da sociedade brasileira ainda profundamente polarizada, há um limite delicado entre refletir o mundo e reproduzir suas tensões mais corrosivas.
Afinal, as pessoas ligam a TV interessadas em se divertir com o programa, não para ver a extensão das cansativas brigas políticas que deixam as redes sociais cada vez mais tóxicas e com efeito repelente.