Irã: Copa do Mundo de Cinema
A gênese da sétima arte no país remonta a 1900, quando ocorre a primeira exibição de um filme ao xá Mozafaradim e sua família. Apenas em 1930 estreou Dokhtar Lor, primeiro filme falado iraniano
Por Tem Que Ver*
Disputar a Copa do Mundo da FIFA deste ano foi muito mais do que apenas um evento futebolístico para o Irã. Representou um ato de defesa da soberania nacional frente às tensões com um dos anfitriões do torneio, os Estados Unidos, que há poucos meses atacou a nação islâmica de regime teocrático. Team Melli (nome dado ao selecionado iraniano, que significa Time Nacional ou Time do Povo, em persa) inclusive teve de lidar com a barbárie no âmbito esportivo, uma vez que o governo estadunidense negou aos seus atletas e à comissão técnica o direito de estabelecer base preparatória no país durante a campanha na Copa.
Diante tudo isso, não espanta que a sina iraniana de nunca ter avançado da fase de grupos tenha sido mantida após três empates. Uma das grandes potências do futebol asiático, o Irã chegou em 2026 à sua sétima participação em Copas - a estreia ocorreu em 1978, na Argentina -, com o experiente treinador Amir Ghalenoei no comando da seleção. A vaga foi conquistada em confrontos contra Catar, Coreia do Norte, Emirados Árabes Unidos, Quirguistão e Uzbequistão, válidos pelas Eliminatórias da AFC.
No âmbito cinematográfico, o Irã se destaca pela qualidade indubitável de seus filmes, internacionalmente aclamados pela autoralidade impressa por seus cineastas, pela profundidade humanista e pela capacidade poética de driblar a forte censura política levada a efeito pelo Estado islâmico fundamentalista. A gênese da sétima arte no país remonta a 1900, quando ocorre a primeira exibição de um filme ao xá Mozafaradim e sua família. Apenas em 1930 estreou Dokhtar Lor, primeiro filme falado iraniano.
A grande virada do cinema feito no Irã aconteceria nos anos 1960 e 1970, quando irrompeu a Nova Onda Iraniana, um movimento responsável por obras consagradas como A Casa é Escura (1963), da cineasta Farroukh Farrozoad, e A Vaca (1969), de Dariush Mehrjui. Mas apenas a partir da década de 1980 houve um boom de reconhecimento do cinema iraniano como sinônimo de cinema de arte aos olhos do mundo, e acumulando premiações nos principais festivais de cinema (Cannes, Veneza e Berlim) e indicações ao Oscar de Melhor Filme Internacional. Dali em diante despontariam nomes como Abbas Kiarostami, Mohsen Makhmalbaf, Samira Makhmalbaf, Jafar Panahi, Asghar Farhadi, Majid Majidi, Bahman Ghobadi, Marjane Satrapi, Mohammad Rasoulof etc.
Escolher um único filme para representar o Irã na Copa do Mundo de Cinema foi um exercício bastante ingrato. Mas para fazer as devidas honras àquele que, para muitos, foi o grande responsável por apresentar o pais para o mundo através de suas obras, o TemQueVer e o Cine Mulholland optaram pelo longa-metragem Gosto de Cereja, de Abbas Kiarostami - que vai ganhar um remake brasileiro em breve, estrelado pelo ator Wagner Moura. Ganhador da Palma de Ouro em Veneza, o filme foi lançado em 1997 e consolidou o Irã como uma das potências intelectuais do cinema contemporâneo, desafiando a censura estatal e os dogmas religiosos através de uma estética radicalmente minimalista.
A premissa de Gosto de Cereja é simples, mas de uma profundidade avassaladora. Badii, um homem de meia-idade, cavou uma cova na terra e planeja se suicidar naquela noite. Ele dirige por Teerã em busca de alguém que aceite o peculiar trabalho de ir até o local, de manhã cedo, e verificar a sua condição: se Badii estiver morto, deve cobri-lo de terra; se estiver vivo, deve ajudá-lo a levantar. Nunca sabemos o motivo pelo qual aquele homem quer morrer - portanto, Kiarostami remove, aqui, o drama simplista típico das obras de Hollywood. O sofrimento dele não precisa de justificativa factual; ele existe, e isso basta. O filme elevou o cinema do Irã ao patamar de arte filosófica de primeira grandeza, provando que as restrições políticas e técnicas, quando filtradas por uma inteligência artística refinada, podem gerar liberdade estética de ordem monumental.
*Texto originalmente publicado no portal Tem Que Ver Cinema
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