Script = https://s1.trrsf.com/update-1781903735/fe/zaz-ui-t360/_js/transition.min.js
PUBLICIDADE
Publicidade

Por que 'Total Eclipse of the Heart' é a canção pop mais dramática já feita?

Com a notícia da morte de Bonnie Tyler aos 75 anos, avaliamos o que fez de sua canção melodramática sobre amor obsessivo um sucesso global estrondoso que segue atual até hoje.

9 jul 2026 - 13h49
(atualizado às 17h33)
Compartilhar
Exibir comentários
Total Eclipse of the Heart foi o maior sucesso da carreira de Bonnie Tyler
Total Eclipse of the Heart foi o maior sucesso da carreira de Bonnie Tyler
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Certo dia, no verão de 1982, o vocalista canadense Rory Dodd foi chamado ao estúdio de gravação Power Station, em Nova York, para emprestar sua voz a uma música escrita e produzida por seu colega e amigo Jim Steinman para a cantora galesa Bonnie Tyler — que morreu esta semana aos 75 anos.

"Jesus! Tem de tudo nessa música", exclamou Dodd ao ouvir a impressionante mixagem final da faixa.

A música era Total Eclipse of the Heart. Lançada em fevereiro de 1983, essa ária gótica tornou-se um sucesso internacional sem precedentes que ampliou os limites do melodrama na música pop. Ela chegou ao topo das paradas do Reino Unido, desbancando Billie Jean, de Michael Jackson; foi um sucesso ainda maior nos Estados Unidos; e alcançou o primeiro lugar em diversos países.

Tyler era uma candidata improvável a esse nível de domínio nas paradas, já que sua carreira havia perdido força desde seu sucesso de 1977, It's a Heartache.

Impressionada com seu trabalho compondo e produzindo a obra-prima de Meat Loaf, Bat Out of Hell (1977), Tyler pediu à CBS Records que Steinman colaborasse com ela em seu álbum seguinte.

"A gravadora, na época, achava que eu estava louca", disse ela à BBC. "Eles jamais imaginaram que isso daria certo."

Mas Steinman concordou em trabalhar com Tyler, percebendo um potencial inexplorado em sua voz, que ele comparava, em seu poder rouco, à de Janis Joplin. Ele descreveu Total Eclipse of the Heart como uma "canção febril" sobre o lado mais sombrio e obsessivo do amor e como "um exorcismo ao qual se pode dançar".

A música é considerada uma das "power ballads" mais icônicas da história, frequentemente aparecendo em posições de destaque em listas retrospectivas ao lado de clássicos como Alone, do Heart; Faithfully, do Journey; e I Want to Know What Love Is, do Foreigner.

É fácil entender por quê: a versão completa do álbum tem sete minutos de grandiosidade sem limites.

Dodd, que interpreta as assombrosas partes vocais de "turn around", descreve a combinação de seu tenor melancólico com o uivo rouco de Tyler como "A Bela e a Fera", mas ao contrário.

"Eu não sei o que fazer / E estou sempre no escuro / Estamos vivendo sobre um barril de pólvora e soltando faíscas", lamenta Tyler, cantando sobre uma paixão romântica que a domina a ponto do colapso.

Após o primeiro refrão, um turbilhão de tambores e explosões leva a música a alturas apocalípticas.

"Juntos podemos ir até o fim da linha / Seu amor é como uma sombra sobre mim o tempo todo", brada Tyler.

Na palavra "sombra", sua voz se rompe como um relâmpago. Quando a poeira baixa, Dodd acalma o ouvinte com repetições em falsete do refrão "turn around bright eyes". É inevitavelmente épica.

Mas Total Eclipse of the Heart é uma "power ballad"? O termo é normalmente utilizado para descrever um subgênero do rock e do hair metal popularizado nos anos 1980 — músicas de andamento lento que alcançam grandes altitudes musicais, vocais e emocionais, impulsionadas por riffs de guitarra e baterias estrondosas.

