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Markus Zusak troca a ficção pela vida com cães em novo livro: 'É abraçar o caos'

Em conversa com o 'Estadão', autor de 'A Menina que Roubava Livros' fala sobre 'Três Cães Selvagens', seu primeiro livro de não ficção, e comenta sobre memória, escrita e sua relação com o Brasil

1 fev 2026 - 06h11
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O autor australiano Markus Zusak ficou conhecido mundialmente pelo best-seller A Menina que Roubava Livros. Mais de uma década depois, lançou O Construtor de Pontes, obra densa que reafirmou seu lugar entre os grandes nomes da literatura contemporânea. Juntos, os dois livros somam mais de 3 milhões de exemplares vendidos no Brasil.

Agora, Zusak apresenta seu primeiro livro de não ficção — em um registro completamente diferente. Em Três Cães Selvagens (e a verdade): Memórias, publicado pela Intrínseca, ele abre a intimidade de sua casa e da relação com seus três cães em uma escrita leve, bem-humorada e marcada pela identificação imediata com o leitor. Afinal, quem nunca passou vergonha com o cachorro no meio da rua ou gastou uma pequena fortuna com veterinários e sustos inesperados?

Depois do sucesso de A Menina que Roubava Livros, em 2005, Zusak demorou longos 13 anos para escrever e lançar O Construtor de Pontes, livro que ele considera melhor que o primeiro "em vários aspectos". "Na verdade, foi muito difícil escrevê-lo", recorda. Porém, com Três Cães Selvagens, o processo foi diferente: "Me fez lembrar de quando eu tinha 16 anos e estava tentando escrever meu primeiro livro, e quanta alegria havia nisso".

'Conversando com seu melhor amigo'

"Não há nada como ter uma briga com seu cachorro em uma rua movimentada da cidade". Com essa frase, Zusak inicia o novo livro e apresenta ao leitor Frosty, o terceiro (e talvez mais selvagem) dos cães protagonistas.

Reuben, Archer e Frost moldaram Markus e sua família, e é essa relação que ele constrói e repassa ao leitor em 224 páginas. Na obra, o Zusak mescla, com sensibilidade e humor, episódios marcantes da sua vida ao lado dos seus companheiros e deixa claro: "o livro não é um guia de como treinar seu cachorro", mas traz momentos que todo leitor que tem um animal de estimação vai se identificar.

"Era essa a sensação que eu queria dar ao livro: como se você estivesse conversando com seu melhor amigo", confessou Zusak, que conversou com o Estadão na companhia do sonhador (e falante) Frosty. Compartilhando momentos mais recentes vividos ao lado do seu companheiro, Markus falou sobre suas inspirações, dividiu detalhes sobre seu processo de escrita, e ainda suas lembranças sobre o Brasil (ele esteve no Rio de Janeiro em 2007 para participar da Bienal do Livro Rio).

Markus descreve A Menina que Roubava Livros como uma obra convidativa e que encoraja o leitor a ir até o final da história. Ao falar de O Construtor de Pontes, no entanto, admite que exige um comprometimento mais profundo por parte do leitor, mesmo considerando um livro superior ao primeiro.

"Acho que o grande problema de O construtor de Pontes é que, embora a escrita seja interessante do começo ao fim, há muita coisa condensada na história. E é como às vezes acontece quando você assiste a um filme e sente que ele não funcionou muito bem. Geralmente é porque há muita coisa nele", admite.

Entre cadernos e anotações: o método Zusak

Durante a conversa com a reportagem, Markus faz questão de buscar seus cadernos de anotação e mostrar em detalhes seu processo de escrita.

"Eu usei cerca de 15 cadernos para escrever O Construtor de Pontes", conta. Seu processo consiste em preencher os cadernos com títulos de capítulos, criando uma "visão geral" do livro, o que o ajuda a "viver no mundo da história contada".

Nos cadernos, Zusak monta estruturas organizadas (por exemplo, A Menina que Roubava Livros tem 10 partes com 8 capítulos cada, além de prólogo e epílogo) para proporcionar segurança na hora da escrita e auxiliar no processo criativo. "É como se eu estivesse assistindo ao livro como se fosse um filme, e o que eu estou fazendo, criando esses títulos, é apenas um lembrete de que estou entrando em um outro mundo".

Uma relação afetiva com o Brasil

Sua relação com o Brasil começa com o relacionamento construído com sua editora por aqui, a Intrínseca. Zusak confessa que a tradução de The Book thief (A Menina que Roubava Livros) para o português é sua favorita e que a ideia foi do editor Jorge Oakim, fundador e CEO da Intrínseca.

"Ele me disse que tinha uma ideia diferente para o título do livro em português: 'Mas você tem que confiar em mim, porque é um título longo', ele disse. E quando eu ouvi, entendi: Soa lindo mesmo em português, A Menina que Roubava Livros", diz, na sua melhor tentativa de reproduzir nosso idioma.

Na sua memória, além de um passeio de helicóptero pelo Rio com uma vista panorâmica do Cristo Redentor ("É o lugar mais incrível que já visitei"), Zusak guarda elogios para os fãs brasileiros.

"Estive no Brasil em 2007, o que parece ter sido há mil anos, mas ainda é o período mais incrível que já vivi trabalhando com livros", conta. "E o que eu amei foi ver o quão acolhedores todos os leitores eram. Eles não tinham medo de demonstrar suas emoções", comenta o australiano, fazendo comparações com seus conterrâneos: "Nós somos muito tranquilos, mas também muito reservados em relação às nossas emoções, por isso eu amei a empolgação que vi no Brasil".

Markus também cita seus livros e filmes brasileiros favoritos. Cidade de Deus (que até aparece em um trecho de Três Cães Selvagens) e Central do Brasil estão entre os longas aos quais ele já assistiu e gostou.

Mostrando seus exemplares de Cidade de Deus (que comprou no Rio de Janeiro) e Perto do coração selvagem, de Clarice Lispector, Zusak também cita Vastas emoções e pensamentos imperfeitos, de Rubem Fonseca, e o clássico Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, livros que leu e aprovou. "Também aceito indicações para que eu possa fazer minha lição de casa", brinca.

Próximos projetos

Com seu novo livro chegando agora às livrarias brasileiras, Zusak diz ter uma outra história em mente "já há alguns anos".

Sem dar muitos spoilers, ele adianta que é a história de uma garota e um cavalo. "Tive essa ideia porque havia um cavalo aqui na Austrália que era muito famoso, de certa forma, porque ele sempre vencia, saindo da última posição e chegando em primeiro lugar. E então, um dia, esse cavalo simplesmente parou de pular no início da corrida - quando os cavalos saltam e o portão se abre - e não queria mais correr".

Markus conta que pensar no quão difícil é para eles se manterem sempre firmes e também na força do cavalo em resistir à reação natural de pular no início da corrida lhe deu a ideia para um novo livro. "Terminei todo o trabalho que envolve o livro, todas as pesquisas 'ao redor', agora é sentar e começar a escrever".

Três Cães Selvagens (e a verdade): Memórias, de Markus Zusak

  • Editora Intrínseca
  • Tradução: Regiane Winarski
  • 224 págs.; R$ 69,90 | R$ 42,21 o e-book
Estadão
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