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Gisèle Pelicot, sobrevivente de estupros em série, relata sua provação em livro de memórias

17 fev 2026 - 12h30
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Gisèle Pelicot, francesa cujo marido foi condenado ‌por convidar dezenas de homens para estuprá-la enquanto estava inconsciente, lançou suas memórias, relatando os horrores que sofreu e por que decidiu tornar público um julgamento que chocou o mundo.

"Um hino à vida", publicado nesta terça-feira, reconstitui o caso de estupro coletivo de 2024 que transformou Pelicot, 73, em um símbolo global da luta contra ⁠a violência sexual -- e que levou a França a reformular sua lei sobre estupro.

Explicando ‌sua decisão de renunciar ao direito ao anonimato, ela escreveu: "Ninguém jamais saberia o que eles fizeram comigo... Ninguém além dos envolvidos no julgamento veria seus rostos, ‌olharia para eles de cima a baixo e se ‌perguntaria como identificar os estupradores entre seus vizinhos e colegas".

Descrevendo o momento ⁠em que soube que seu marido a havia drogado e estuprado durante anos, ela escreveu que a polícia inicialmente perguntou se ela e seu então marido eram swingers. Quando ela respondeu que não, mostraram-lhe imagens dela, inconsciente na cama com homens desconhecidos.

"O policial diz um número. Ele me diz que 53 homens foram à minha ‌casa para me estuprar", diz o livro de memórias.

Ela então relata como voltou para casa ‌e pendurou a roupa ⁠lavada do marido. "Eu era ⁠como um cachorro esperando pelo seu dono no portão do jardim", escreveu Pelicot.

Ela também descreve a ⁠difícil tarefa de contar aos amigos e, ‌especialmente, aos filhos, e como ‌estava ciente de que sua filha Caroline estava prestes a "passar pelo inferno e voltar".

Além de seu agora ex-marido Dominique Pelicot, 50 homens foram condenados por estuprar Gisèle Pelicot.

"A FÉ NAS PESSOAS... É A MINHA VINGANÇA"

Durante o julgamento, Gisèle ⁠Pelicot nunca se dirigiu diretamente a Dominique Pelicot, mas escreveu que planejava visitá-lo na prisão para buscar respostas.

"Você já pensou: 'Eu preciso parar'? Você abusou da nossa filha? Você cometeu o crime mais abjeto de todos? Você tem ideia do inferno em que estamos vivendo? ... Você matou? ... Vou fazer ‌todas essas perguntas a ele. Preciso de respostas; ele me deve isso."

Pelicot diz que tirou força das milhares de cartas que recebeu de mulheres de todo o ⁠mundo e das mulheres que esperavam do lado de fora do tribunal.

"Pouco depois do início do julgamento, comecei a receber um monte de correspondência no final de cada dia... Preferia ler as cartas delas a ler os jornais; elas me davam a oportunidade de ouvir as vozes das mulheres", escreveu ela.

"Como eu poderia dizer às mulheres... que a presença delas do lado de fora do tribunal amenizou para mim o que estava acontecendo lá dentro?"

Em seu livro, Pelicot também descreve como reencontrou o amor com um homem que conheceu por meio de amigos em comum.

Na noite em que o conheceu, ela lembrou no livro que "ficou tonta de felicidade".

"Eu precisava amar novamente. Não tinha medo. ... Ainda tenho fé nas pessoas. Antes, essa era minha maior fraqueza. Agora é minha força. Minha vingança."

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