No entanto, o termo também foi atribuído a músicas que não são rock: a lista do jornal The Telegraph das 21 melhores power ballads inclui Nothing Compares 2 U, de Sinead O'Connor; a lista da Smooth Radio inclui I Have Nothing, de Whitney Houston; e, em um artigo para a BBC, Nick Levine descreveu a gravação de I Will Always Love You, de Houston, como "a power ballad definitiva".

Chamar baladas poderosas de "power ballads" ocasionalmente gerou irritação entre jornalistas de música e cultura, mas isso é um resultado inevitável de uma etimologia pouco clara.

O especialista e acadêmico David Metzer observa que o termo já era usado em 1970 na revista Billboard — para descrever a música de Tom Jones e Engelbert Humperdinck — e nunca foi aplicado exclusivamente ao rock.

Bonnie Tyler morreu aos 75 anos
Bonnie Tyler morreu aos 75 anos
Foto: PA Media / BBC News Brasil

"Power ballad" é mais bem compreendido como um termo independente de gênero para descrever músicas que seguem uma fórmula específica. O elemento central dessa fórmula é a "escalada contínua", escreve Metzer na revista Popular Music, apontando Barry Manilow como um de seus primeiros adeptos por meio de sua produção pop dos anos 1970.

De fato, canções de Manilow como Weekend in New England e Looks Like We Made It são marcadas por inícios discretos que conduzem a crescendos orquestrais e mudanças de tom culminantes.

Outros sucessos pop dos anos 1970, como All By Myself, de Eric Carmen, e When I Need You, de Leo Sayer, também recorrem a essas convenções. Ao entrar nos anos 1980, essa fórmula passou a ser explorada com mais intensidade e reinterpretada sob a ótica do rock (especialmente o soft rock) e do hair metal (um subgênero do heavy metal influenciado pela música pop).

Antes do lançamento de Total Eclipse of the Heart, essas power ballads de orientação roqueira já estavam presentes nas paradas britânicas, mas ainda não eram dominantes.

Apenas algumas haviam chegado ao top 10 no início dos anos 1980, entre elas Babe, do Styx (1980, pico na sexta posição); Keep On Loving You, do REO Speedwagon (1981, pico na sétima); In the Air Tonight, de Phil Collins (1981, pico na segunda); Hard to Say I'm Sorry, do Chicago (1982, pico na quarta); e Africa, do Toto (1983, pico na terceira posição).

O sucesso de soft rock Woman in Love (1980), de Barbra Streisand, que chegou ao topo das paradas, tangencia o status de power ballad, mas lhe falta a escalada dramática necessária. Isso faria de Total Eclipse of the Heart, que alcançou o primeiro lugar em 12 de março de 1983, a primeira power ballad de rock a liderar as paradas britânicas nos anos 1980.

Total Eclipse of the Heart possui excessos operáticos como Bohemian Rhapsody, do Qyeen
Total Eclipse of the Heart possui excessos operáticos como Bohemian Rhapsody, do Qyeen
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

No entanto, classificar a música como uma "power ballad" parece insuficiente. Em termos de execução, dramaticidade e ousadia, ela supera todas as canções mencionadas que circulavam pelas paradas antes e depois de seu lançamento.

Enquanto as power ballads tendem a seguir uma trajetória linear de escalada, Metzer destaca as "mudanças harmônicas repentinas" em Total Eclipse of the Heart.

"Épicas em duração, forma e paixão, [as composições de Steinman] criam seu próprio tipo de grandiosidade musical e emocional... Elas ultrapassam a categoria da power ballad", disse ele à BBC. Tom Breihan argumentou no Stereogum que "o termo 'power ballad' não descreve adequadamente Total Eclipse of the Heart, nem que seja apenas porque a palavra 'power' não tem poder suficiente".

'Teatralidade inerente'

Os envolvidos na gravação também reconhecem as limitações do rótulo "power ballad".

"Uma coisa é fazer uma grande power ballad, mas havia algo único nas músicas que Jim escrevia", disse o baixista Steve Buslowe à BBC. O engenheiro de som John Jansen concordou, considerando a música "mais excêntrica" do que as power ballads "corporativas" da época.

"Não sei como descrevê-la", disse Tyler. "Eu simplesmente adoro cantá-la!"

De acordo com o arquivo mantido pelo Newspapers.com, a música aparentemente nunca foi descrita pela imprensa da época como uma "power ballad" — ao contrário das músicas de Journey, Foreigner e Night Ranger. O rótulo foi aplicado retrospectivamente, talvez numa tentativa de dar sentido ao que desafia explicação.

Talvez não exista termo melhor, considerando que a maioria das categorias musicais é, em certa medida, reducionista. Mas há argumentos para defender a singularidade da canção.

Freya Jarman, do Departamento de Música da Universidade de Liverpool, disse à BBC que a música "claramente se destacava do universo sonoro predominante no rádio do início dos anos 1980, mas não surgiu completamente do nada; na verdade, ela representa a culminação de algumas linhas de influência distintas, todas convergindo em uma única canção de forma a torná-la particularmente marcante".

Jarman identifica o "rock progressivo" (prog rock), um gênero conhecido por suas estruturas musicais episódicas, como uma dessas influências.

A música também deve muito à admiração de Steinman pelas explosões orquestrais de Richard Wagner e pela produção sinfônica carregada de reverberação de Phil Spector.

"Faz você se sentir como um nórdico em meio a uma nevasca", disse Jansen sobre a intensidade da música, lembrando como ele e o também engenheiro Neil Dorfsman exploraram as escadarias ecoantes do Power Station para obter o máximo de reverberação.

Steinman também recorreu à sua própria experiência no teatro musical, reaproveitando a melodia da canção de uma adaptação musical abandonada de Nosferatu para a qual estava compondo a trilha.

Essa teatralidade inerente é o que faz de Total Eclipse of the Heart uma intervenção tão marcante na história das paradas musicais. Além do material de Steinman para Meat Loaf, é difícil identificar muitas músicas de perfil semelhante que tenham alcançado posições tão altas nas paradas.

Talvez o exemplo mais próximo seja o sucesso de 1975 do Queen, Bohemian Rhapsody, cuja intensidade operística encontra paralelo nos excessos wagnerianos de Total Eclipse of the Heart. A teatralidade de Steinman também o transformou em um alvo frequente da crítica.

Em uma resenha do álbum Faster than the Speed of Night, de Tyler — lançado em abril de 1983 e produzido por Steinman — o crítico de rock Trevor Dann criticou sua falta de sutileza e escreveu no Sunday Telegraph que "Bonnie deveria ser levada para assistir a um show de Joni Mitchell".

O Guardian classificou o disco como "uma curiosidade divertida e levemente kitsch". Mas o álbum alcançou o primeiro lugar nas paradas, com outros destaques incluindo a brilhantemente frenética faixa-título e uma eletrizante versão de Have You Ever Seen the Rain?, do Creedence Clearwater Revival.

Total Eclipse of the Heart foi escrita por Jim Steinman, que morreu em 2021
Total Eclipse of the Heart foi escrita por Jim Steinman, que morreu em 2021
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

A morte de Steinman, em 19 de abril de 2021, desencadeou uma onda de homenagens reconhecendo seu impacto.

"Que músicas extraordinárias. Que compositor extraordinário", escreveu no X a também compositora Diane Warren, cujas próprias power ballads para Cher, Céline Dion e Aerosmith dominariam o fim dos anos 1980 e os anos 1990.

Dion, que gravou It's All Coming Back to Me Now, de Steinman, publicou que ele era um "gênio musical".

Tyler lembra que, depois de seu segundo álbum com Steinman (Secret Dreams and Forbidden Fire, de 1986), "as pessoas costumavam escrever músicas para mim, e dava para perceber que estavam tentando copiar o estilo [de Steinman] — mas simplesmente não funcionava".

'Emotividade poderosa'

As power ballads passaram a ter uma presença mais visível nas paradas britânicas após o sucesso de Total Eclipse of the Heart, ainda que poucas tenham alcançado as alturas vertiginosas do melodrama de Steinman.

Nos anos seguintes, músicas como I Want to Know What Love Is, do Foreigner (1985); China in Your Hand, do T'Pau (1987); Nothing's Gonna Stop Us Now, do Starship (1987); e First Time, de Robin Beck (1988), todas chegaram ao primeiro lugar. Talvez o enorme sucesso de Steinman e Tyler tenha despertado o apetite do público por sons igualmente grandiosos e dramáticos.

É possível ouvir a influência de Steinman na grandiloquência de power ballads mais contemporâneas, como Battlefield, de Jordin Sparks; Hold My Hand, de Lady Gaga; e Drivers Licence, de Olivia Rodrigo.

"Ele também teve uma contribuição mais ampla ao ajudar a colocar a emotividade intensa no mapa da música", observa Jarman, destacando como Steinman abriu caminho até mesmo para faixas como Nothing Else Matters, do Metallica; Wind of Change, do Scorpions; e How You Remind Me, do Nickelback.

"Não é uma linha direta, e ele não é a única influência, mas acho que é uma figura fundamental nessa fusão entre emotividade e rock."

Independentemente do rótulo ou da classificação, Total Eclipse of the Heart resistiu à passagem do tempo. Em 1995, a cantora britânica e futura participante do Eurovision Nicki French alcançou sucesso com uma versão dançante que obteve boa posição nas paradas.

Ela sustenta que é possível gostar das duas gravações, dizendo à BBC: "se você está a fim de dançar pela sala, coloca a minha; se prefere simplesmente ficar sentado e mergulhar em todo o grande drama da música, escolhe a da Bonnie".

A canção também ganhou novas versões em tempos mais recentes.

Chloe MK interpretou a música no The Voice (EUA) em 2017, competição que venceu. Em entrevista à BBC, ela explicou que "a letra 'cause we'll never be wrong' ('porque nunca estaremos errados') capta perfeitamente o que significa desejar e precisar desesperadamente de alguém... a ponto de isso só poder estar certo".

Total Eclipse of the Heart também foi apresentada na popular série de televisão Glee, usada em campanhas publicitárias, e uma família galesa viralizou em 2021 com uma reescrita inspirada pelo lockdown, intitulada Totally Fixed Where We Are.

"É muito legal que a música pareça não querer ir embora. As pessoas continuam usando ela!", disse Buslowe.

Bonnie Tyler disse que nunca cansou de cantar seu maior sucesso
Bonnie Tyler disse que nunca cansou de cantar seu maior sucesso
Foto: Getty Images / BBC News Brasil

No entanto, é a gravação original que permanece gravada na memória coletiva. Isso se deve em parte ao talento involuntário de Steinman ao tornar a música à prova do tempo por meio da letra: suas reproduções em streaming disparam sempre que ocorre um eclipse solar.

Tyler também atribuiu parte do impacto ao videoclipe enigmático e homoerótico da canção, no qual ela corre freneticamente por um internato gótico cercada por ninjas, homens de peito nu e coristas levitando. Quando questionada se ainda não faz ideia do que tudo aquilo significava, ela responde: "Acho que ninguém faz!"

Em última análise, é a combinação entre a escrita épica de Steinman e a interpretação feroz de Tyler que continua a fascinar os ouvintes. Total Eclipse of the Heart ultrapassou os limites da categoria das power ballads antes mesmo de a power ballad ter se consolidado como uma linguagem musical dominante.

"Não consigo pensar em nenhuma outra música daquela época que tivesse um impacto tão grande quanto essa", disse Dodd à BBC.

"Era um conceito de canção totalmente diferente. É uma história, é teatro, e deu certo!"

Esta é uma versão atualizada de uma reportagem originalmente publicada em 2023. Leia a reportagem original em inglês no site da BBC Culture.

BBC News Brasil BBC News Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização escrita da BBC News Brasil.
Compartilhar

Comentários

Os comentários são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião deste site. Se achar algo que viole os termos de uso, denuncie.

Publicidade
Meu Terra